Marlene Ferraz em entrevista

marleneferraz1aMarlene Ferraz, de 1979, tem os pés pousados em terras a norte. Com o ofício da psicologia, tem vindo a dedicar-se à escrita como um exercício de decomposição da experiência e alinhamento da desordem. Com um amor particular pelo conto, tem publicado Na Terra dos Homens (prémio Miguel Torga 2008), O Amargo das Laranjas (prémio Florêncio Terra 2008) e O Tempo do Senhor Blum e outros contos (prémio Afonso Duarte 2012). A Vida Inútil de José Homem (prémio Agustina Bessa-Luís 2012) revelou-se o primeiro romance e As Falsas Memórias de Manoel Luz a esperada continuidade.

O que te levou a escrever esta história sobre um homem dos livros?

Por todo o encanto da coisa que é um livro (e o processo delicado de fabrico): uma quantidade mínima de gramas para um universo inteiro que se estende por cada página. E depois todo o movimento revolucionário dos livros, a censura em tempos ditatoriais, a publicação clandestina e anónima, os empréstimos em segredo. A escrita (e a leitura) obriga a suspender o corrimento da vida, a entrar num mundo paralelo e a pensar sobre novos posicionamentos e formatos de existência. Com uma aparência tão inofensiva, o livro pode muito. Salvar. Apontar. Incomodar. Arruinar. O livro só é coisa nenhuma se estiver fechado.

Tens ganho, ao longo do tempo, alguns prémios. Estas conquistas são o alento necessário para continuar a escrever?

Temos um palmo de caminhos prováveis diante das mesmas circunstâncias: por ser uma rapariga muito enfiada no seu mundo privado (numa terra mais a norte) e sem outras cabeças para afinar ideias sobre o verbo escrever, os prémios acabaram por ser os conversadores em falta e os incentivadores da continuidade. Mas o estímulo principal é a afeição pela escrita (e pela leitura): no meu caso, pela possibilidade de levantar os pés da realidade e, num tempo de viagem e reflexão, entrar por territórios íntimos, amplos e inventivos. Espantar-me. Transformar-me. Perder-me.

Como concilias a psicologia, a escrita, os bichos e o artesanato?

Com uma quantidade certa de loucura (risos). Ter muitos ofícios que nos entusiasmam obriga a usar o tempo com mais precisão: um minuto pode bem servir para alinhavar um cenário para um novo capítulo, escrever um texto para incentivar a adoção responsável de um animal do abrigo ou coser um botão no corpo de um bicho de pano (projeto doutrolugar). Acredito que a cabeça apenas suporta este entrelaçamento de exercícios por todos me levarem a mundos alternativos, num exercício criativo e humano. Poder ajudar o outro (e este outro pode estender-se aos homens, animais e coisas) é um verbo principal no meu projeto de vida: não tenho a mais abreviada dúvida de que é nesta relação com o outro, num intercâmbio afetivo, que encontramos os possíveis milagres.

Escrever poesia é uma necessidade de fazer uma pausa na prosa?

Escrever (leia-se tentar escrever) poesia é um ato breve de contemplação, um impulso emotivo, uma apreciação violenta. É muito raro falar dos poemas que vou acumulando em gavetas (agora, digitais), como se um procedimento mais íntimo, uma descarga afetiva entre paredes, um grito dentro do corpo.

marleneferraz1bJá te aconteceu confundir ficção com realidade, personagens dos livros com pessoas? Se sim, de que forma é que isso te equilibra?

Pode parecer um estado de maior estranheza mas tanto carrego personagens na cabeça como vejo nas pessoas da rua prováveis novas personagens. É uma preciosidade quando acontece: uma criatura humana que me encanta tanto a ponto de ter vontade de escrever (leia-se inventar) sobre ela. Encontro muito um senhor homem, (provavelmente) empregado numa agência funerária e que poderia ser o nosso poeta: quando nos cruzamos na rua estreita, nunca poderá ele suspeitar que a mulher do outro lado está (inevitavelmente) a soletrar baixinho “o meu secreto Fernando Pessoa”. E poderia (quase) jurar que o José Homem, uma das figuras principais do livro publicado em 2013, vive do outro lado da minha rua. Assim, o mundo até fica mais suportável.

Quem nasceu primeiro: a escritora ou a leitora? Que autores tens como referência?

Levantei-me menina numa casa apenas com uma mão de livros mas a vontade por ler estava (inexplicavelmente) instalada em mim: com o tempo, descobri a verdadeira casa dos livros (leia-se biblioteca municipal) e um infinito universo literário se ampliou diante de mim. Até hoje. Ainda celebro a ida à (nova) biblioteca da cidade para eleger, com uma dose recomendável de acaso, as futuras leituras. Os escreventes vão aparecendo, como as nuvens. Os nossos, claro. E os nórdicos, os africanos, os americanos. Gosto de acreditar que chegam no tempo certo. José Saramago. Gonçalo M. Tavares. António Lobo Antunes. Manuel António Pina. Herberto Helder. Herta Muller. Iréne Némirovsky. Franz Kafka. Allan Poe. Dostoiévski. Tolstói. Tchékhov. Gogol. Mia Couto. Vargas Llosa. Não é uma lista de referência, mais um roteiro de descoberta. Espero ter mais uns braços de tempo para ampliar o número de encontros. Imagino que sem um corpo leitor não haveria mãos escreventes.

Qual a tua visão da leitura em Portugal?

Acredito que se leia muito mais do que na minha meninice. Não me lembro de ter recebido um livro, muito menos de ir a uma feira livreira ou poder visitar uma livraria a um palmo de casa. A biblioteca municipal ficava na cidade e tornou-se apenas uma realidade quando me emancipei pelos transportes públicos. Nenhum outro amigo se ajuntava nesta viagem para trazer livros nas duas mãos: era sempre uma celebração solitária. Hoje, temos um bafo criativo incrível no livro infantil. E uma carga de novidades literárias a cada estação. Provavelmente, nunca se publicou tanto. Os números parecem avisar menos livros vendidos e menos leitores mas nunca me terei cruzado com tantas cabeças que gostam de se embrenhar na matéria dos livros como agora.

A angústia do escritor e da sua próxima obra é real? Ou julgas que é uma criação feita para alimentar um certo mito que rodeia quem escreve?

Para a minha pessoa, a maior angústia será a do tempo finito (e exageradamente ocupado). Podemos falar da vida (por sermos criaturas temporárias) mas também do mais simples dia (que avança pelas curtas vinte e quatro horas mesmo quando precisarias de duplicar a duração). Para mim, o verbo escrever precisa de silêncio (leia-se reflexão) e, com as tarefas multiplicadas da vida mais comum, nem sempre podemos criar esse intervalo de suspensão. Temos responsabilidades primeiras: regar as plantas do átrio, apreciar as primeiras chuvas ou abraçar a criatura vulnerável. Apesar da principalidade da escrita na minha vida, obrigo-me sempre a dar prioridade ao elo que tenho com os outros.

O que dizes aos leitores quando te perguntam que parte(s) do que escreves és tu?

A mais minúscula cena escrita tem tudo de mim. Na revisão dos textos (primeira, segunda, terceira, décima), acabo por perceber que o mais privado está por trás de cada personagem ou até acontecimento da narrativa. Somos depósitos de memórias: como poderia eu (nós) criar criaturas e mundos alternativos? A matéria bruta é tudo o que tenho cá dentro: as feridas, os desapontamentos, os espantos, as raivas, as alegrias, mas também os livros, os filmes, as notícias, os documentários e um sopro de fantasia.

Fotos: DR

Meyash – As meias irreverentes made in Portugal

mesh2bE se pudesse comprar umas meias coloridas e com isso poder ajudar quem mais precisa? Conheça as Meyash, um novo conceito de moda, com o selo de qualidade português.

Hoje entrevistámos os seus fundadores – José Massada, Marcos Fonseca e Manuel Guedes de Oliveira. Separados no mundo, unidos na mesma empresa.

Meyash é uma marca 100% portuguesa, que produz em Portugal, para todo o mundo. Como nasce a ideia e como a puseram em prática?

A nossa ideia inicial surgiu de várias premissas, que acreditamos ser verdade: a maioria das pessoas tem dificuldade em substituir meias antigas e, consequentemente, acabam por encher a gaveta com demasiadas meias velhas; as meias com padrões e cores vivas têm vindo a ganhar proeminência, principalmente agora que se usam calças mais curtas ou com a bainha dobrada, e têm vindo a substituir a gravata e outros acessórios como aquele detalhe que ajuda a vincar a personalidade de quem as usa; as meias de qualidade são caras e há relativamente pouca variedade; toda a gente gosta de usar meias novas, mas ninguém gosta de sair de casa para as comprar.

Nesse sentido, nós decidimos criar um serviço de conveniência, onde os nossos clientes passam a ter uma espécie de stylist, que todos os meses seleciona e envia um par de meias de grande qualidade e design, a preço acessível, diretamente para a caixa do correio.

