Farfetch é uma “billion dollar company”

A Farfetch anunciou o financiamento de 76 milhões de euros (85 milhões de dólares) na quinta ronda de investimento liderada pela DST Global. Este novo investimento avalia a empresa luso-britânica em 894 milhões de euros (mil milhões de dólares).

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José Neves (fundador da Farfetch) foto: Robert Astley Sparke

O fundo será usado especificamente  na expansão internacional com novos sites de idiomas locais, incluindo alemão, coreano e espanhol (para Espanha e América Latina); abrir novos escritórios em mercados globais estratégicos; também aproximar-se dos novos mercados Japão e Austrália devido à procura/potrncial nestas praças. O investimento também irá acelerar o crescimento dos serviços omni-channel da empresa e ofertas aos clientes, incluindo entrega em um dia útil em vários mercados globais, além do contínuo crescimento dos programas VIP e de fidelidade para consumidores da Farfetch em 180 países.

José Neves, fundador e CEO da Farfetch, comentou: “Tivemos uma jornada incrível até agora e é óptimo adicionar a DST Global para o nosso já fantástico grupo de investidores para a próxima fase de crescimento da Farfetch. O desafio agora é continuar a inovar e focar na criação de uma marca global duradoura”.

A Farfetch é uma forma revolucionária de comprar moda. O site pioneiro reúne mais de 300 das melhores boutiques de designers independentes do mundo, desde Paris, Nova York e Milão até Bucareste, Kuwait e Tóquio. As boutiques parceiras Farfetch ocupam um total de 1 milhão de metros quadrados de espaço de venda a retalho em 30 países. Permitem que os clientes Farfetch, através de 180 países em todo o mundo, possam fazer compras de uma gama incomparável de marcas e peças únicas.

As lojas parceiras foram cuidadosamente selecionadas pela sua abordagem única, com visão de futuro, atitude e diversidade, e incluem boutiques de renome como Browns em Londres, L’Eclaireur em Paris, H. Lorenzo em LA, Fivestory em Nova York e Smets no Luxemburgo.

Fundada em 2008 pelo empresário português José Neves, a Farfetch oferece a estas boutiques físicas a oportunidade de competir com os principais players do reatalho online. E, para os amantes da moda, oferece a oportunidade de comprar pelo mundo.  A Farfetch é uma empresa luso-britânica, mas a tecnologia da Farfetch é 100% portuguesa, desenvolvida em Leça da Palmeira.

Em entrevista com Francisco Spínola

FS

Personalidade do ano, na 19ª edição da Gala do Desporto da Confederação do Desporto de Portugal, no passado novembro, Francisco Spínola é  administrador da Ocean Events Portugal e um dos grandes responsáveis pela inclusão de Portugal no mapa da elite do surf mundial, com a realização em Peniche de uma das etapas do circuito mundial da ASP, o Rip Curl Pro Portugal.
Costumo dizer que não somos o maior país de surf do mundo, mas somos talvez o mais consistente país de surf do mundo, há sempre um canto que dá ondas!
intro

A minha primeira entrevista presencial … saí de casa com uma hora de antecedência, mas o meu sentido de orientação fenomenal traiu-me e acabou por acontecer o seguinte: entrevistado a ir buscar entrevistadora. Já com um ligeiro atraso, numa sala de reuniões na sede da sua empresa, a NIU-Brand Activation, num tom super relaxado e informal, tive uma conversa espectacular com o principal responsável pela presença dos maiores eventos de surf em Portugal. Mesmo quem não tem interesse pelo desporto, deve ter noção de que o surf tem feito com que Portugal esteja nas bocas do mundo e que a sua contribuição para a economia portuguesa está a ser cada vez maior. Pelo trabalho desenvolvido e  pela oportunidade de o entrevistar, obrigada Francisco!

 

O Francisco está por detrás da organização dos mais importantes eventos ligados ao surf cá em Portugal. Antes de passarmos a questões mais complexas relacionadas com o futuro desta organização, diga-me, porquê o surf?

O surf porquê? Bem, nós fazemos muitos eventos, não só de surf, mas o surf foi um…para já porque eu sou surfista, e comecei a trabalhar há uns anos numa empresa de surf que é a Rip Curl, que hoje em dia é um dos nossos principais patrocinadores. Mas foi através da Rip Curl que trouxemos o maior evento de surf que existe no mundo aqui para Portugal, o WCT, e depois a partir daí conseguimos estabelecer uma ligação com a ASP, que é a FIFA do surf, Achámos que Portugal tinha todo o potencial para trazer essa prova, a chamada fórmula 1 do surf, para cá. Num primeiro momento identifiquei esta oportunidade por ser surfista, mas Portugal tem de facto todas as condições para se fazerem eventos desta dimensão, condições naturais! Porque por melhores condições que haja na Alemanha ou noutros países, estes nunca vão poder ter o tipo de eventos que nós podemos ter cá, temos vantagens comparativas mas também competitivas sustentáveis: estas ondas são um recurso natural que mais ninguém tem.

Como começou esta carreira empreendedora? Pode-me contar por alto o seu percurso até chegar hoje a Administrador da Ocean Events Portugal ?

Eu tirei o curso de comunicação empresarial e fiz vários estágios profissionais em várias empresas, como a Nestlé, depois fui fazer uma pós-graduação, um MBA, na Austrália, em Sidney, sempre com ligação ao surf. Depois, voltei para Portugal, quando cheguei estive alguns anos a fazer alguns eventos e comecei a trabalhar com a Rip Curl Europa. Entretanto trouxemos este evento muito grande da Rip Curl e passado dois anos ficámos a gerir o marketing da marca em Portugal. Mas criámos uma empresa, a Ocean Events, que representa neste momento todos os eventos internacionais de surf que se realizam em Portugal, representa agora a World Surf League. Entretanto, temos uma parceria estratégica com a NIU – Brand Activation, um dos sócios desta empresa é meu sócio também, o Nuno Santana (nós já tínhamos projectos em conjunto), o que nos permitiu abrir por um lado uma área de eventos mais ligada ao entretenimento e por outro lado uma parceria estratégica, porque a NIU faz tudo o que é produção, isto é, nós aqui fazemos o evento de A a Z.

