Açores: Secretária Regional do Turismo em entrevista

Autor: Miguel Marote Henriques    Data: 5-02-2017
Publicado em: Açores, Entrevistas, Produtos tradicionais, Turismo

2016 terá sido o melhor ano de sempre em todas as ilhas e nos vários indicadores do turismo, nomeadamente com uma evolução acima de 20% no crescimento das dormidas na hotelaria tradicional e com a perspetiva dos proveitos ultrapassarem os 70 milhões de euros, um crescimento na ordem dos 30%.

Para a nova titular da pasta do turismo, mais importante do que bater recordes em termos estatísticos, é a qualidade oferecida e um crescimento que respeite a oferta ambiental da região para a manutenção dos atuais bons resultados.

Marta Guerreiro, Secretária Regional da Energia, Ambiente e Turismo, em entrevista à Excelência Portugal e ao Tribuna das Ilhas, falou sobre o crescimento do destino Açores e o seu caráter único, o transporte aéreo, a oferta e os desafios.

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Os Açores estão definitivamente na moda, os prémios internacionais sucedem-se e os números das dormidas crescem a taxas superiores a 20%. Qual foi a estratégia responsável por este sucesso do destino Açores?

Não se poderá falar numa única estratégia. Trata-se do fruto de um conjunto de fatores, entre os quais, temos o empenho do Governo Regional dos Açores na consolidação do trabalho de aumento de notoriedade do destino e de promoção e captação de fluxos turísticos dos últimos anos, mas também todo o investimento da iniciativa privada. Não somos, nem pretendemos ser, um destino de massas, mas temos ainda ampla margem para crescimento através dos mercados potenciais. Até porque, cada vez mais, se verifica um aumento generalizado da procura turística por destinos seguros, com beleza mística, capazes de proporcionar tranquilidade e experiências únicas, com grande preocupação pelas questões de sustentabilidade económica, cultural, social, mas sobretudo ambiental. Estas são também algumas das razões que levaram ao crescimento turístico de um destino como os Açores, que enquadra amplamente este fenómeno da procura turística mundial.

Importa destacar que 2017 foi declarado pelas Nações Unidas como o Ano Mundial do Turismo Sustentável para o desenvolvimento e é esta a assinatura de qualidade que queremos na região: certificar pela natureza e posicionar o Turismo nos Açores como um destino aliado ao ambiente. Foi este o caminho que levou ao sucesso do Destino e aquele que queremos continuar a desenvolver como uma estratégia consolidada. Neste sentido, manteremos a prioridade na proteção e preservação do património natural e cultural dos Açores, criando condições para que a qualidade de vida das nossas comunidades e a natureza pura e intacta perdurem. É sem dúvida um destino “verde” e despoluído que queremos que continue a ser reconhecido a nível internacional e por todos quantos nos visitam.

Qual o impacto da chegada das low cost a São Miguel neste cenário? Depois da Terceira, está prevista a abertura de novas rotas?

A liberalização do transporte aéreo doméstico para os Açores, que ocorreu no final do primeiro trimestre de 2015, a par do aumento de oferta, mas também de procura, na América do Norte, e a melhoria das acessibilidades inter-ilhas, estão a contribuir efetivamente este crescimento. Assim, o crescimento sustentado que hoje vivemos é muito positivo e deve, sobretudo, servir de motivação e de alento para o muito trabalho que todos necessitamos de efetuar nesta área. E aqui, gostaríamos de fazer notar que o crescimento do setor do turismo beneficia claramente do novo modelo de acessibilidades áreas à Região, mas é preciso ter a noção de que este não foi um trabalho que se iniciou apenas com a entrada das lowcost ou apenas com o momento de liberalização das rotas entre o Continente português e as ilhas de São Miguel e Terceira. O crescimento do número de turistas dos EUA e Canadá que nos visitam – rotas nas quais não operam companhias de baixo custo – dá bem nota deste ponto, com crescimentos de 57% e 14%, respetivamente, até setembro último, face ao período homólogo. Para além das intenções de novas rotas, é importante reforçar os mercados prioritários em termos de captação de novos voos e de promoção, nomeadamente, os EUA, França, Reino Unido, Canadá, Itália e Alemanha; tendo em conta que os fluxos turísticos não se criam apenas com novos voos diretos para a Região, mas também através do tráfego de ligação, com preço e tempo de duração de viagens convenientes.