As meias funcionam muito bem com um modelo de subscrição, porque são leves o suficiente para o custo de envio – que nós oferecemos gratuitamente. Não tem impacto no preço final, porque é um produto que as pessoas acabam por precisar de ir renovando com uma certa cadência, e porque cabem perfeitamente na caixa do correio (o que é uma enorme vantagem em Portugal e em vários países europeus, onde ao contrário dos EUA por exemplo, os apartamentos não costumam ter porteiro).

“No more boring black socks”, um dos vossos lemas. De que forma é que se propõem a mudar o estilo dos vossos subscritores?

Temos dois objetivos grandes para a Meyash. Primeiro, queremos contribuir para mudar a forma como as pessoas pensam sobre as meias. Acreditamos que já lá vai o tempo em que os sapatos, as meias e o cinto tinham que combinar e que a gravata era o único acessório que permitia renovar o visual corporativo. O mundo mudou, a moda também, e cada vez que escolhemos um estilo de roupa para sair de casa, estamos de certa forma a expressar a nossa personalidade. Nós acreditamos que as nossas meias não são apenas muito confortáveis, mas dão um toque de descontração que ajuda a vincar essa atitude.

Sabemos que a roupa que vestimos também afeta o nosso processo cognitivo – é interessante ver como apenas uma peça de roupa tão pequena pode ser uma boa maneira para quebrar o gelo e desbloquear conversas, para destacar um look mais básico, ou cortar a formalidade, numa ocasião especial. Se alguém está a pensar em mudar o visual, as nossas meias podem ser um primeiro passo para que se possa sentir mais confiante e irreverente.

O que torna as vossas meias tão (ou mais) especiais?

A Meyash é um serviço de subscrição de meias, com uma vertente social. Tal como um jornal ou uma revista, nós damos a possibilidade aos nossos clientes de receberem, todos os meses e por correio, um par de meias coloridas (encomenda selecionada pela nossa equipa de especialistas), renovando, assim, “a gaveta de meias pretas”, com alternativas de qualidade e padrões contemporâneos. Por cada par de meias vendido, nós doamos um par de meias, de qualidade semelhante, a uma instituição social.

Poderíamos passar horas a falar da qualidade do algodão (que com um pequeno toque de poliamida e elastano não perde a forma e confere resistência e um conforto absolutos), mas acreditamos que o nosso modelo propõe uma nova abordagem que é, essencialmente, uma combinação dessas três coisas que falávamos antes: o modelo de negócio é um pouco diferente dado que não vendemos um produto, mas sim um serviço (em que desenhamos, selecionamos e enviamos meias diretamente para casa dos nossos clientes que não se têm que preocupar com mais nada), o nosso preço é competitivo e, por último, temos a questão de responsabilidade social, que, pelo que sabemos, mais nenhuma outra marca a atuar em Portugal segue. Ou seja, combinamos a eficiência e conveniência de um modelo de subscrição aliada a um conceito de moda e de responsabilidade social, o que pensamos ser único em Portugal.

Funcionam como um serviço, apesar de enviarem meias para casa. Querem explicar como tudo acontece?

Como dissemos anteriormente, quando estávamos a pensar montar a empresa decidimos consultar a opinião de vários amigos e descobrimos que, embora a grande maioria deles gostasse muito da moda de usar meias mais divertidas, simplesmente não tinham paciência para sair de casa comprar meias – a grande maioria normalmente ia apenas a uma loja de desporto / feira / loja, uma vez por ano, comprar uma dúzia de tradicionais meias pretas.

Nesse sentido, decidimos criar não apenas um produto, mas sim um serviço de subscrição.  Nós tratamos de tudo: desde o desenho, selecção e escolha da peça (até nos certificarmos que ela é entregue diretamente na caixa do correio de casa dos nossos clientes, que não se têm que preocupar com mais nada). E, claro, por cada par de meias vendido, nós doamos um par de meias de qualidade semelhante a uma instituição social.

O feedback tem sido fantástico, não só em termos da qualidade ou design (e até a embalagem), mas também sobre o próprio modelo de subscrição: temos tido vários clientes a dizer que, cada vez que recebem a nossa encomenda, se sentem como se tivessem a receber um presente de aniversário (só que todos os meses!).

mesh2aAlém de ser um modelo de subscrição, Meyash compromete-se a enviar um outro par para a Associação de Albergues nocturnos do Porto. Como identificaram esta necessidade e como tem corrido a parceria?

Um dos momentos mais marcantes no nosso processo de criação da empresa deu-se quando descobrimos que a roupa interior – e meias em particular – são o produto em maior carência nos centros de acolhimento. Depois de lermos sobre isso nos EUA, decidimos conversar com várias associações em Portugal que confirmaram isso mesmo. A razão é simples: é raro pensarmos em doar roupa interior usada, normalmente quando doamos fazemos as doações em valor, em comida, calças, camisolas, calçado ou casacos. Por isso, na linha de marcas que admiramos – como o Tom’s Shoes ou a Warby Parker -, decidimos também seguir o modelo de buy one give one: por cada par que o cliente compre, nós oferecemos um par grátis à nossa parceira – Associação dos Albergues Nocturnos do Porto (AANP), a quem prometemos entregar, no final de cada semestre, o equivalente aos pares que vendemos.

Pode parecer um pequeno gesto, mas acreditamos que, se conseguirmos contribuir um pouco que seja para aumentar o conforto e melhorar a qualidade de vida destas pessoas com menos sorte, certamente lhes daremos menos uma coisa com que se preocupar.

Estando todos os sócios separados por vários quilómetros (Porto, Nova Iorque e Londres), como resolvem as questões de trabalho? Existem dificuldades nesse contacto não ser mais presencial?

Sim, sem dúvida que é desafiante, mas possivelmente também mais enriquecedor. Hoje em dia, com as redes sociais e várias apps para comunicação e gestão de projetos, torna-se mais fácil manter o contacto em tempo real. Dito isso, a distância geográfica e de horários, exige de nós não apenas disponibilidade, mas também uma disciplina, foco e rigor grandes.

Felizmente, devido à amizade e conhecimento mútuo que já trazíamos de há vários anos, temos conseguido garantir esta coordenação sem grandes problemas, também pelos contributos diferentes que damos ao negócio, que se completam entre si.

O futuro trará certamente desafios. Começaram pelas meias de homem, mas passa-vos pela cabeça alargar o conceito para crianças e mulheres?

Sim – sem querer estragar a surpresa temos várias novidades na pipeline: estamos a estudar umas colaborações com artistas plásticos fora da área de moda, estamos em contato com boutiques de roupa (tanto em Portugal e no estrangeiro), estamos a estudar a possibilidade de criar um modelo de meias desenhadas especificamente para crianças e para mulheres, e, por fim, continuamos a trabalhar na nossa plataforma, para aprimorar o que sabemos sobre cada cliente, com o objectivo de conseguir enviar produtos quase customizados para cada um deles.

*Visite as Meyash em http://www.meyash.co e em https://www.facebook.com/wearemeyash/

“Tourism Train Experiences” promove Turismo Ferroviário e regiões com menor atração

train_experiences_vencedoresNo presente ano letivo, a Secretaria de Estado do Turismo, o Turismo de Portugal, I.P. e a Universidade Europeia organizaram a 2ª edição do projeto “Tourism Train Experiences”. Neste segundo ano, depois de uma incursão pelo corredor da linha da Beira Baixa, os projetos centram-se “nas áreas do Turismo militar, histórico, ferroviário, gastronómico, de natureza, lendas e tradições”. Tendo os alunos como mote a Beira Alta como região turística, e o tema: “Lendas e Tradições da Península Ibérica”, para desenvolver trabalhos.

O “Tourism Train Experiences” tem como objetivo “potenciar o Turismo ferroviário e as regiões portuguesas com menor crescimento turístico através de projetos de estudantes universitários que se destaquem pelo empreendedorismo e pela inovação”.

A Beira Alta, apesar dos recursos turísticos e únicos que apresenta, tem uma capacidade de atração relativamente reduzida. No ano 2015 o número de dormidas nestes concelhos situou-se nos 2.588 milhares que, no cômputo global do país, representa cerca de 9% do total de dormidas registadas.

Foram apresentados projetos sobre cada uma das regiões identificadas, nos quais participaram todas as equipas de trabalho constituídas para desenvolver estratégias de promoção e atração de novos públicos para cada uma das regiões.

Neste âmbito, foram realizadas paragens nas 7 estações situadas em locais com forte ligação a lendas e a tradições da Beira Alta. À chegada às estações, os viajantes deslocaram-se até um local com condições para apresentações, com pendor simbólico, onde apresentaram as suas ideias.

O Extraordinary fo(u)r taste e a escola EHT Douro-Lamego foram os grandes vencedores da 2ª edição do Tourism Train Experiencies. Este grupo é constituído pelos alunos André Sousa, Tiago Fonseca, Cristina Gonçalves, Ana Nunes, Bruno Correia e são todos alunos do curso de Gestão Hoteleira- Alojamento. A Excelência Portugal quis conhecer melhor o projeto e falou com o grupo vencedor.

Foi uma grande honra para nós ter participado num projeto desta dimensão, pois, esta experiência permitiu-nos crescer a nível pessoal e profissional sendo, certamente, uma mais-valia para o nosso futuro.