É verdade que uma grande maioria dos nomes ligados à organização destes eventos são eles próprios surfistas? (amadores ou não) Sente que isto leva a uma maior entrega e motivação num objetivo comum? E em poucas palavras, qual é este objectivo comum?

Sim, sim, muitos, é um mix, eu diria 50-50. Na minha empresa, na Ocean Events, cerca de 80% são surfistas. Claro, leva a uma maior entrega e motivação num objectivo comum sim, e este é entregarmo-nos àquilo a que nos propomos, que é um evento de qualidade internacional, que por um lado promova Portugal enquanto destino  de surf, por outro lado promova o desporto, o surf em si, enquanto estilo de vida saudável, e que por outro lado ainda permita às marcas que compõem o evento se posicionarem.

Como tem ajudado a vender a imagem de Portugal como destino de excelência para o surf? “Há sempre ondas em algum lado”? Creio que utilizou esta expressão no passado.

Sim, costumo dizer que nós não somos o maior país de surf do mundo, mas somos talvez o mais consistente país de surf do mundo, há sempre um canto que dá ondas. Há até um claim  do Turismo Portugal que nós ajudamos a contruir que é o “You wil find waves in every corner”, porque como a costa é muito recortada, temos muitas ondas diferentes o que permite que os surfistas venham cá e experimentem várias ondas, não estejam constantemente a surfar a mesma onda. Desde a onda da Nazaré, aos super tubos, às ondas de rife da Ericeira, ondas mais urbanas em Cascais, umas mais fáceis na Costa da Caparica…e por aí fora, no Norte, no Sul…a verdade é que Portugal, em 700km de costa tem ondas em todo o lado!

Agora estava aqui a pensar no caso das ilhas. Sei que nos Açores há um prime, e na Madeira?

Nos Açores temos um prime sim, na Madeira ainda não há nada, mas estamos a pensar, num futuro próximo, trazer também um evento para a Madeira.

O surf é manifestamente um elemento da política do mar. Como é que pensa que o surf vai contribuir para a estratégia nacional do mar?

O surf é provavelmente um dos case studies no que diz respeito às políticas económicas relacionadas com o mar. Por exemplo, temos um evento em Peniche que já lá está desde 2009 e já são notórios os efeitos económicos e socioeconómicos que o surf trouxe para aquela região. Neste momento há toda uma economia que vive à volta do surf, practicamente o ano todo. Ainda por cima o surf tem uma característica muito boa que é a contra-sazonalidade. Normalmente estes destinos só estão cheios entre Julho e Agosto, que é a pior altura para o surf, portanto o surf ajuda a trazer pessoas fora dessa época, na chamada época baixa. Portanto o corte de sazonalidade é muito interessante do ponto de vista económico e por outro lado vemos investimentos em novos hotéis e na remodelação de outros só para atingir as expectativas dos visitantes surfistas. No fundo a lógica aqui é tentar vender o surf como os Alpes vendem a neve, em que as pessoas quando pensam em neve pensam em ir aos Alpes. Nós queremos que os europeus (numa primeira fase) quando pensarem em surf pensem em vir a Portugal, e essa é a estratégia.

Podemos afirmar, sem dúvida alguma, que Portugal é o maior país de surf da Europa? Não tanto em termos de atletas, se bem que pelo que sei estamos bem lançados nesse aspecto, mas mais em termos de eventos.

De atletas somos também claramente dos melhores, neste momento temos um campeão do mundo de júniores, temos o Tiago Pires que foi muitas vezes do top 44, … Em eventos somos claramente o país mais forte de surf da Europa, e em ondas somos CLARAMENTE o país mais forte de surf da Europa, e isso os franceses e os espanhóis já o admitiram publicamente. Portanto, agora com este investimento que tem sido feito quer em eventos quer na promoção, o Turismo Portugal delineou como objectivo chave a promoção do surf português e acho que estamos a conseguir. Estamos com um posicionamento gigante, ainda há pouco tempo saiu uma reportagem numa revista norte americana para milhões e milhões de pessoas de 8 páginas só a a falar de Portugal. Portanto, Portugal está com um posicionamento enorme para ser o maior país de surf da Europa…

Já é…

Sim, já é o maior país de surf da Europa e está a fortalecer cada vez mais essa posição.

Então as aspirações extra-Europa, quais são? Acha que algum dia vamos estar ao nível da Austrália ou do Havai?

Sim, nós a pouco e pouco vamos chegar lá. Mas nós temos de ser realistas e procurar atingir objectivos reais, se não não atingimos nada. Para além do mercado europeu, estamos a procurar atingir o mercado da costa leste dos E.U.A., pois é mais fácil para quem está aí vir surfar a Portugal do que ir surfar à Califórnia que fica na outra ponta dos E.U.A. e onde as distâncias dos aeroportos às ondas são maiores. Outro alvo é o Brasil, há muitos surfistas brasileiros, e estão no nosso top 5 de visitantes. Vamos longe, mas obviamente que isto não se atinge em um ou dois anos, a Austrália, o Havai, estão há 100 anos a investir no surf. Temos um longo caminho, mas estamos no bom caminho.

Em relação ao impacto do surf na economia portuguesa, fiquei espantada com o número que foi apontado para as receitas geradas pelo surf há um ano: 400 milhões. Donde vêm estes milhões? É uma estimativa? Englobam já o impacto indirecto no turismo?

Sim, isso são dados directos e indirectos, Nós olhamos para a nossa parte dos eventos, e no que toca aos eventos, estes são um pólo de desenvolvimento muito grande para a região e eu prefiro nunca falar só de estudos. Eu sou uma pessoa que vive sempre na economia real, nunca lido muito com os mercados financeiros, isso para mim é tudo uma coisa muito artificial, eu gosto de ver as coisas a serem feitas e a senti-las,entendes? E os números são aquilo que nós queremos que eles sejam, portanto os estudos são muitas vezes aquilo que nós queremos que eles digam. Agora a verdade é, vão a Peniche, vão à Ericeira, vão às zonas de excelência de surf e vejam quanto o surf tem marcado aquelas zonas, falem com pessoas que nada têm a ver com o surf e vão ver o que elas dizem: dizem que o surf mudou aquela zona.