Assim, temos como objetivo garantir a sustentabilidade e fiabilidade das acessibilidades aéreas, mas também fomentar novas ligações para mercados emissores que se demonstrem adequados e enquadrados nos segmentos definidos no PEMTA – Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores. A SATA continuará a ter um papel preponderante nesta estratégia de captação de novos fluxos, mas trabalharemos com todas as companhias aéreas ou operadores turísticos que se nos afigurem com capacidade para a supracitada sustentabilidade e fiabilidade de novas rotas.

Que instrumentos foram criados para que as restantes ilhas usufruam do maior fluxo de turistas que chegam a São Miguel?

A verdade é que o Governo dos Açores tem consciência da importância da eficiência nas acessibilidades, garantindo assim a fiabilidade e sustentabilidade das mesmas, externa e internamente, enquanto elemento fundamental para o crescimento do setor turístico num destino insular como os Açores.

A monitorização permanente da prestação de serviço público de transportes aéreos, entre a região e o exterior e entre as nove ilhas, tem sindo uma prioridade no sentido de que todos os açorianos possam usufruir do maior fluxo de turistas que chegam a São Miguel.

Em termos gerais, regista-se uma evolução positiva no Turismo dos Açores, transversal a todas as ilhas, o que significa que os turistas estão a chegar às nove ilhas do arquipélago, quer seja através do aumento do fluxo dos voos externos, quer seja por via dos reencaminhamentos inter-ilhas.

Neste sentido, temos também vindo a reforçar a conciliação da utilização dos transportes aéreos e marítimos, em pacote, de forma a facilitar a movimentação dos turistas na região. Rentabilizar as infraestruturas portuárias e as atividades turísticas conexas e complementares, relacionadas com o turismo náutico e de cruzeiros, a partir de agora, serão também uma prioridade.

O acréscimo de turistas constitui uma oportunidade para a requalificação da oferta hoteleira, bem como da hotelaria e restauração. Como reagiram estes sectores? Foram criados incentivos e instrumentos para este fim?

Um dos quatro vetores estratégicos do Programa de Governo para o setor do turismo é exatamente o da qualificação do Destino Turístico Açores, o que mostra as preocupações do executivo na qualificação e inovação em permanência nos produtos e nos serviços, de modo a garantir a consolidação de uma oferta diferenciada e exclusiva para o turista, em todas as componentes que devem compor aquilo que é o Destino Açores.

Neste sentido, a formação dos recursos humanos representa um dos desafios mais exigentes para reforçar a notoriedade do destino. Estão previstas várias medidas que visam garantir a qualificação, o intercâmbio e a reconversão de recursos humanos, assim como a qualificação e inovação dos produtos e serviços. Exemplos disso são o incentivo a programas de formação e qualificação, tanto do setor público como privado; o apoio da conversão profissional e da atualização de competências adequadas ao mercado de trabalho, em particular no atendimento ao cliente e no marketing digital e, ainda, o incentivo à criação de programas e intercâmbios profissionais (cross-exposure) e de estágios com entidades públicas e privadas noutros destinos que partilhem o mesmo tipo de características e de mercados.

Os estabelecimentos de formação na Região vão assumir, no nosso plano, um papel preponderante na preparação e reconversão de recursos humanos, com a necessária qualidade, imbuídos de arte de bem receber de forma genuína, mas identitária, que consideramos fundamental que seja reconhecida pelo nosso turista. É necessariamente um processo gradual, mas estamos convictos que as medidas preconizadas vão habilitar e facilitar uma maior capacitação na preparação de novos profissionais.

A menor acessibilidade permitiu manter os Açores num estado mais puro e imune à explosão imobiliária? Como é que este valioso ativo vai ser preservado? A inclusão do ambiente e do turismo na mesma secretaria regional é um claro reflexo da aposta do Governo Regional em afirmar os Açores como destino “certificado pela natureza”?