1) Em que consiste o projecto e qual a sua aplicação prática?

O projeto consistiu no aproveitamento de rota histórica e de património – rota de Cister- já existente e no desenvolvimento paralelo de uma rota gastronómica que aposta nos produtos locais como espumante, presunto, bola de lamego, etc.

A aplicação é relativamente “fácil” uma vez, que apenas exige a organização e realização de momentos/eventos gastronómicos nos locais históricos que integram a rota de Cister.

Acresce a este facto a possibilidade do acesso ferroviário se poder fazer usando duas linhas, a do Douro, a Norte e a da Beira Alta, a Sul.

2) Qual o feedback que tiveram relativamente ao mesmo?

O feedback foi bastante positivo quer dos parceiros locais que integram a rota de Cister quer do próprio setor da restauração local que facilmente aderiram à proposta de valor apresentada pelo projeto.

3) Quais as possibilidades reais de execução do mesmo?

Entendemos que dadas as caraterísticas operacionais do projeto e o seu pragmatismo a sua aplicabilidade sai reforçada e apta a ser operacionalizada num curto prazo de tempo.

4) Que significado teve o prémio?

Para além do reconhecimento interpares que significa um prémio como este, a motivação adicional para alunos participantes e não só conseguida é um fator de dinamização do ânimo da escola e da sua comunidade.

É mais um reforço e evidência da aplicação do lema da escola “Fazemos coisas simples, extraordinariamente bem!”.

Foto: DR

Ester Alves a 40 dias de desafiar a mítica Marathon des Sables (entrevista)

ester-alves0235 anos, natural do Porto, formada em Biologia, Ester Alves concilia treinos e provas ao mais alto nível com a tese de doutoramento.

Em apenas cinco anos, a atleta da Salomon Suunto Portugal, tornou-se uma referência do trail-running nacional e internacional, tendo representado Portugal nos campeonatos do mundo de 2015 e 2016. No seu currículo incluem-se o 8ª lugar no Ultra Trail do Monte Branco e no Ultra Trail World Tour em 2014, a 6ª posição na Transgrancanária 2015, o 1º lugar do pódio na The Coastal Challenge 2016 e na Marathon Sierra Nevada 2016 e o recente 3º lugar na The Coastal Challenge 2017.

A 40 dias da partida para a Marathon Des Sables, que apelida como a mais “mítica, incrível e competitiva prova de etapas no deserto”, Ester Alves falou com a Excelência Portugal.

 

- Como chegas ao trail-running depois do remo e ciclismo? O que te atraiu?
Remei até 2008, integrei o programa Olímpico pela seleção de remo e depois disso descobri o ciclismo. Estive 3 anos numa equipa UCI  espanhola de ciclismo. Tive de deixar o projecto, porque fui admitida a doutoramento e não tinha disponibilidade para treinar 4-5 horas por dia de bicicleta. Já corria na pré época maratonas e, por convite de um amigo, decidi experimentar o trail. Fui ficando… e abandonando aos poucos a competição de ciclismo.

 

- Temos assistido a uma explosão da modalidade no nosso país. Que mudanças realças no panorama nacional, nestes cinco anos?
Surgiram imensas provas. Sobrevivem as que têm qualidade. As restantes, acabam por morrer. Acima de tudo, as organizações têm de gostar de trail e não organizar eventos por dinheiro.

 

- O trail-running “está na moda”?
Está na moda por ser uma forma desafiante de praticar desporto…fugir para a serra, fazer desnível. Voltar à serra acaba por ser uma forma natural de fugir ao stress das cidades e da rotina.

 

- Consideras que se verificam excessos a nível de provas? Existe sensibilidade para a preservação da natureza?
Existe um excesso de provas, mas finalmente começa a haver regulamentação e maior controlo sobre as organizações e preservação dos trilhos.

 

- Depois de repetir a The Coastal Challenge, estás em contagem decrescente para a Marathon des Sables. Que importância tem para ti este desafio e quais são as tuas expectativas?
A MDS é uma das provas mais cobiçadas do mundo. Por ser em auto-suficiência (a travessia do Sahara) e por ser em etapas. O que me encanta é ser competitiva. O Coastal Challenge obrigou-me a correr sob 35 graus e foi competitivo, espero ter conseguido a bagagem para a MDS. Falta um mês e ainda tenho muito trabalho pela frente. Mas sem dúvida estou motivadíssima.

 

- Estares integrada numa equipa da Salomon Suunto contribuiu para a tua evolução como atleta? Como é vista a equipa nacional pelas restantes equipas destas marcas?
A SALOMON SUUNTO é mais do que uma marca. É uma filosofia de vida e a equipa distingue-se porque levamos connosco a partilha e paixão pelo desafio e superação pessoal. As equipas e marcas que procuram apenas resultados tabelados acabam por desfalecer e morrer em pouco tempo. É uma honra fazer parte desta equipa. Agora em Portugal com Armando Teixeira, Romeu Gouveia e Miguel Reis. Todos partilhamos a paixão pela superação pessoal. É uma questão de atitude.

 

- O Gerês foi palco do último campeonato do mundo. Qual foi a sensação de correr em casa? 
Foi gratificante. A única pulseira que uso é a do Gerês, por levar comigo para todo o mundo Portugal. Representar o país foi sempre uma honra… um dever maior. Já o faço desde os 18 anos: representei as seleções de remo, ciclismo e trail… e vestir as cores do país é sempre uma imensa alegria e superação.

 

- Qual o desafio que mais te marcou até agora e porquê?
Talvez o UTMB. Por ser uma prova emblemática e a mais competitiva que conheci. O meu objectivo continua a ser baixar as 27 horas nos 168kms. E espero que em 2017 dê essa alegria a Portugal.

 

- E quais os desafios que ainda te faltam cumprir?
Este ano vou estar em Itália, nos campeonatos do Mundo de Trail. Quero, juntamente com o meu treinador, fazer um bom resultado e depois… baixar as 27 horas no UTMB.
Em 2018 gostaria de tentar um bom resultado na BADWATER e tentar o que conseguiu o Carlos Sá em 2015, no Death Valley.

 

Foto: DR

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Açores: Secretária Regional do Turismo em entrevista

2016 terá sido o melhor ano de sempre em todas as ilhas e nos vários indicadores do turismo, nomeadamente com uma evolução acima de 20% no crescimento das dormidas na hotelaria tradicional e com a perspetiva dos proveitos ultrapassarem os 70 milhões de euros, um crescimento na ordem dos 30%.

Para a nova titular da pasta do turismo, mais importante do que bater recordes em termos estatísticos, é a qualidade oferecida e um crescimento que respeite a oferta ambiental da região para a manutenção dos atuais bons resultados.

Marta Guerreiro, Secretária Regional da Energia, Ambiente e Turismo, em entrevista à Excelência Portugal e ao Tribuna das Ilhas, falou sobre o crescimento do destino Açores e o seu caráter único, o transporte aéreo, a oferta e os desafios.

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Os Açores estão definitivamente na moda, os prémios internacionais sucedem-se e os números das dormidas crescem a taxas superiores a 20%. Qual foi a estratégia responsável por este sucesso do destino Açores?

Não se poderá falar numa única estratégia. Trata-se do fruto de um conjunto de fatores, entre os quais, temos o empenho do Governo Regional dos Açores na consolidação do trabalho de aumento de notoriedade do destino e de promoção e captação de fluxos turísticos dos últimos anos, mas também todo o investimento da iniciativa privada. Não somos, nem pretendemos ser, um destino de massas, mas temos ainda ampla margem para crescimento através dos mercados potenciais. Até porque, cada vez mais, se verifica um aumento generalizado da procura turística por destinos seguros, com beleza mística, capazes de proporcionar tranquilidade e experiências únicas, com grande preocupação pelas questões de sustentabilidade económica, cultural, social, mas sobretudo ambiental. Estas são também algumas das razões que levaram ao crescimento turístico de um destino como os Açores, que enquadra amplamente este fenómeno da procura turística mundial.

Importa destacar que 2017 foi declarado pelas Nações Unidas como o Ano Mundial do Turismo Sustentável para o desenvolvimento e é esta a assinatura de qualidade que queremos na região: certificar pela natureza e posicionar o Turismo nos Açores como um destino aliado ao ambiente. Foi este o caminho que levou ao sucesso do Destino e aquele que queremos continuar a desenvolver como uma estratégia consolidada. Neste sentido, manteremos a prioridade na proteção e preservação do património natural e cultural dos Açores, criando condições para que a qualidade de vida das nossas comunidades e a natureza pura e intacta perdurem. É sem dúvida um destino “verde” e despoluído que queremos que continue a ser reconhecido a nível internacional e por todos quantos nos visitam.

Qual o impacto da chegada das low cost a São Miguel neste cenário? Depois da Terceira, está prevista a abertura de novas rotas?