Só no ano passado a World Tour foi vista ao longo do ano por 200 e tal milhões de pessoas, portanto nós aqui estamos a falar de uma média por evento de 4 milhões de espectadores (só na internet) e portanto é um número já muito animador no que toca à promoção do destino de Portugal, porque não estamos a falar de ténis ou de um jogo de futebol que se pode fazer num estádio construído em qualquer lado do mundo, aqui não, tem de haver o factor natural, e ondas como os supertubos da Nazaré, ou ondas como as da Ericeira e Cascais não existem em mais lado nenhum assim, há algumas mas contam-se pelos dedos de duas mãos – só existem 10 provas destas no mundo inteiro.

Eu não vou então insistir nesta parte dos números, mas por exemplo as vendas de produtos ligados ao surf, como as mochilas e casacos da Ericeira por exemplo, estão incluídas nesse estudo?

Claro, só na indústria estamos a falar para aí de 120 milhões. Mas os eventos têm um impacto directo e indirecto de 30/40 milhões. Nós no estudo do WCT de há três anos falávamos de 12 milhões de retorno para a economia local durante 10 dias, portanto multiplicar isto ao longo do ano dá esses números, o número…não acho que seja um número por aí além, é um número bom mas não acho que seja estapafúrdio, aliás se formos a ver, o turismo representa cerca de 10% do PIB português. Sendo o surf  uma parte pequena, ainda que pequena é muito interessante lá está por causa da questão das sazonalidades, não vale a pena estar a criar mais mercado no Algarve em agosto, temos taxas de ocupação de practicamente 100%, esta é uma forma de estarmos a criar novos mercados para épocas baixas. É a grande questão…como o golfe! O golfe também é bom em outubro, que é uma época baixa. Eu acho que o surf e o golfe são bons exemplos disso, de como determinadas actividades podem potenciar o turismo directamente.

Então se falassemos de uma cadeia de valor ligada ao surf, tínhamos os eventos, a indústria, o turismo, os impactos locais…?

Sim, sim, basicamente estamos a falar de eventos, indústria, indústria ligada directamente, o turismo e obviamente depois todos os praticantes e consumidores têm outro impacto ainda, os surfistas são pessoas que se mexem muito, que têm uma mobilidade muito grande, vão para Sagres passar o fim-de-semana, vão para a Ericeira surfar, para o Porto…e esta mobilidade também entra nessas contas.

Então, já falámos bastante sobre os pontos fortes desta cadeia de valor, consegue-me identificar algumas fragilidades dessa cadeia de valor?

Há sempre ainda a questão de ser um nicho de mercado, não é? E se pensarmos no muito longo prazo e se formos pessimistas sempre podemos falar das questões ambientais, do nível de subida do mar…Mas de facto, fragilidades são poucas, a meu ver.

De que tecnologias o surf é beneficiário? Quais são os graus de inovação que estão ao alcance das empresas portuguesas? (novos desenhos aerodinámicos para as pranchas, novos materiais de produção, etc.)

Muitos materiais já são produzidos em Portugal, aliás quase tudo o que é necessário já é cá produzido. Em termos de inovação, posso dar um exemplo que superou as preocupações de alguns, que era o desperdício dos fatos de surf de borracha que não tinham outro uso quando já estavam desgastados, simplesmente iam para o lixo, agora o que se tem feito é reciclar esses fatos para produzir, por exemplo, solas de sapatos.

Pode-me falar um pouco sobre o ecosistema ligado ao surf? Eu explico: organizações, financiamentos, patrocínios, pessoas, dependências, o que alimenta o surf e o que o surf por sua vez alimenta… Em suma, as suas componentes.

Os eventos de surf são de facto muito dependentes dos patrocínios sim, é essa a grande fonte de financiamento, e duvido que esta situação se altere nos próximos anos, porque o surf não é suposto ser um desporto que se pague para ver. Principais patrocinadores são de três tipos: as Câmaras Municipais, o Turismo Portugal e sobretudo marcas privadas.

Um tema relevante para a Europa e Portugal: o envelhecimento activo e saudável da população. O que é que o surf pode ter a ver com isso? Têm focado a atenção num público alvo jovem, vão tentar alargar o foco?

Claramente que o surf forma um estilo de vida saudável, sim. É acordar cedo, porque as melhores ondas por regra são de manhã, é estar ao ar livre, é nadar, é tudo… Não é propriamente um público jovem já, nos eventos vê-se de tudo. E o que tem acontecido cada vez mais é os pais que vão deixar os meninos nas aulas de surf acabam por aproveitar o tempo de espera para experimentar e acabam por ficar praticantes.

Em termos estatísticos, homens-mulheres quais os rácios? Claramente começou por ser um desporto masculino, ou não? Sente uma cada vez maior adesão feminina?

Sim, começou sim, mas a adesão feminina está a ser gigante, os rácios estão cada vez mais aproximados. Aliás, o crescimento é maior nas mulheres do que nos homens.

Tenho aqui uma pergunta que foi pedida por um amigo meu surfista. Vimos agora o Tiago Pires deixar a elite do surf mundial e muito se tem falado de possíveis sucessores. Mas a verdade é que os nosso atletas não têm as oportunidades que têm os australianos ou americanos.

Falo a dois níveis: 1- Centros de treino e de alto rendimento. Na Austrália temos o famoso HPC, em Portugal, e nos últimos tempos, têm-se vindo a tentar desenvolver centros do género, como o de Peniche por exemplo. No entanto são locais que não estão acessiveis a todos os surfistas, portanto na sua opinião o que é que ainda pode ser feito neste sentido?

Como já referi, temos de nos relembrar que o surf está instalado na Austrália e nesses países há mais de 100 anos, não é verdade que estejam acessíveis a todos os surfistas, isso nunca vai acontecer, mas no que toca a Portugal, estes centros estão a ser desenvolvidos e havemos de lá chegar.