Sim, a criação desta Secretaria tem como principal foco uma gestão integrada destas áreas, que cremos fundamentais para o desenvolvimento dos Açores.

Efetivamente a nossa aposta tem passado, e continua a passar, por aumentar a notoriedade internacional dos Açores como um destino de Natureza de Excelência, procurando reforçar, perante os mercados externos, o nosso posicionamento em prol desta imagem e pondo em destaque as nossas caraterísticas de sustentabilidade, ambientais e paisagísticas. Esta ideia não é recente e tem vindo a ser posta em prática sucessivamente pelos últimos Governos Regionais, que sempre defenderam políticas ambientais e turísticas conciliatórias de boas práticas ambientais, salvaguardadas legalmente de forma a preservar a nossa identidade paisagística, enquanto elemento diferenciador e principal mais-valia de competição com os destinos concorrentes.

Assim, a nossa prioridade é proteger e preservar o património natural e cultural dos Açores, criando condições para que a qualidade de vida das nossas comunidades não seja comprometida no presente e no futuro. É nesta linha de pensamento que pretendemos também cuidar dos nossos visitantes, antecipando e proporcionando tudo o que necessitam, para que a experiência dos Açores seja memorável e desperte a vontade de voltar. Isso tem sido trabalhado no sentido de nos apresentarmos como um destino natural, de rara beleza, sem influências externas em si, sem vocação para massas e sendo dirigido a nichos muito específicos de visitantes que queiram ter experiências irrepetíveis.

foto-2Além do turismo de Natureza, eleito produto matriz, que outras ofertas são consideradas prioritárias?

Pretendemos atingir a verdadeira sustentabilidade através do Turismo, proporcionando aos nossos visitantes uma experiência de convidados especiais em ambiente natural, para que lhes deixe saudades e a vontade de voltar.

Sabendo da importância e do posicionamento como Destino de Natureza, não podemos esquecer todas as outras potencialidades que cada uma das nove ilhas, distintas entre si, têm para oferecer.

Assim, pretendemos promover a criação de tours ou circuitos organizados para a descoberta e exploração dos atrativos, não só paisagísticos, como também culturais e gastronómicos, ao que se acrescenta a promoção da agenda cultural e sua disponibilização aos Agentes e Alojamentos Turísticos. Ainda neste âmbito, a intenção é de georreferenciar todos os atrativos naturais e culturais e disponibilizar essa informação online, assim como de infraestruturas de apoio (oficinas, centros, assistência, áreas de serviço, áreas de descanso, etc.).

Um dos produtos que também merece algum destaque é a aposta na sofisticação dos serviços e infraestruturas relacionadas com a saúde e bem-estar, em especial na área do termalismo.

Atualmente quais são os principais mercados emissores e qual a importância dos continentais e da diáspora açoriana?

Há ainda que manter o reforço da promoção do Destino Açores, através do incentivo a novas ligações para mercados emissores que se demonstrem adequados e enquadrados nos segmentos de mercado já sinalizados, nomeadamente com a expansão de notoriedade e a capatão de fluxos turísticos na América do Norte, enquanto mercado estratégico identificado no PEMTA – Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores.

Quanto aos mercados emissores com maior relevo, e segundo os dados entre janeiro e setembro de 2016 na Região, o continental representa cerca de metade das dormidas, registando-se 252 132 hóspedes, num total de 509 112. Segue-se a Alemanha (12%), os EUA (6%) e Espanha (5%).

De um modo geral e segundo os dados do Serviço Regional de Estatística relativos às dormidas de janeiro a outubro, no alojamento tradicional e TER – Turismo no Espaço Rural verificou-se um crescimento de todos os mercados prioritários, com exceção da Suécia. Aqueles que apresentaram melhores resultados em 2016 e face ao ano anterior foram os EUA e a Espanha, com crescimentos da ordem dos 58,1% e 50%, respetivamente, seguidos da Holanda (22,7%), Bélgica (19,5%), Canadá (18,9%), França (17,4%), Alemanha (17,1%) e Reino Unido (14,8%).