A liberalização do transporte aéreo doméstico para os Açores, que ocorreu no final do primeiro trimestre de 2015, a par do aumento de oferta, mas também de procura, na América do Norte, e a melhoria das acessibilidades inter-ilhas, estão a contribuir efetivamente este crescimento. Assim, o crescimento sustentado que hoje vivemos é muito positivo e deve, sobretudo, servir de motivação e de alento para o muito trabalho que todos necessitamos de efetuar nesta área. E aqui, gostaríamos de fazer notar que o crescimento do setor do turismo beneficia claramente do novo modelo de acessibilidades áreas à Região, mas é preciso ter a noção de que este não foi um trabalho que se iniciou apenas com a entrada das lowcost ou apenas com o momento de liberalização das rotas entre o Continente português e as ilhas de São Miguel e Terceira. O crescimento do número de turistas dos EUA e Canadá que nos visitam – rotas nas quais não operam companhias de baixo custo – dá bem nota deste ponto, com crescimentos de 57% e 14%, respetivamente, até setembro último, face ao período homólogo. Para além das intenções de novas rotas, é importante reforçar os mercados prioritários em termos de captação de novos voos e de promoção, nomeadamente, os EUA, França, Reino Unido, Canadá, Itália e Alemanha; tendo em conta que os fluxos turísticos não se criam apenas com novos voos diretos para a Região, mas também através do tráfego de ligação, com preço e tempo de duração de viagens convenientes.

Assim, temos como objetivo garantir a sustentabilidade e fiabilidade das acessibilidades aéreas, mas também fomentar novas ligações para mercados emissores que se demonstrem adequados e enquadrados nos segmentos definidos no PEMTA – Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores. A SATA continuará a ter um papel preponderante nesta estratégia de captação de novos fluxos, mas trabalharemos com todas as companhias aéreas ou operadores turísticos que se nos afigurem com capacidade para a supracitada sustentabilidade e fiabilidade de novas rotas.

Que instrumentos foram criados para que as restantes ilhas usufruam do maior fluxo de turistas que chegam a São Miguel?

A verdade é que o Governo dos Açores tem consciência da importância da eficiência nas acessibilidades, garantindo assim a fiabilidade e sustentabilidade das mesmas, externa e internamente, enquanto elemento fundamental para o crescimento do setor turístico num destino insular como os Açores.

A monitorização permanente da prestação de serviço público de transportes aéreos, entre a região e o exterior e entre as nove ilhas, tem sindo uma prioridade no sentido de que todos os açorianos possam usufruir do maior fluxo de turistas que chegam a São Miguel.

Em termos gerais, regista-se uma evolução positiva no Turismo dos Açores, transversal a todas as ilhas, o que significa que os turistas estão a chegar às nove ilhas do arquipélago, quer seja através do aumento do fluxo dos voos externos, quer seja por via dos reencaminhamentos inter-ilhas.

Neste sentido, temos também vindo a reforçar a conciliação da utilização dos transportes aéreos e marítimos, em pacote, de forma a facilitar a movimentação dos turistas na região. Rentabilizar as infraestruturas portuárias e as atividades turísticas conexas e complementares, relacionadas com o turismo náutico e de cruzeiros, a partir de agora, serão também uma prioridade.

O acréscimo de turistas constitui uma oportunidade para a requalificação da oferta hoteleira, bem como da hotelaria e restauração. Como reagiram estes sectores? Foram criados incentivos e instrumentos para este fim?

Um dos quatro vetores estratégicos do Programa de Governo para o setor do turismo é exatamente o da qualificação do Destino Turístico Açores, o que mostra as preocupações do executivo na qualificação e inovação em permanência nos produtos e nos serviços, de modo a garantir a consolidação de uma oferta diferenciada e exclusiva para o turista, em todas as componentes que devem compor aquilo que é o Destino Açores.

Neste sentido, a formação dos recursos humanos representa um dos desafios mais exigentes para reforçar a notoriedade do destino. Estão previstas várias medidas que visam garantir a qualificação, o intercâmbio e a reconversão de recursos humanos, assim como a qualificação e inovação dos produtos e serviços. Exemplos disso são o incentivo a programas de formação e qualificação, tanto do setor público como privado; o apoio da conversão profissional e da atualização de competências adequadas ao mercado de trabalho, em particular no atendimento ao cliente e no marketing digital e, ainda, o incentivo à criação de programas e intercâmbios profissionais (cross-exposure) e de estágios com entidades públicas e privadas noutros destinos que partilhem o mesmo tipo de características e de mercados.

Os estabelecimentos de formação na Região vão assumir, no nosso plano, um papel preponderante na preparação e reconversão de recursos humanos, com a necessária qualidade, imbuídos de arte de bem receber de forma genuína, mas identitária, que consideramos fundamental que seja reconhecida pelo nosso turista. É necessariamente um processo gradual, mas estamos convictos que as medidas preconizadas vão habilitar e facilitar uma maior capacitação na preparação de novos profissionais.

A menor acessibilidade permitiu manter os Açores num estado mais puro e imune à explosão imobiliária? Como é que este valioso ativo vai ser preservado? A inclusão do ambiente e do turismo na mesma secretaria regional é um claro reflexo da aposta do Governo Regional em afirmar os Açores como destino “certificado pela natureza”?

Sim, a criação desta Secretaria tem como principal foco uma gestão integrada destas áreas, que cremos fundamentais para o desenvolvimento dos Açores.

Efetivamente a nossa aposta tem passado, e continua a passar, por aumentar a notoriedade internacional dos Açores como um destino de Natureza de Excelência, procurando reforçar, perante os mercados externos, o nosso posicionamento em prol desta imagem e pondo em destaque as nossas caraterísticas de sustentabilidade, ambientais e paisagísticas. Esta ideia não é recente e tem vindo a ser posta em prática sucessivamente pelos últimos Governos Regionais, que sempre defenderam políticas ambientais e turísticas conciliatórias de boas práticas ambientais, salvaguardadas legalmente de forma a preservar a nossa identidade paisagística, enquanto elemento diferenciador e principal mais-valia de competição com os destinos concorrentes.

Assim, a nossa prioridade é proteger e preservar o património natural e cultural dos Açores, criando condições para que a qualidade de vida das nossas comunidades não seja comprometida no presente e no futuro. É nesta linha de pensamento que pretendemos também cuidar dos nossos visitantes, antecipando e proporcionando tudo o que necessitam, para que a experiência dos Açores seja memorável e desperte a vontade de voltar. Isso tem sido trabalhado no sentido de nos apresentarmos como um destino natural, de rara beleza, sem influências externas em si, sem vocação para massas e sendo dirigido a nichos muito específicos de visitantes que queiram ter experiências irrepetíveis.

foto-2Além do turismo de Natureza, eleito produto matriz, que outras ofertas são consideradas prioritárias?

Pretendemos atingir a verdadeira sustentabilidade através do Turismo, proporcionando aos nossos visitantes uma experiência de convidados especiais em ambiente natural, para que lhes deixe saudades e a vontade de voltar.

Sabendo da importância e do posicionamento como Destino de Natureza, não podemos esquecer todas as outras potencialidades que cada uma das nove ilhas, distintas entre si, têm para oferecer.

Assim, pretendemos promover a criação de tours ou circuitos organizados para a descoberta e exploração dos atrativos, não só paisagísticos, como também culturais e gastronómicos, ao que se acrescenta a promoção da agenda cultural e sua disponibilização aos Agentes e Alojamentos Turísticos. Ainda neste âmbito, a intenção é de georreferenciar todos os atrativos naturais e culturais e disponibilizar essa informação online, assim como de infraestruturas de apoio (oficinas, centros, assistência, áreas de serviço, áreas de descanso, etc.).

Um dos produtos que também merece algum destaque é a aposta na sofisticação dos serviços e infraestruturas relacionadas com a saúde e bem-estar, em especial na área do termalismo.

Atualmente quais são os principais mercados emissores e qual a importância dos continentais e da diáspora açoriana?

Há ainda que manter o reforço da promoção do Destino Açores, através do incentivo a novas ligações para mercados emissores que se demonstrem adequados e enquadrados nos segmentos de mercado já sinalizados, nomeadamente com a expansão de notoriedade e a capatão de fluxos turísticos na América do Norte, enquanto mercado estratégico identificado no PEMTA – Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores.

Quanto aos mercados emissores com maior relevo, e segundo os dados entre janeiro e setembro de 2016 na Região, o continental representa cerca de metade das dormidas, registando-se 252 132 hóspedes, num total de 509 112. Segue-se a Alemanha (12%), os EUA (6%) e Espanha (5%).

De um modo geral e segundo os dados do Serviço Regional de Estatística relativos às dormidas de janeiro a outubro, no alojamento tradicional e TER – Turismo no Espaço Rural verificou-se um crescimento de todos os mercados prioritários, com exceção da Suécia. Aqueles que apresentaram melhores resultados em 2016 e face ao ano anterior foram os EUA e a Espanha, com crescimentos da ordem dos 58,1% e 50%, respetivamente, seguidos da Holanda (22,7%), Bélgica (19,5%), Canadá (18,9%), França (17,4%), Alemanha (17,1%) e Reino Unido (14,8%).