2 – O outro aspecto é a nível de patrocínios. Temos o Vasco e o Kikas com apoio suficiente para correr o circuito mundial de qualificação. Talvez o Tomás Fernandes e o José Ferreira, mas não temos mais ninguém. Surfistas como o Miguel Blanco, João Kopke, Filipe Jervis não têm o apoio que necesitam para conseguir competir com os melhores. Para onde vai tanto dinheiro pelo surf gerado? O que acha que pode ser feito no sentido de fazer chegar este “boom” económico que o surf tem gerado aos surfistas que tanto dele precisam? O que é que justifica o desinteresse das marcas em apoiar os atletas?

Eu sou da opinião de que devia haver mais apoio financeiro aos surfistas, mas a realidade é aquela em que vivemos. Já não funcionamos a nível nacional, se alguém quer sobressair, tem de sobressair a nível global. É uma realidade dura, mas os surfistas têm de atingir resultados sozinhos, não podem ficar à espera que os patrocínios caiam do céu, têm de se chegar à frente e de ser os melhores! Mas mais uma vez, friso, sou da opinião de que as marcas devem estar mais atentas a um maior número de surfistas.

Por fim, gostava de voltar a focar a atenção no facto de o Francisco ser um empreendedor de sucesso bastante jovem (33, 34 anos certo?). Tem algum conselho para nós jovens?

34 anos, sim. Posso referir aqui algumas coisas sim:

Em primeiro lugar, há que ser CONSISTENTE, sem consistência não se vai a lado nenhum. Depois temos a EDUCAÇÃO, claro que há muitos empreendedores de sucesso que não tiraram um curso universitário ou profissional, mas acredito que a educação é o caminho certo, pelo menos eu senti a necessidade de me educar, aquele MBA na Austrália foi uma necessidade que senti.

ACREDITAR, nunca mas nunca parar de acreditar e com isso vem a PERSISTÊNCIA mas também a capacidade de saber ESPERAR, não vem tudo de uma vez só.

QUESTIONAR SEMPRE, nunca fazer uma coisa de uma certa forma só porque sempre foi assim feita, e ao longo do processo questionarmo-nos sempre “porque estou a fazer isto?”.

Por fim, IR PORTA-A-PORTA! Agarrar num low-cost e ir lá. Nós conseguimos estas licenças todas porque eu há não sei quantos anos atrás meti-me num avião e fui lá falar directamente com eles. Fui dizer-lhes que as ondas eram boas, que Portugal tinha altas ondas, toda a gente acha que toda a gente sabe que Portugal tinha altas ondas e que o surf era conhecido, mas não era.

A cada dez nãos, levas um sim, portanto é nunca perder a MOTIVAÇÃO, sempre que levas um não, é alegrares-te porque estás mais próximo de levar um sim, segundo este rácio, se levas um não já só faltam nove para o sim, levas outro já só faltam 8…É este o meu conselho, que eu não acredito muito em sorte, acredito em educação, consistência, trabalho e vá… numa pinguinha de sorte.

 

fotos: DR

 

Voluntariado – um testemunho na primeira pessoa

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Beatriz Santos e Sousa Jesus tem 19 anos,  nasceu em Leiria, onde viveu até aos 14 anos, residindo, desde então, em Lisboa. Frequenta o 2º ano de Economia na Católica Lisbon School of Business and Economics e ambiciona uma carreira na área da consultoria ou na Banca. Um mestrado em gestão ou finanças será o próximo passo.

As viagens e o voluntariado são duas das suas paixões e o exercício físico, a ajuda no estudo e a catequese fazem parte das suas actividades.

É uma experiência para a vida, que não deixa ninguém indiferente.

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P: Com que idade começaste a fazer voluntariado?
No primeiro verão em que fui, tinha 18 anos.

P: Qual foi a tua principal motivação?

Senti que teria 3 meses de férias e a ideia de me pôr ao serviço dos outros durante um mês interessou-me bastante.

P: Através de que Instituição praticaste voluntariado? 
Integrei um grupo de 15 jovens, que foi conduzido pelo movimento católico Schoenstatt.

P: Quantas experiências tiveste e em que países?
Desenvolvemos duas missões, em verões consecutivos, em Bafatá, na Guiné-Bissau.

P: O que sentiste ao chegar ao primeiro local de missão?
O primeiro impacto é sempre duro, visto ser uma realidade totalmente oposta aquela em que vivo diariamente. No entanto, com o passar dos dias, e à medida que conhecia os guineenses, fui-me sentindo cada vez mais em casa. Começamos gradualmente a deixar de lado as diferenças, e a agarrar-nos aquilo em que somos todos iguais. Passado uma semana (ou nem tanto), já me sentia mesmo “encaixada” naquela comunidade.

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P: O que mudou em ti depois do voluntariado?
Experiências como esta nunca nos deixam indiferentes. Pessoalmente, mudei a minha visão do mundo e do dia-a-dia. Cheguei ao meu quarto e senti-me mesmo desconfortável. Pensar que naqueles 10 ou 15 metros quadrados tenho mais comodidades e objetos do que a maioria dos guineenses tem na sua casa toda, é algo perturbador… E coisas como deixar a torneira aberta enquanto lavo os dentes agora, que experienciei o quão escassa a água potável, por exemplo na Guiné, é para mim, hoje, impensável.

P: Achas que mudaste a vida de alguém nas acções em que participaste?
Todos nós tivemos certamente um papel importante na vida das pessoas com quem nos cruzámos em Bafatá, tal como eles tiveram na nossa. Ensinamos-lhes imensas coisas, mas acho que quem aprendeu mais, no final de contas, fomos mesmo nós. Aprendemos o que é ser simples, humilde, grato e, sobretudo, feliz com aquilo que temos (que é tão mais do que julgamos, à primeira vista…).

P: O que mais te marcou nelas?
Sem dúvida o grupo de jovens com quem lidámos. A nossa Missão desenvolveu-se durante três verões consecutivos, entre 15 portugueses e 15 guineenses, com o intuito de lhes transmitir este “bichinho” da Missão, de modo a que, no futuro, fossem eles os protagonistas da Missão Guiné, visto que não tornaremos a voltar lá, pelo menos num futuro próximo. Eles valorizaram tanto a nossa ida até eles, e a nossa atenção, que frequentemente nos comovíamos.