Sabemos a importância que a Diáspora Açoriana tem na Região, fazendo dos emigrantes embaixadores dos Açores nas suas áreas de residência. Isto permite potenciar sinergias e detetar áreas de interesse entre as comunidades, reforçando a ligação entre os Açores e a Diáspora. Neste contexto, a aposta no mercado dos EUA e Canadá, não restringida às nossas comunidades emigrantes, mas sim direcionada para o grande potencial geral existente, tem sido uma aposta importante e que pretendemos reforçar.

A natureza paradisíaca do arquipélago torna-o num palco de excelência para a prática de várias modalidades desportivas, como surf, bodyboard, BTT, canyoning, trail running, entre outros. Neste âmbito, os Açores têm sido palco de inúmeros eventos desportivos de nível mundial, qual tem sido a estratégia para a sua captação e que reflexo têm tido no turismo?

Temos vindo a reforçar um trabalho já iniciado no desenvolvimento dos produtos primários para cada uma das ilhas do arquipélago açoriano. Neste sentido, uma das medidas implementada foi a georreferenciação dos recursos naturais e spots para a prática de várias modalidades como mergulho, surf e pesca desportiva e angariar e apostar em eventos de renome internacional no âmbito destas áreas, bem como do bodyboard, BTT, canyoning, trail running, parapente, etc.

Estas medidas têm permitido aumentar o grau de satisfação com a qualidade ambiental no destino e reforçar a notoriedade dos Açores no mundo, ao estimular a vontade de visita por parte de mercados de alto valor.

Para além de fortalecerem a nossa imagem como Turismo de Natureza, estas iniciativas também são aproveitadas nos nossos planos de comunicação, potenciando o nosso património natural e a especial apetência do nosso destino para um turismo ativo e de aventura. Em termos promocionais, os Açores saem imensamente beneficiados como o palco escolhido para este tipo de eventos, o que permite evidenciar as nossas particularidades paisagísticas, aumentando a nossa atratividade para este tipo de segmentos de mercado.

O Turismo dos Açores capitaliza a sua exposição associando a sua promoção ao apoio de eventos internacionais relevantes que distingam os atributos de natureza, garantindo não só as externalidades positivas do impacto direto da participação de um elevado número de participantes, como também obtendo junto daqueles nichos de mercado grande notoriedade.

Quais são os maiores desafios atuais e futuros do setor?

O Turismo dos Açores vive atualmente um dos melhores momentos da sua história, assumindo uma identidade turística muito mais fortalecida e atingindo níveis de crescimento muito superiores aos registados no passado.

No entanto, agora mais do que nunca, há necessidade de acautelar e assegurar a manutenção dos níveis de sustentabilidade ambiental e paisagística que elevam a nossa atratividade e valorizam a nossa imagem como Destino Turístico de Natureza. É também por isso que a estratégia, a partir daqui, assentará desde logo no PEMTA – Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores, uma ferramenta de trabalho que entrou em vigor em 2016 e que será fundamental para a abordagem que será feita ao setor, nos próximos anos, ao nível do marketing e comunicação. Os seus principais objetivos são alavancar a notoriedade dos Açores junto dos consumidores finais; posicionar a Região como um destino exclusivo de natureza exuberante; promover a cooperação permanente entre os intervenientes públicos e privados na sua execução; melhorar a competitividade do destino e aumentar os fluxos turísticos, tendo de forma subjacente a salvaguarda da sustentabilidade económica, ambiental e sociocultural do território.

Em termos globais, o Governo Regional propõe, para os próximos quatro anos, dar prioridade: à qualificação do destino, no que diz respeito à inovação de produtos e serviços e à consolidação de uma oferta diversificada; à promoção da sustentabilidade interna da atividade turística em todas as suas vertentes e da sustentabilidade de fluxos turísticos que resultem na criação efetiva de emprego e de riqueza; ao aumento da eficácia da promoção e ao aumento da eficiência nas acessibilidades.

Fotografias: SREAT


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