Sabemos a importância que a Diáspora Açoriana tem na Região, fazendo dos emigrantes embaixadores dos Açores nas suas áreas de residência. Isto permite potenciar sinergias e detetar áreas de interesse entre as comunidades, reforçando a ligação entre os Açores e a Diáspora. Neste contexto, a aposta no mercado dos EUA e Canadá, não restringida às nossas comunidades emigrantes, mas sim direcionada para o grande potencial geral existente, tem sido uma aposta importante e que pretendemos reforçar.

A natureza paradisíaca do arquipélago torna-o num palco de excelência para a prática de várias modalidades desportivas, como surf, bodyboard, BTT, canyoning, trail running, entre outros. Neste âmbito, os Açores têm sido palco de inúmeros eventos desportivos de nível mundial, qual tem sido a estratégia para a sua captação e que reflexo têm tido no turismo?

Temos vindo a reforçar um trabalho já iniciado no desenvolvimento dos produtos primários para cada uma das ilhas do arquipélago açoriano. Neste sentido, uma das medidas implementada foi a georreferenciação dos recursos naturais e spots para a prática de várias modalidades como mergulho, surf e pesca desportiva e angariar e apostar em eventos de renome internacional no âmbito destas áreas, bem como do bodyboard, BTT, canyoning, trail running, parapente, etc.

Estas medidas têm permitido aumentar o grau de satisfação com a qualidade ambiental no destino e reforçar a notoriedade dos Açores no mundo, ao estimular a vontade de visita por parte de mercados de alto valor.

Para além de fortalecerem a nossa imagem como Turismo de Natureza, estas iniciativas também são aproveitadas nos nossos planos de comunicação, potenciando o nosso património natural e a especial apetência do nosso destino para um turismo ativo e de aventura. Em termos promocionais, os Açores saem imensamente beneficiados como o palco escolhido para este tipo de eventos, o que permite evidenciar as nossas particularidades paisagísticas, aumentando a nossa atratividade para este tipo de segmentos de mercado.

O Turismo dos Açores capitaliza a sua exposição associando a sua promoção ao apoio de eventos internacionais relevantes que distingam os atributos de natureza, garantindo não só as externalidades positivas do impacto direto da participação de um elevado número de participantes, como também obtendo junto daqueles nichos de mercado grande notoriedade.

Quais são os maiores desafios atuais e futuros do setor?

O Turismo dos Açores vive atualmente um dos melhores momentos da sua história, assumindo uma identidade turística muito mais fortalecida e atingindo níveis de crescimento muito superiores aos registados no passado.

No entanto, agora mais do que nunca, há necessidade de acautelar e assegurar a manutenção dos níveis de sustentabilidade ambiental e paisagística que elevam a nossa atratividade e valorizam a nossa imagem como Destino Turístico de Natureza. É também por isso que a estratégia, a partir daqui, assentará desde logo no PEMTA – Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores, uma ferramenta de trabalho que entrou em vigor em 2016 e que será fundamental para a abordagem que será feita ao setor, nos próximos anos, ao nível do marketing e comunicação. Os seus principais objetivos são alavancar a notoriedade dos Açores junto dos consumidores finais; posicionar a Região como um destino exclusivo de natureza exuberante; promover a cooperação permanente entre os intervenientes públicos e privados na sua execução; melhorar a competitividade do destino e aumentar os fluxos turísticos, tendo de forma subjacente a salvaguarda da sustentabilidade económica, ambiental e sociocultural do território.

Em termos globais, o Governo Regional propõe, para os próximos quatro anos, dar prioridade: à qualificação do destino, no que diz respeito à inovação de produtos e serviços e à consolidação de uma oferta diversificada; à promoção da sustentabilidade interna da atividade turística em todas as suas vertentes e da sustentabilidade de fluxos turísticos que resultem na criação efetiva de emprego e de riqueza; ao aumento da eficácia da promoção e ao aumento da eficiência nas acessibilidades.

Fotografias: SREAT


Apoio na cobertura dos Açores
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Turismo solidário: Entrevista a Rita Marques, co-fundadora da ImpacTrip

impactrip1A ImpacTrip (agência de viagens de Turismo Solidário) proporciona experiências turísticas alternativas para REdescobrir Portugal e criar um impacto social e ambiental positivo. A Excelência Portugal quis conhecer este conceito turístico inovador e entrevistou Rita Marques, co-fundadora da ImpacTrip.

Já doámos milhares de refeições, gerámos muitas centenas de horas de voluntariado corporativo envolvendo milhares de colaboradores e apoiando ainda maior número de beneficiários – Rita Marques, co-fundadora da ImpacTrip

Quando tu e o Diogo se sentaram e decidiram fundar a ImpacTrip, qual era o objectivo? Ainda hoje é o mesmo ou tem evoluído?

A ideia surgiu enquanto viajava sozinha pela Ásia e percebi que havia mais pessoas como eu, que queriam conhecer profundamente os locais por onde passavam e deixar uma marca positiva fazendo voluntariado. Depois de pesquisar percebi que já existiam alguns programas deste género com bastante sucesso e que faziam realmente a diferença nessas comunidades, mas em Portugal não. Foi aí que pensei: “Em Portugal existem, obviamente, necessidades sociais e nós somos um país maravilhoso para se viajar.” A ideia estava formada. Durante este processo conheci o Diogo que, com experiência no sector do turismo, percebeu que era uma ideia com futuro. Foi através do Linkedin que entrámos em contacto e marcámos um almoço para discutir ideias sobre a possibilidade de trabalharmos aquele conceito. Apertámos a mão ali mesmo e hoje em dia esse aperto de mão traduziu-se numa grande amizade e muito crescimento profissional. Hoje o objectivo mantem-se, dar a conhecer o nosso país de uma maneira diferente, permitindo aos nossos turistas viajarem como locais e ainda darem um pouco de si a quem mais precisa.

A empresa tem evoluído muito ao longo do tempo e no ano passado criámos mesmo um novo departamento que se dedica exclusivamente à responsabilidade social das empresas. Em parceria com a nossa rede de parceiros sociais procuramos soluções que envolvam os trabalhadores na própria solução efetiva dos problemas e necessidades destas organizações que no dia-a-dia fazem um trabalho incrível. Neste novo departamento, a Impacteam, temos tido um sucesso enorme pois já trabalhámos com grandes empresas como é o caso da Lilly, Banco de Portugal, Partners, PHC, entre outras. Já doámos milhares de refeições, gerámos muitas centenas de horas de voluntariado corporativo envolvendo milhares de colaboradores e apoiando ainda maior número de beneficiários.

Queres explicar um pouco às pessoas aquilo que acreditas ser a missão da empresa que criaste?

Ao contrário do que muitos pensarão, para se fazer Turismo Solidário não é necessário ir para países de terceiro mundo ou terras perdidas no meio do mato. A Europa e as grandes cidades, por exemplo, também têm necessidades sociais e ambientais que precisam de ser colmatadas. E foi dessa visão que nasceu a IMPACTRIP, um conceito totalmente pioneiro e inovador em Portugal e que se revela como uma forma incrível e autêntica de conhecer este magnífico país.

O Turismo Solidário é uma forma de turismo alternativo que junta dois conceitos muito interessantes (e improváveis): Turismo e Voluntariado.

Este turismo diferente contribui para o combate às desigualdades sociais e permite ao viajante dedicar parte do tempo da sua viagem ao desenvolvimento da região visitada, de modo a ter uma maior envolvência com as comunidades locais absorvendo melhor a cultura e deixando a sua marca positiva.

Quem é que nunca acabou uma viagem com a sensação que podia ter visitado mais, que teria sido engraçado conhecer os locais mais a fundo, as ruas mais escondidas, os costumes mais enraizados? Quem é que nunca terminou uma viagem com a sensação de que podia ter feito algo diferente?

Estas viagens solidárias vêm responder a esse espaço vazio que fica quando viajamos. Poder passear, conhecer os locais pela voz de um local, fazer refeições em fornos comunitários, apanhar azeitonas, preservar o lobo ibérico que está em vias de extinção, são atividades que fazem parte de um turismo diferente, que nos transporta para tempos e histórias antigas e nos dá a conhecer a verdadeira essência de cada região. E no final, estas viagens têm um impacto muito positivo, em termos sociais, ambientais e até pessoais.

O voluntariado destes programas é sempre adaptado às competências dos voluntários para maximizar o contributo para a organização que os recebe. As tarefas são muito diversificadas dependendo das organizações e podem ir desde cozinhar refeições para sem-abrigo, ensinar crianças de bairros sociais a tocar guitarra, limpar o lixo marinho do fundo do mar, resgatar animais abandonados da rua ou mesmo construir uma casa para uma família carenciada. Estes são só alguns exemplos de muitos programas que podem ser organizados sob o conceito de turismo solidário.

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- Fala-nos um pouco daquilo que é possível fazer convosco.

Como somos todos diferentes e temos gostos distintos, procuramos sempre ter programas que se adaptem a todos os “gostos e feitios”.

Os programas de praia e natureza são sempre os mais procurados até porque fogem um bocadinho dos locais e itinerários ditos habituais.

Temos 4 programas principais – Natureza, Praia, Mergulho e Cidade – que depois se subdividem por vários locais em Portugal (incluindo ilhas) e durações (desde 1 dia até 2 semanas). Podem ver todos os destinos onde trabalhamos no nosso website.