Outra coisa que me marcou imenso foram as idas ao hospital, completamente desprovido de condições básicas, e com tantas situações tristes, como casos de crianças subnutridas, mães muito jovens, etc.

P: Vais repetir a experiência?
A Missão Guiné já foi concluída, depois de três anos em cheio. E eu tive a sorte de poder participar em dois desses três anos. No entanto, com o fim dos estudos a aproximar-se, a disponibilidade será certamente cada vez mais escassa. Espero sinceramente vir a desenvolver algo do género no futuro, pois é em experiências como esta que se dá valor ao que se tem, que se cresce interiormente e se percebe o que é ser genuinamente feliz, através de todos os testemunhos com que nos cruzamos.

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P: O que dirias a quem pensasse em fazer voluntariado? 
“Porque é que ainda não te inscreveste?”. Sinceramente, acho que é um grande passo. No meu primeiro ano estava muito reticente e com algum medo, não vou esconder. Mas quando se está lá e se vivem grandes momentos, como os que nós tivemos a sorte de viver, não se quer voltar a Portugal!

É uma experiência para a vida, que não deixa ninguém indiferente.

 

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Maria Modista – uma escola de costura contemporânea

MMx2Num andar, em Lisboa, reside a Maria Modista, uma costureira alegre, simpática e cheia de vivacidade. Com a linha pronta na agulha, reúne todos os conhecimentos para ensinar as técnicas mais actuais e ajudar a tornar as ideias das suas alunas em peças únicas e perfeitas para cada estilo pessoal.
Eu pensava que esta ideia não ia chegar a muitas pessoas, não tinha noção que tanta gente tinha o gosto, tal como eu, de aprender a costurar.

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A Excelência Portugal quis saber mais sobre este projecto e foi conhecer pessoalmente a Maria Modista, uma escola de costura original desenvolvida por Filipa Bibe.

Deparámos com um negócio de sucesso que veio despertar a arte do “Corte e Costura”, há demasiado tempo guardada na sabedoria das nossas avós, e deixar qualquer pessoa com a vontade de aprender.

 

Como é que nasceu a Maria Modista?
A Maria Modista nasceu depois de eu estar à procura de sítios onde pudesse aprender melhor a costurar. Eu já sabia trabalhar com a máquina e algumas técnicas básicas mas queria desenvolver mais para poder criar peças para mim e dentro do meu estilo.

Mas tudo o que encontrava era muito tradicional e antiquado! Existiam opções lá fora mas era tudo muito caro. Depois desta procura frustrada, surgiu a ideia de criar um espaço  onde se pudesse aprender a costurar peças mais contemporâneas e com técnicas mais actuais.
 
 
Então a Filipa não tinha formação particular na área?
Embora já tivesse o contacto com a costura, não é a minha área de formação! Antes da Maria Modista tinha um escritório de Contabilidade e trabalhava nesta área. No entanto,  já estava desmotivada e como a costura era para mim um prazer, pensei que talvez fosse uma boa ideia e que mais pessoas estivessem à procura de uma escola com estas características.
 
 
Como foi tornar esta ideia em realidade?
Na altura falei com a minha sócia da Contabilidade, a Patrícia Pinta, que decidiu abraçar também o projecto. Começámos por estar numa sala do nosso escritório e quando o projecto começou a crescer tivemos a necessidade de maior espaço e viemos para este andar. Agora, para além deste espaço em Lisboa, temos já três espaços em Oeiras, Torres Vedras e no Porto.
 
 
Quando começou a ganhar consciência que era um projecto de sucesso?
A partir do sexto mês comecei a perceber que o projecto ia mesmo crescer. Neste momento, a Maria Modista é o meu trabalho a tempo inteiro!
 
 
De que forma foi feito o financiamento?
Ao contrário da nossa empresa de Contabilidade, o financiamento foi todo conseguido através de um empréstimo bancário. Como o investimento não era grande, não sentimos grande obstáculos.

Começar um negócio não é fácil e inúmeras dificuldades aparecerem no caminho. No caso da Maria Modista, qual foi o maior desafio?
Professoras, arranjar professoras! Isto porque queríamos uma técnica mais moderna e fugir um bocado ao conceito da costureira muito antiga. Entretanto vimos que existiam outras formações e o perfeito é conseguir conciliar as duas. Isto porque a costureira mais antiga tem uma experiência de uma vida, o que é fantástico,  e as mais novas tem outras técnicas. Quando misturamos os dois conhecimentos conseguimos ir ao encontro das necessidades e conceito da Maria Modista.
 
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Neste momento o projecto conta já com três anos. Como tem sido a aceitação?
Eu pensava que esta ideia não ia chegar a muitas pessoas, não tinha noção que tanta gente tinha o gosto, tal como eu, de aprender a costurar. De fazer roupa para si, para os filhos ou mesmo para começar um próprio negócio. Tem tido um balanço muito positivo!
 
Sente que de alguma forma o clima de crise possa ajudar no sucesso dos negócios Do it yourself ?
Sem dúvida!
Se por um lado as pessoas percebem que aqui podem criar peças para o seu próprio guarda roupa,  por outro algumas alunas criam os seus próprios negócios através do que aprendem aqui. A Maria Modista acaba por incentivar o empreendedorismo neste sentido, dando asas a que se explore outras capacidades.
 
 
Qual o perfil da aluna da Maria Modista?
A maior parte das alunas tem idade entre os 18 e os 45. Temos também algumas avós, mais dinâmicas, que fazem muito roupa para os netos. Homens são poucos, mas vão aparecendo!
 
E quando começaram, vinham já com alguma experiência?
A maior parte vêm sem experiência nenhuma, começam do zero. Depois algumas alunas têm já alguma experiência e vêm aperfeiçoar as suas técnicas e criar peças para si.
 
Os cursos são o produto principal da Maria Modista. Como funcionam?
Os cursos funcionam em três horários: de manhã, tarde ou pós-laboral.  Pode-se escolher um dos horários entre uma a cinco vezes por semana e depois fica-se inserida numa turma. Aqui as professoras estão focadas nas necessidades das alunas, tendo uma atenção muito especializada. Algumas alunas chegam já com fotografias do que querem fazer ou uma peça que está estragada e querem fazer algo parecido. ´cada aluna pode estar a fazer uma peça diferente das outras.
Ao início começasse por fazer peças mais simples e depois vai-se desenvolvendo na autonomia e na complexidade. Apenas é necessário trazer os tecidos pois temos no espaço todo o material de costura necessário.
 