Igualmente importantes são as 6 áreas de impacto com quem os viajantes-voluntários se podem envolver:

– Combate à fome a desperdício alimentar

– Educação infantil

– Ambiente

– Combate à pobreza

– Proteção animal

– Apoio a pessoas com deficiência

Em termos de destino, Valada do Ribatejo, por ser um destino completamente desconhecido até para os Portugueses e por ter uma Natureza ainda muito virgem, e a experiência da Arrábida, pela beleza Natural, são os mais procurados.

O número não está fechado, estamos sempre a lançar novos programas que tenham um impacto social significativo numa das 6 áreas de impacto.

Acreditas que o turismo solidário em Portugal tem muito para crescer?

Sem dúvida que sim! O Turismo está em constante mudança e evolução. Os turistas são muito exigentes e estão sempre à procura de inovação e de atividades que os desafiem e tornem a experiência “fora de casa” numa experiência única. Em Portugal, o turismo solidário está a ganhar o seu lugar e nós, enquanto ImpacTrip, ficamos muito satisfeitos no papel ativo que estamos a ter para essa evolução. Temos a certeza que neste momento somos a referência do Turismo Solidário em Portugal e o nosso objectivo é aumentar esse reconhecimento e levar a ImpacTrip ainda mais para fora de portas.

A grande maioria dos nossos clientes são estrangeiros, mas gostávamos muito de aumentar o número de Portugueses a experimentar este tipo de turismo.

- Que tipo de pessoas procuram fazer voluntariado no nosso país?

O nosso público varia consoante o programa, mas são maioritariamente jovens, pessoas que costumam fazer algum tipo de voluntariado, que são ativas e participam em grupos de desporto ou artes.

Os mercados-alvo internacionais são essencialmente os Países do norte da Europa, os Estados Unidos e Canadá e a Austrália.

Algum (ou alguns) episódio(s) que tenham chamado a tua atenção, algo que verdadeiramente marcou toda esta tua aventura?

Tantos… Desde casais formados nos nossos programas de voluntariado internacional de longa duração, até viajantes grávidas, pessoas que vêm curar depressões fazendo voluntariado (e resulta!), famílias inteiras que trazem as suas crianças ou filhos de emigrantes que se mudam para Portugal depois dos nossos programas. As nossas histórias davam para uma longa conversa

Deixo a história que escrevemos sobre uma família com uma criança de 6 anos que viajou connosco: http://www.e-konomista.pt/artigo/voluntariado-para-criancas/

Que desafios esperas encontrar pela frente? Ainda há um longo caminho a fazer em termos sociais e ambientais em Portugal?

Dado que o Turismo Solidário ainda continua a ser um conceito desconhecido no nosso País, o nosso objetivo é claramente dar a conhecer esta nova forma de viajar e convidar cada um e todos os Portugueses a Redescobrir o seu País.

O terceiro sector em Portugal está cheio de ideias e cada vez mais jovens dedicam o seu tempo e energia e renovar a forma como estas trabalham. Há um longo caminho para melhorar o sector mas mesmo sendo devagar estamos a seguir no caminho certo. E a ImpacTrip quer fazer parte e contribuir para esse caminho de progresso social e ambiental!

Fotos: DR

Surf: Salvador Couto em entrevista

Salvador Couto, um jovem surfista natural de Leça da Palmeira, é uma verdadeira promessa nacional e internacional. Desde que entrou em competição, está “”imparável”, contando com vários títulos como um terceiro lugar no Rip Curl GromSearch European Series deste ano e, mais recentemente, foi consagrado campeão nacional de Surf Esperanças na categoria de sub-16 no Montepio Peniche Groms by Rip Curl em Peniche o que lhe permitiu sagrar-se o novo campeão nacional nesta categoria.

A Excelência Portugal falou com o Salvador antes da sua viagem aos Açores, onde vai disputar, de 17 a 25 de setembro, um lugar no Mundial Júnior de Surf.

salvador couto2

- Como surgiu a ideia do surf? E com que idade começaste?
O primeiro contacto que tive com o surf foi aos 7 anos de idade. Depois, só aos 9 anos é que comecei mesmo a sério. Fiz campos de férias na Onda Pura e adorei o contato com o mar.

- Depois de iniciares, quantas vezes por semana treinavas para chegar onde chegaste?
Todos os dias, intensivamente.

- A tua ideia era entrar logo em competição? Ou foi mais na “desportiva?”
Não tinha planos de competir. Foi algo que surgiu muito naturalmente. Fui evoluindo nas aulas de surf e os meus treinadores acharam que eu me saía bem e dediquei me as competições.

- Como é que lidas com as competições?
Normalmente lido bem. Há sempre um nervosismo mas gosto de competir. A competição faz com que tenha que puxar mais por mim. Não gosto de perder.

- Quem é a tua inspiração no surf? E porque?
Adriano de Sousa porque tem talento e é muito trabalhador.

- Qual é a praia que na, tua opinião, é a melhor do Norte? E qual costumas surfar?
A minha, Leca da Palmeira!

- Qual é a tua manobra preferida? Porquê?
Tubos. É incrível fazê-los!

- Como foi juntar-te à team da Deeply em 2013, juntamente com grandes nomes nacionais como João Guedes e Camilla Kemp? Foi uma oportunidade muito boa.
Associar-me à Deeply trouxe-me mais responsabilidade e ser representado por uma marca com a qual me identifico, é ótimo.

salvador couto

- Depois de todos os títulos que conseguiste: vice-campeão nacional de surf esperanças, campeão regional, pertencer à seleção portuguesa de surf e agora campeão nacional de surf esperanças. Qual é a sensação?
É ótimo mas não chega. Eu tenho objetivos muito definidos. Estou contente com o meu percurso mas quero alcançar mais, chegar mais longe, treinar muito. Sou muito agradecido pelo que tenho alcançado, também com o apoio que tenho da minha família, treinadores e amigos mas ainda há muito caminho pela frente.

- Como te sentes como campeão nacional de sub-16?
Sinto-me super feliz, especialmente porque foi um ano de trabalho duro que acabou em grande e também porque me deu mais confiança para outros campeonatos importantes.

- E, que desafios sentiste nessa etapa do Montepio Peniche Groms by Rip Curl?
Não foi fácil. O nível de surf de todos os atletas está a evoluir muito e eu tenho a noção que preciso de acompanhar e manter-me um passo à frente. Esse é o maior desafio de todos.

- Quais são os projetos para o futuro? Até onde é que ambicionas chegar?
Quero chegar ao WCT… Vou trabalhar muito para lá chegar.
Quero ganhar mais competições, quero estar preparado para as provas que vou ter e representar bem o nosso país. E quero divertir-me a fazer isso tudo.

Fotos: Tomané (capa); DR

 

 

 

Carolina Duarte de Ouro, Prata e Bronze

carolina_duarte_art2Carolina Duarte conquistou Ouro, Prata e Bronze nos Campeonatos IPC que decorreram em Grosseto, Itália, no mês de Junho. A atleta paralímpica sagrou-se campeã da Europa dos 100 metros e estabeleceu novo recorde europeu com o tempo de 12.85.

A atleta lusa foi imparável e à medalha de ouro nos 100 metros, juntou a medalha de Prata nos 200 metros e a de Bronze nos 400 metros.

O melhor deste momento não foi a medalha em si, mas a secreta esperança de que comigo estivesse um mundo a celebrar! Obrigada a todos, foi um dos momentos mais felizes de sempre.

Carolina Duarte, 26 anos, natural de Lisboa, licenciada em gestão, atleta com insuficiência visual, amante do atletismo há 12 anos, é uma força da natureza. Deixou a capital lusa e rumou a Londres onde encontrou trabalho no serviço de apoio a clientes da London City Tour.
Em entrevista à Excelência Portugal, a atleta confessou que tem dois sonhos : no desporto, o ouro paralímpico e  na vida profissional, trabalhar no seu próprio negócio.
Corro o mundo para ser feliz!
Carolina Duarte mostrou-se muito sensibilizada e feliz com a carta que recebeu do Presidente da República. Marcelo Rebelo e Sousa deu-lhe os parabéns e mostrou-se orgulhoso pelo seu desempenho e forma como sorri com tanta alegria no pódio e ao hastear da bandeira nacional.
Agora o foco de Carolina está nos Jogos Paralímpicos do Rio.

Boa sorte Carolina!

Foto: José Silva/FPAtletismo

 

“A confissão do navegador” : Duarte Nuno Braga em entrevista

capa_confissao_NavagadorDuarte Nuno Braga nasceu em 1975 e é natural de Lisboa. O prémio literário que recebeu aos 14 anos incentivou-o a continuar a escrever. Licenciado em Engenharia Eletrotécnica, fez carreira na área das tecnologias. É autor do blogue duartenunobraga.com, onde se entrega à escrita, ao contacto com outros autores e sobretudo à partilha com os leitores. Dedica-se à formação em escrita criativa. A Confissão do Navegador é o seu primeiro romance histórico.

De que forma chegas a esta personagem histórica, Duarte Pacheco Pereira, e a incluis no teu livro?

Comecei por descobrir “A Confissão do Navegador” através da meditação. Alguns episódios narrados apareciam-me, muitas vezes, em sonhos, como se estivesse a ser chamado para desvendar segredos antigos. Comecei a investigar a vida de diversos navegadores quinhentistas até que conheci a história escondida de Duarte Pacheco Pereira. E, nesse preciso momento, não tive mais dúvidas de que era ele o capitão desta história incrível.

Duarte Pacheco Pereira poderá ser mais um herói ignorado na nossa história?

Não tenho quaisquer dúvidas disso. Duarte Pacheco Pereira terá estado duas vezes no Brasil, antes de 1500. A sua fé, aliada aos seus conhecimentos de cosmografia, foram determinantes. Portugal precisava de conseguir um caminho marítimo para a Índia, tão seguro quanto possível. As aguadas em África eram muito inseguras, devido à hostilidade dos nativos e D. João II necessitava de alternativas. É muito provável que a descoberta do Brasil tenha ocorrido em 1493. No ano seguinte, o próprio Duarte Pacheco Pereira assinava o Tratado de Tordesilhas, que estendia a linha divisória da bula papal em 270 léguas a oeste de Cabo Verde, incluindo assim aquele novo território. No mesmo tratado ficaria salvaguardado um período de carência que concederia a Castela quaisquer terras descobertas. Revelar o descobrimento do Brasil naquela altura seria algo impensável. No seu tempo, Duarte Pacheco Pereira foi um grande visionário e os seus feitos foram notáveis, mas a nossa história não lhe deu o lugar de destaque merecido.

Escrever um romance histórico implica um trabalho e um estudo extenso. O que fizeste para dar corpo ao teu romance?

Este romance demorou cerca de dois anos a completar. Foram muitas horas de biblioteca, a consultar compêndios antigos e o próprio regimento escrito por Duarte Pacheco Pereira. Tive o máximo de cuidado possível nos pormenores. Se num determinado episódio descrevi uma tempestade, é porque existem registos, nesse dia, dessa intempérie. Toda a parte ficcionada foi feita de uma forma não contraditória com os registos históricos existentes. Isto é, o rei pode não ter dado um anel a Duarte Pacheco Pereira, como é descrito no primeiro capítulo. Mas não existe um documento a dizer que não deu. Os factos históricos, por outro lado, são narrados com o maior rigor possível.

Também tive alguma sorte. No desenrolar do romance, o herói tem um amor proibido com Antónia, com quem viria a casar mais tarde. Faltava-me saber se, efectivamente, poderia ser um amor proibido. Fiquei incrédulo ao descobrir que existem indícios de que a família de Antónia terá estado exilada em Castela, por conspiração contra o rei. A nossa história é tão rica que a escrita de um romance acaba por se simplificar. (risos!)

Ganhaste um prémio quando eras mais novo. Ficar tantos anos desligado da escrita fez-te duvidar das tuas capacidades?

Não posso dizer que alguma vez tenha duvidado das minhas capacidades enquanto autor. Desde muito novo que gostava de escrever. Lembro-me de inventar notícias em pequenos bilhetes e lê-los para a família. Durante a adolescência, concorri com um conto a um prémio literário e fiquei em primeiro lugar. Recordo-me de que investi todo o prémio num rádio-transmissor. Gostei tanto daquilo que ganhei um entusiasmo pelas telecomunicações, até hoje.

A verdade é que o universo tem a incrível capacidade de nos devolver oportunidades atrás de oportunidades. E, desta vez, agarrei-a! Creio que o meu problema foi gostar sempre de fazer muitas coisas diferentes. (risos!)

De que forma a tua busca interior – fizeste cursos de meditação, aprendeste astrologia, música, palavras e poesia, viste artes ancestrais, fizeste massagem Thai – te ajudou na tua vida?

Sempre gostei da mudança e de me questionar. A minha busca interior não termina aqui. Creio que acabou de começar. Na minha perspectiva pessoal, este livro é muito mais do que uma obra sobre os descobrimentos. É um guia de auto conhecimento. Creio que muitos leitores encontrarão nele também algumas respostas. Costumo dizer que a coragem e impulsividade, quando coabitam, podem ser explosivas. A minha busca interior ajuda-me a apaziguar essa efervescência. Por outro lado, a vida é para ser vivida, certo? Só temos de encontrar um equilíbrio.

Estavas à espera de tantas solicitações após a publicação de «Duarte Pacheco Pereira – O Navegador que descobriu o Brasil»?

Confesso que não tinha consciencializado quaisquer perspectivas nesse sentido. Nem altas, nem baixas. Vivi com muito amor e dedicação todos os diferentes momentos deste livro. A pesquisa, a escrita, a revisão, a publicação e agora a divulgação. Costumo dizer que a felicidade não se encontra no horizonte, ela mora no caminho da vida. E só poderemos realmente vivenciá-la se colocarmos as expectativas de lado.

Contudo, e sem falsa modéstia, não escondo a minha satisfação por ver as atenções postas em torno desta obra, quer por parte da comunicação social, quer por parte dos leitores.

Queres falar-nos de influências? Que escritores e livros te marcam?

A maior influência é a minha própria vida e a forma como encaro as situações com que deparo. Não há escritor que não tenha um pouco de si nos seus livros. No plano da escrita espiritual, tenho de referir Paulo Coelho, que considero um mestre. No contexto do enredo e das descrições, O Equador de Miguel Sousa Tavares é um néctar. E, se isso fosse possível, gostava de tirar o curso da linguagem própria de Mia Couto.

O que queres dizer ao teu público-leitor e a quem ainda não te descobriu?

«A Confissão do Navegador» é um empolgante romance histórico que nos leva a vivenciar as emoções das viagens marítimas dos descobrimentos e da conquista das Índias. Numa época envolta em segredos, conspirações e amores proibidos, o capitão português, pejado de fé e perseverança, enfrentou a fúria dos oceanos, combateu exércitos poderosos e realizou descobertas de importância vital para o país. Porém, na rota das suas viagens, Duarte Pacheco Pereira descobriu muito mais do que poderia sequer imaginar.

Além de sugerir a leitura do meu livro, gostava de incentivar os leitores a darem uma oportunidade aos novos autores portugueses. Felizmente, existem cada vez mais pessoas a escrever – e bem!

Aproveitem as redes sociais para conhecer os autores, que estão ávidos de receber os vossos comentários e partilharem experiências. Procurem Afonso Reis Cabral, Manuel Monteiro, Célia Loureiro, Sara Rodi, Nuno Nepomuceno.

Leiam autores portugueses, ajudem a cultura portuguesa!

A Confissão do Navegador
A Confissão do Navegador
Duarte Nuno Braga

P.V.P.: 15.90
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Data de Edição: 2016
Nº de Páginas: 256
Editora: Editorial Presença

Corre o ano de 1493. D. João II convida o navegador Duarte Pacheco Pereira a conhecer Cristóvão Colombo. Joga-se o destino de Portugal e do próprio Duarte Pacheco Pereira, incumbido de uma missão secreta que o leva aos confins do Atlântico. Neste empolgante romance histórico desvenda-se a figura pouco conhecida do navegador descrito por Camões como o «Aquiles lusitano». Do perigo dos mares ao calor da Índia e da batalha, somos levados para uma época envolta em segredos, conspirações e relações proibidas. A ambição de um reino muda a vida de um homem dividido numa busca espiritual entre a lealdade e o amor.

Conexão Lusófona em entrevista

conexao1Não é todos os dias que numa entrevista a quatro membros de uma associação se encontram representados três continentes de uma vez só. A Viviane e a Bruna são brasileiras, o Pedro é português e a Laura é luso-angolana. Nascida oficialmente como uma Associação Juvenil sem fins lucrativos em Julho de 2009, a Conexão Lusófona tem hoje uma equipa constituída por cidadãos de todos os países pertencentes à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. O único país não representado na equipa é a Guiné Equatorial que foi aceite como membro da CPLP em 2014.

A Excelência Portugal quis descobrir mais acerca da Lusofonia e do papel da Conexão Lusófona no Mundo.

O que é a Lusofonia?
Pedro Filipe: A Lusofonia é um sentimento de pertença a uma comunidade que está unida pela mesma língua. É mais que isto: é cultural, é sociológico. É um sentimento de afinidade porque sentimos uma proximidade muito maior com alguém que fala a nossa língua e que partilha um passado comum. Necessariamente por partilhar esse passado comum partilha também uma visão do presente e do futuro.

Veja este vídeo da Conexão Lusófona com o título “O que é Lusofonia?”:
https://www.youtube.com/watch?v=Yc1Vd1NLLlU

E pensa que existe este mesmo sentimento em comunidades falantes de outra língua como é o caso da francofonia ou a anglofonia?
Pedro Filipe: Eu acredito que também exista, acho que todos nós acabamos por envolver-nos mais com comunidades e pessoas que têm algo em comum connosco, como a língua ou outros factores identitários. Creio que cada uma das comunidades a vive de forma diferente. Nós temos uma maneira muito própria de viver a Lusofonia.