Os workshops são um produto diferente certo?
Sim, são mais direccionados para quem não pode ter as aulas durante a semana. Funcionam ao fim-de-semana e têm sempre um tema que pode ser iniciação, roupa de bebé ou biquínis. Existem muitos temas disponíveis e a calendarização pode ser vista no nosso site.
 
Cada vez aparecem no mercado opções no que toca a aprender conhecimentos tradicionais que de certa forma ganham agora outra vida. De que forma é que a Maria Modista se destaca na sua concorrência?
Como fomos as primeiras criamos logo maior impacto.
Para além disso, apostamos muito na imagem. Muito muito muito! Estamos muito presentes nas redes sociais e sinto que tem sido uma aposta ganha. Faz toda a diferença! A Maria Modista foi lançada numa altura que se tornou moda as negócios nas redes sociais o que acabou por nos ajudar na divulgação.
 
Sente que de alguma forma o clima de crise possa ajudar no sucesso dos negócios Do it yourself ?
Sem dúvida!
Se por um lado as pessoas percebem que aqui podem criar peças para o seu próprio guarda roupa, por outro algumas alunas criam os seus próprios negócios através do que aprendem aqui. A Maria Modista acaba por incentivar o empreendedorismo neste sentido, dando asas a que se explore outras capacidades. Existem algumas marcas que foram criadas por alunas desempregadas que, tal como eu, viram na costura uma forma de trabalhar numa área que gostam.
 
A Maria Modista já criou o seu próprio livro para que cada vez mais pessoas possam descobrir o mundo da costura. Como é que foi idealizado?
O livro tem os projectos que são mais pedidos nas aulas pelas nossas alunas.
Não é necessário grande experiência, apenas conhecer a dinâmica da máquina.
Lançámos o livro em Novembro e da última vez que contactei a editora foram vendidos 1500 unidades, embora sejam um número sem considerar o último mês.
Está acessível nas várias livrarias e grandes superfícies e custa 22 euros.
 
Os projectos para o futuro, quais são?
O nosso projecto futuro é conseguir alargar a marcar através de Franchising. Temos já uma escola recentemente aberta em Torres Vedras e estamos a trabalhar em novos pedidos. A ideia seria manter a marca Maria Modista mas expandir para outras locais.
 
Se pudesse, que conselhos daria a quem esteja a começar agora o seu próprio negócio?
Não ter medo de correr de correr riscos! Pensar bem naquilo que se gosta de paixão, porque já é meio caminho andado para as coisas correrem bem.
Esta ideia era uma coisa que queria mesmo e adorava concretizar, a contabilidade já não foi tanto assim. A Maria Modista foi feita de coração e realmente quando é assim resulta sempre!
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Entrevista – Marcelo Barbosa, investigador do grupo IFIMUP-IN da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

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Marcelo Barbosa, investigador do grupo IFIMUP-IN da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, ganhou no final do ano passado um prémio atribuído ao melhor poster com trabalho de investigação realizado e apresentado por um jovem investigador na conferência comemorativa dos 50 anos do laboratório de feixes de iões radioactivos ISOLDE-CERN  em Genebra, Suíça.

 

1) Podes contar-nos um pouco da tua história recente. Estás actualmente a realizar o doutoramento, qual é o teu tema?

O meu doutoramento é focado no estudo da estrutura electrónica, estabilidade e posição de átomos dopantes em nano-estruturas e filmes finos de semicondutores de grande largura de banda, como por exemplo Ga2O3, ZnO, GaN e AlN. Para este estudo utilizamos técnicas hiperfinas com núcleos sonda radioactivos.

Estes são materiais de grande interesse a nível tecnológico, nomeadamente para aplicações em nano- e microelectrónica, nano-fotónica e nano-sensores.

 

2) Em que materiais as técnicas hiperfinas são mais úteis e que informação é possível retirar sobre os materiais estudados por esta técnica?

Técnicas hiperfinas são todos os dias utilizadas nos hospitais quando se faz, por exemplo, um exame de ressonância magnética nuclear. A informação que se obtém é muito local, à escala do átomo sonda que vê o que se passa na sua vizinhança imediata. Nós utilizamos átomos radiaoctivos para ter acesso a sondas de muitos elementos diferentes, com propriedades diferentes e assim colectar uma informação mais completa do comportamento de certos elementos nos materiais.

Nas nossas medidas experimentais, é introduzida uma pequeníssima quantidade de átomos de um elemento radioactivo no material em estudo, os quais vão funcionar como sondas “hiperfinas”. A radiação que esses átomos libertam durante o seu decaimento permite-nos obter informação sobre o ambiente em seu redor à escala dos nanómetros, ou seja, permite-nos estudar propriedades do material onde se encontram a uma escala mais pequena do que qualquer microscópio permitiria. Desta forma, podemos por exemplo localizar impurezas e defeitos ao nível atómico, observar mudanças de fase nos materiais, controlar o crescimento de nano-estruturas, ou até mesmo fazer medidas in-vivo, como no estudo das propriedades bioquímicas de proteínas.

São técnicas com uma aplicabilidade bastante abrangente, tendo já sido utilizadas por exemplo no estudo de materiais semicondutores, magnéticos, multiferróicos, em grafeno, nanopartículas e em compostos biológicos como proteínas e DNA.

 

3) Em que medida o teu trabalho contribuiu para o desenvolvimento da técnica hiperfina?

A técnica hiperfina com a qual tenho estado a trabalhar baseia-se na medição da distribuição de carga eléctrica à volta das sondas (átomos) radioactivas que são inseridas nos materiais em estudo. É através da distribuição de carga que conseguimos por exemplo dizer qual a posição atómica das sondas, quem são os átomos vizinhos, quais as impurezas ou defeitos existentes, etc. Nestas circunstâncias, a distribuição de carga é constante ao longo da medida.