A ideia surgiu como e porquê? Sentiram a necessidade de algo que ligasse as pessoas da comunidade lusófona?
Laura Vidal: Sim, a ideia surgiu como um grupo de amigos na altura em que eu andava na faculdade em Lisboa. Espontaneamente foi surgindo um grupo de pessoas que se juntavam para convívios, debates, saídas à noite. No fundo eramos jovens estudantes universitários de todos esses países (CPLP). Depois essa experiência acabou por se repetir, no meu caso particular quando fui estudar para o Brasil em que acabei por ter as mesmas vivências com outras pessoas que estavam no Rio de Janeiro a estudar e que eram também lusófonos. Obviamente que, com esta grande mistura cultural e um à vontade que havia entre nós, a tendência era que as conversas fossem muito a partilha das realidades culturais e os pontos de contacto entre os diversos países ali presentes. À medida que esses laços se foram criando e esses diálogos se foram estabelecendo houve uma consciência generalizada de que nós eramos uma geração que tínhamos um papel importante nesta aproximação. Percebemos que não havia nada de concreto a ser feito em torno da juventude e das novas gerações lusófonas. Depois de percebermos isso achámos que podíamos passar para a prática e assim criar esta associação. Quisemos transpor aquilo que inicialmente eram reuniões informais para algo mais concreto, com projetos concretos e uma linha de ação concreta.

Qual é a principal missão da Conexão Lusófona?
Viviane Carrico: Espalhar a Lusofonia pelo mundo! A missão da Conexão Lusófona é conectar todos os jovens e pessoas que tenham este sentimento de pertença que vai muito além daquilo que são os países que fazem parte da CPLP. Normalmente as pessoas, quando pensam em Lusofonia automaticamente pensam nos países da CPLP mas na verdade a Lusofonia são todas as regiões, mesmo em comunidades francófonas ou anglófonas, com pessoas que já estiveram ou estudaram em países lusófonos ou que têm algum interesse pela nossa cultura e que querem, de certa forma, entrar no meio deste caldo e participar nas nossas atividades. A Conexão Lusófonas tem várias áreas de destaque que podem ser vistas no nosso portal (www.conexaolusofona.org), o nosso meio de comunicação dentro e fora de Portugal. Temos várias áreas de intervenção como a Cultura (realizamos vários eventos ao longo do ano como o Festival da Conexão), a Educação, Política, está tudo interligado. Basicamente, a nossa missão é dar a conhecer este espírito lusófono e ser um meio, uma plataforma, para que as pessoas se encontrem, partilhem e façam acontecer.

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Os portugueses vivem a Lusofonia sem saber?
Laura Vidal: Sim. Uma das muitas missões que temos é precisamente essa. Com os nossos projetos procuramos trazer este espírito lusófono e desenvolver esse sentimento de pertença. Há pessoas que já o vivem e que, de alguma forma, estão conscientes dessa sua múltipla pertença a este espaço que já veem como um todo. Há pessoas que já tiveram contactos e experiências de vida que as remeteram para determinado país, ou gostam de um determinado estilo de música e nunca tinham parado para pensar que aquilo até tem um nome ou tem uma ideia utópica por trás. Principalmente com os nossos eventos, apercebemo-nos muito disso, que vem alguém que já conhece e que já se sente parte e lusófono mas também vêm pessoas curiosas ou que gostam de um determinado artista no festival e depois têm uma experiência e uma vivência em que numa situação prática percebem o que é isso da Lusofonia. O que eu acho que em Portugal particularmente acontece é que esse sentimento e sentido de pertença já se começa a viver. Penso que Lisboa é uma cidade onde isso se sente cada vez mais e Lisboa tem assumido esse lado identitário de mistura lusófona mas acredito que não haja essa consciência plena pelo país fora. Existem alguns pontos de contacto mas nem sempre há essa tomada de consciência e é por isso que nós aqui estamos.

A equipa da Conexão Lusófona tem quantas pessoas e de que origens?
Laura Vidal: Contabilizar-nos é sempre um problema. Há diferentes níveis de participação e envolvimento na Conexão Lusófona. Que participam e já seguiram eventos da Conexão Lusófona já estamos nos milhares: a seguir através do portal, interagir no Facebook, participar nos debates, no festival. Pessoas que trabalhem no núcleo duro da Associação, diária ou mensalmente já vamos próximos das 100 pessoas incluindo todos os países. Como isto começou de uma forma muito espontânea, estamos agora a tentar institucionalizar e formalizar mais um conjunto de procedimentos que são normais das associações mas sempre com muita atenção para que isto não ponha em causa esta naturalidade e dinâmica muito características da Conexão Lusófona.

Portugal, a nível político e social, está a dar atenção ao tema da Lusofonia?
Pedro Filipe: Sim, acho que Portugal nunca deu tanta importância ao tema da Lusofonia como hoje. É um tema que tem estado na agenda do dia. Tivemos duas eleições legislativas e presidenciais onde ambos os candidatos vencedores manifestaram intenções de alargar o âmbito da Lusofonia. Quer Marcelo Rebelo de Sousa, numa conferência organizada por nós, quer António Costa manifestaram-se favoravelmente à ideia de criar um espaço lusófono um pouco como o espaço Schengen com livre circulação, não de bens, mas pelo menos de pessoas que já seria um grande avanço. Manifestaram-se a favor de projetos como um Erasmus Lusófono, comparando como a União Europeia, e isso é um grande avanço. Se isso vai acontecer ou se vai acontecer à velocidade como esperaríamos e gostávamos não sei mas estas declarações e manifestações de vontade são importantes. Agora é necessário que se traduzam em atos concretos e em pressão política e diplomática mas, de facto, Portugal tem estado muito recetivo a esta ideia de uma nova Lusofonia.

Laura Vidal: Uma plataforma como a Conexão Lusófona, indiretamente, tem contribuído para que a agenda da Lusofonia tenha esse capital e para que seja uma prioridade na agenda política. Em muitas das nossas iniciativas, como conferências e debates, elaboramos as nossas recomendações que fazemos chegar a quem decide, não só em Portugal mas também noutros estados da CPLP. Estamos agora a começar a colher os frutos desse lado menos visível da ação da Conexão Lusófona e desse trabalho de advocacia. Quando começámos a Lusofonia era ainda muito desconhecida, até o nome fazia confusão às pessoas tendo mesmo havido alguma discussão em torno da palavra mas hoje já passámos para outra fase.

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Pensam que nos restantes países da CPLP, as pessoas conheçam a Lusofonia?
Viviane Carrico: As pessoas vivem mais do que conhecem o termo. A essência do Brasil, por exemplo, é como uma colcha de retalhos por isso para nós (brasileiros) já é inconsciente viver uma multiculturalidade e uma panóplia de origens e culturas. Na verdade esta mistura já é a identidade do Brasil.

Bruna Roboldi: No Brasil, falta é uma consciência daquilo que se passa noutros países que compõem esta mistura. Falta um pouco de interesse e de perceber que tudo o que se passa nos outros lugares é um bom exemplo e um espelho do que se passa no Brasil. Nos outros países, pelo menos naqueles em que já estive (Cabo Verde e Moçambique), a Lusofonia também é muito vivida especialmente a nível cultural como a música e o teatro. As pessoas sentem aquele sentimento de pertença como um afeto intrínseco que flui. As pessoas acabam por participar muito na cultura uns dos outros. Penso que em Moçambique fui a mais concertos angolanos do que se teria ido se estivesse mesmo em Luanda.

Que atividades organizam nos restantes países lusófonos que não Portugal?
Laura Vidal: A Conexão Lusófona não tem uma agenda por país, ou seja, somos uma rede que sempre trabalhou como um todo evitando ao máximo que haja uma agenda da Conexão Lusófona por país. O nosso plano de atividades é conjunto com atividades que podem acontecer em diversos pontos do globo. Assim, as atividades que acontecem nos outros países são muito semelhantes àquelas que acontecem em Portugal quando são viáveis e quando conseguimos recursos. Por exemplo, o Festival da Conexão ainda não aconteceu fora de Portugal apenas porque ainda não conseguimos os apoios e recursos necessários mas o nosso ciclo de debates já teve lugar em várias cidades do Brasil, Moçambique e França.

Relativamente à recente incorporação da Guiné Equatorial…
Laura Vidal: Embora às vezes haja a expectativa de algumas franjas da sociedade de que a Conexão Lusófona tome determinada posição pública e oficial sobre determinadas matérias, o que é certo é que a Conexão Lusófona é composta por pessoas que têm pensamentos diferentes em relação a esses temas. Por isso, no caso da Guiné Equatorial, ou mesmo do novo acordo autográfico, nunca anunciámos estar contra ou a favor. De facto, o que tentamos fazer através do canal de comunicação (o portal) é ser um facilitador do debate e da reflexão dentro do espaço lusófono permitindo assim que se partilhem as várias opiniões e ideias existentes. Todos nós na Conexão Lusófona somos livres de pensamento e temos total liberdade para nos expressarmos em nome individual se somos a favor ou contra. Quando sentimos que há um determinado assunto que é concordante dentro da organização, a Conexão Lusófona toma opiniões mais vincadas. Um exemplo disto é a questão da livre circulação.

Fotos: Conexão Lusófona