O meu trabalho tem sido o desenvolvimento de ferramentas que permitem o uso desta técnica em situações em que a distribuição de carga varia ao longo da medida, permitindo-nos, por exemplo, observar a recuperação electrónica depois de “arrancarmos” um electrão à nossa sonda. Essa recuperação é feita por electrões cedidos pelo material onde se encontra a sonda, ou seja, este tipo de medidas dá-nos informação sobre a facilidade com que os electrões se movem ou não no material, onde eles se vão fixar, mesmo que temporariamente,  e qual a sua concentração.   

 

4) Especificamente, podes desenvolver um pouco sobre o trabalho que apresentaste no CERN?

No trabalho que apresentei no CERN foi usada uma técnica hiperfina em amostras de Ga2O3 após implantação de iões radioactivos de cádmio e índio, com o objectivo de se determinar a localização de sondas de cádmio e as propriedades electrónicas à volta desses átomos de cádmio nesse material.

Ga2O3 pertence aos denominados óxidos condutores transparentes e é um material bastante promissor para aplicações em fotónica. No entanto, a dopagem do tipo-p (excesso de cargas positivas) necessária para a utilização deste material a nível tecnológico ainda não foi conseguida, sendo que o cádmio é um dos candidatos mais promissores para este tipo de dopagem.

 

5) Parte do teu trabalho experimental é realizado no ISOLDE, no CERN. O que achas que melhor distingue este centro de excelência? Em que medida julgas que contribuiu para a tua educação científica?

O ISOLDE-CERN é reconhecido como o laboratório líder a nível mundial na produção de isótopos radioactivos exóticos. Neste momento, o ISOLDE produz mais de 1000 isótopos e isómeros de 75 elementos químicos, os quais podem ser usados sob a forma de feixe de iões altamente puros. Tendo em conta que o uso de técnicas hiperfinas depende do acesso a isótopos radioactivos, é imediato perceber a enorme vantagem que é poder usufruir de uma infraestrutura como o ISOLDE. Para além disso, o ISOLDE faz parte do CERN, uma das melhores instituições de investigação científica a nível mundial, onde trabalham alguns dos melhores cientistas da actualidade. Poder trabalhar numa instituição desta dimensão e importância é uma oportunidade única pois tem-se acesso a condições laboratoriais únicas, associado ao facto de se trabalhar em colaboração com os maiores especialistas na minha área de investigação. O conhecimento e experiência que tenho vindo a adquirir no CERN em termos de física nuclear e física dos materiais dificilmente conseguiria em algum outro lugar.  

 

6) Grande parte do trabalho realizado no CERN pode ser considerado de Física fundamental, como a descoberta do bosão de Higgs há dois anos. Como classificas a importância deste tipo de estudo e como achas que se enquadra no contexto actual?

A descoberta do bosão de Higgs foi um dos momentos mais marcantes dos últimos anos para a comunidade científica, mas para as pessoas fora da ciência nem sempre é fácil compreenderem os elevados gastos que experiências deste calibre têm quando não parecem ter aplicações práticas no dia-a-dia, mas todo o desenvolvimento tecnológico necessário para as realizar tem grande impacto a um nível mais geral. A World Wide Web e o HTML, as duas bases daquilo que para nós é a internet hoje em dia, foram desenvolvidas no CERN para facilitar a partilha de resultados experimentais entre cientistas. Um dos primeiros touchscreens a ser construído (e provavelmente o primeiro a ser usado em termos práticos) também foi criado no CERN, para a sala de controlo de um dos aceleradores de partículas. Foram tudo invenções com objectivos científicos e que hoje são usados por quase toda a gente.

 

7) Neste contexto, como posicionas a importância da tua própria investigação.

A minha investigação é feita num ramo mais aplicado da Física aos materiais. Usamos técnicas únicas – que produzem informação – a um nível muito científico e fundamental, ou seja, apesar dos meus resultados poderem vir a ser importantes em aplicações tecnológicas futuras, o meu interesse é na explicação física dos fenómenos que observamos e não em como os podemos usar em termos práticos. Todavia – quase todos os materiais que estudamos se tornaram interessantes por terem potenciais aplicações e problemas por resolver e compreender – é essa a nossa tarefa!

 

8) Voltando ao contexto nacional, como caracterizas o estado da ciência nacional e em que medida achas que o CERN contribuiu para a ciência nacional.

Toda a gente está a sentir a crise que se vive neste momento no nosso país, e a comunidade científica não é excepção. Têm sido feitos cortes enormes no apoio às universidades e institutos de investigação, já para não falar na dificuldade cada vez maior em se conseguirem bolsas de doutoramento ou posições como investigador. Hoje em dia é quase ilusório pensar-se em fazer uma carreira científica em Portugal  tal é a dificuldade em se obterem bolsas de doutoramento e pós-doutoramento ou, pior ainda, conseguir-se um contrato como investigador. Além disso, quem consegue essas bolsas ou contratos tem os orçamentos muito apertados, o que complica a realização de experiências de qualquer tipo. Mesmo assim continua-se a fazer ciência de topo no nosso país, temos cientistas muito bons cá. No CERN existem imensos portugueses a trabalhar, mas existem ainda mais que como eu vão lá fazer experiências por curtos períodos de tempo e voltam, trabalhando em nome de institutos portugueses, por isso eu diria que o CERN tem sido um bom impulsionador da ciência nacional.

 

9) E no futuro, o que gostarias de fazer depois de terminado o doutoramento?

Eu gostaria de continuar a fazer carreira como investigador, por isso depois de terminado o doutoramento tudo aponta para que concorra a um pós-doutoramento, que é o caminho mais natural para quem quer continuar a fazer investigação.

 

foto: DR

Ana Julián – “Lisboa quando se visita uma vez, volta-se sempre!”

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 “Lisboa quando se visita uma vez, volta-se sempre!”

Artigo de opinião de Ana Julián

as relações entre Espanha e Portugal são fluídas

Cheguei a Lisboa graças a uma bolsa “Leonardo Da Vinci”, com o objectivo de aprender a língua do país vizinho e crescer profissionalmente. A escolha desta cidade, desconhecida para mim e para tantos espanhóis, foi um mero acaso e o melhor que me aconteceu.

anajulianDepois de me licenciar em Jornalismo e Direito em Madrid e compreender que as oportunidades de trabalho em Espanha estão cada vez mais escassas e precárias, tive a oportunidade de estagiar na Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola. A experiência não poderia ter sido melhor. Graças ao meu estágio, percebi que as relações entre Espanha e Portugal são fluídas e que a presença espanhola no país luso é bastante grande, algo a que os portugueses se habituaram.

Durante a minha estadia pude visitar diferentes cidades para cobrir diferentes eventos de índole ibérica. Entre elas posso destacar a cidade de Braga, onde visitei o Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia e comprovar o grau de inovação e desenvolvimento tecnológico que promove Portugal. Além disso, constatei as relações profissionais que existem entre as empresas dos dois países.

Os portugueses, em geral, são pessoas muito amáveis e fui recebida de braços abertos no meu local de trabalho. O ritmo de trabalho para os portugueses é totalmente diferente do ritmo dos espanhóis. Em Madrid, estava habituada a um ritmo rápido e stressante, o estilo de trabalho aqui é mais pacífico. Desde o primeiro momento apercebi-me que apesar de Portugal e Espanha serem países vizinhos, a forma de viver e trabalhar é completamente diferente.

Como disse José Saramago, “Portugal e Espanha são como gémeos siameses que nasceram unidos pelas costas e que jamais viram as suas caras”.

Os portugueses são muito educados e calmos, nunca faltará um “obrigado/a”, apesar de sermos nós que temos de estar agradecidos. Quanto às línguas, os portugueses têm uma fluência ao inglês que falta aos espanhóis. Um dos principais reflexos é o facto de os filmes e séries neste país não seremtraduzidos,  são apenas legendados e reproduzidos na língua original. Algo que os espanhóis não compreendem, pois não são muito amigos da versão original.

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Diz-se que Lisboa é a cidade das sete colinas e a cidade da luz. É indiscutível que Lisboa tem uma luz especial, apaixonante. Em cada canto de Lisboa surge uma surpresa, um momento para ver e disfrutar, desde o rio Tejo até Belém com os seus famosos pastéis, passando por Alfama com as suas ruelas labirínticas, o Bairro Alto, o Rossio, a Estrela ou mesmo a famosa Avenida da Liberdade. Uma cidade para encontrar a paz em qualquer miradouro ou para disfrutar da arte de cada esquina e de cada beco. Uma cidade que quando se visita uma vez, volta-se sempre!

 

artigo: Ana Julián
tradução: Catarina Ferreira
fotos:DR

O Portugal dos Pequenitos cresce um bocadinho

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O Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, inaugurado a 8 de Junho de 1940, celebra, este ano, 75 anos de existência. Foi projectado por Cassiano Branco, ilustre arquitecto do modernismo português. Apesar de  ser um produto do Estado Novo, que tinha como objectivo uma promoção da arquitectura popular, não deixa de ser um local obrigatório de visita, uma promenade agradável pela nossa história.

Para “não deixar o parque parado no tempo”, como afirma a Presidente da Fundação Bissaya Barreto (entidade que gere o parque), foi lançado o desafio de construir “novos monumentos representativos do Portugal contemporâneo”, revela a Presidente em entrevista ao Jornal de Notícias.

PP2Estes monumentos ainda estão em selecção e estudo, mas o objectivo seria replicar edifícios portugueses pós-década de 1960. Mas o projecto teria também uma componente lúdico- pedagógica e novas abordagens. Este projecto estaria acompanhado com novas infra-estrutras de acompanhamento aos visitantes.

Com entradas anuais de cerca de duas centenas de milhares será necessário dar uma nova frescura ao parque para aumentar as visitas, pois o parque, como expõe, ao Jornal Público, Walter Rossa (historiador de arquitectura do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra), “é um instrumento pedagógico sobre o património monumental português”.

E como de pequenino se torce o pepino é necessário introduzir o respeito da história e do que é nosso aos mais pequenitos visitantes.

 

fotos:DR

Projecto de alunos de arquitectura da Lusíada (Lisboa) premiado na “24H Competition”

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“Home Mirage” é o nome do projecto apresentado por um grupo de alunos do 5.º ano do mestrado integrado em Arquitectura da Universidade Lusíada de Lisboa, que ficou classificado em segundo lugar no concurso internacional “24H Competition“, organizado pela plataforma Ideasforward que se dedica à organização de concursos internacionais de ideias.

A competição, realizada com o objectivo de dar a jovens criativos de todo o mundo a oportunidade de expressar os seus pontos de vista sobre o futuro das sociedades, através de propostas inovadoras e visionárias, lançou, na sua segunda edição, o desafio de criar lugares de refúgio para os sem-abrigo. As 24 horas estipuladas para a criação de um projecto foi o tempo limite definido, de forma a estimular a criatividade dos participantes, nas áreas de arquitectura e design, potenciando o compromisso, a perseverança, a inspiração e a dedicação ao trabalho.

ulus.alunosOs alunos Inês Nogueira Afonso, Gonçalo Laires Pinheiro Sieiro dos Santos, João Caetano Manso, José Maria Guedes Pereira Moniz e Renato Miguel Vicente Franco desenvolveram uma proposta para a construção de abrigos para pessoas que vivem na rua que, segundo o grupo, consistia numa “[…] estrutura que se desmonta e arruma dentro de um volume vertical, 90 cm x 90 cm, e quando essa estrutura está recolhida no interior do volume, este funciona como equipamento público que pode ser utilizado para publicidade, hotspot de Internet, painel fotovoltaico e acumulador de energia, contentor e depósito de doações de bens alimentares e roupas para pessoas desfavorecidas”.

O projecto apresentado por este grupo de alunos conquistou um prestigiado lugar nesta competição que se caracteriza por procurar ideias progressistas que reflictam sobre temas emergentes, com base na concepção ecológica, arquitectura sustentável, novos materiais, conceitos e tecnologias, entre outras temáticas importantes para o desenvolvimento das sociedades.

[memória descritiva do projecto]

fonte: U.Lusíada
fotos: DR