Marlene Ferraz em entrevista

Autor: Rodrigo Ferrão    Data: 20-12-2017
Publicado em: Entrevistas

marleneferraz1aMarlene Ferraz, de 1979, tem os pés pousados em terras a norte. Com o ofício da psicologia, tem vindo a dedicar-se à escrita como um exercício de decomposição da experiência e alinhamento da desordem. Com um amor particular pelo conto, tem publicado Na Terra dos Homens (prémio Miguel Torga 2008), O Amargo das Laranjas (prémio Florêncio Terra 2008) e O Tempo do Senhor Blum e outros contos (prémio Afonso Duarte 2012). A Vida Inútil de José Homem (prémio Agustina Bessa-Luís 2012) revelou-se o primeiro romance e As Falsas Memórias de Manoel Luz a esperada continuidade.

O que te levou a escrever esta história sobre um homem dos livros?

Por todo o encanto da coisa que é um livro (e o processo delicado de fabrico): uma quantidade mínima de gramas para um universo inteiro que se estende por cada página. E depois todo o movimento revolucionário dos livros, a censura em tempos ditatoriais, a publicação clandestina e anónima, os empréstimos em segredo. A escrita (e a leitura) obriga a suspender o corrimento da vida, a entrar num mundo paralelo e a pensar sobre novos posicionamentos e formatos de existência. Com uma aparência tão inofensiva, o livro pode muito. Salvar. Apontar. Incomodar. Arruinar. O livro só é coisa nenhuma se estiver fechado.

Tens ganho, ao longo do tempo, alguns prémios. Estas conquistas são o alento necessário para continuar a escrever?

Temos um palmo de caminhos prováveis diante das mesmas circunstâncias: por ser uma rapariga muito enfiada no seu mundo privado (numa terra mais a norte) e sem outras cabeças para afinar ideias sobre o verbo escrever, os prémios acabaram por ser os conversadores em falta e os incentivadores da continuidade. Mas o estímulo principal é a afeição pela escrita (e pela leitura): no meu caso, pela possibilidade de levantar os pés da realidade e, num tempo de viagem e reflexão, entrar por territórios íntimos, amplos e inventivos. Espantar-me. Transformar-me. Perder-me.

Como concilias a psicologia, a escrita, os bichos e o artesanato?

Com uma quantidade certa de loucura (risos). Ter muitos ofícios que nos entusiasmam obriga a usar o tempo com mais precisão: um minuto pode bem servir para alinhavar um cenário para um novo capítulo, escrever um texto para incentivar a adoção responsável de um animal do abrigo ou coser um botão no corpo de um bicho de pano (projeto doutrolugar). Acredito que a cabeça apenas suporta este entrelaçamento de exercícios por todos me levarem a mundos alternativos, num exercício criativo e humano. Poder ajudar o outro (e este outro pode estender-se aos homens, animais e coisas) é um verbo principal no meu projeto de vida: não tenho a mais abreviada dúvida de que é nesta relação com o outro, num intercâmbio afetivo, que encontramos os possíveis milagres.

Escrever poesia é uma necessidade de fazer uma pausa na prosa?

Escrever (leia-se tentar escrever) poesia é um ato breve de contemplação, um impulso emotivo, uma apreciação violenta. É muito raro falar dos poemas que vou acumulando em gavetas (agora, digitais), como se um procedimento mais íntimo, uma descarga afetiva entre paredes, um grito dentro do corpo.

marleneferraz1bJá te aconteceu confundir ficção com realidade, personagens dos livros com pessoas? Se sim, de que forma é que isso te equilibra?

Pode parecer um estado de maior estranheza mas tanto carrego personagens na cabeça como vejo nas pessoas da rua prováveis novas personagens. É uma preciosidade quando acontece: uma criatura humana que me encanta tanto a ponto de ter vontade de escrever (leia-se inventar) sobre ela. Encontro muito um senhor homem, (provavelmente) empregado numa agência funerária e que poderia ser o nosso poeta: quando nos cruzamos na rua estreita, nunca poderá ele suspeitar que a mulher do outro lado está (inevitavelmente) a soletrar baixinho “o meu secreto Fernando Pessoa”. E poderia (quase) jurar que o José Homem, uma das figuras principais do livro publicado em 2013, vive do outro lado da minha rua. Assim, o mundo até fica mais suportável.

Quem nasceu primeiro: a escritora ou a leitora? Que autores tens como referência?

Levantei-me menina numa casa apenas com uma mão de livros mas a vontade por ler estava (inexplicavelmente) instalada em mim: com o tempo, descobri a verdadeira casa dos livros (leia-se biblioteca municipal) e um infinito universo literário se ampliou diante de mim. Até hoje. Ainda celebro a ida à (nova) biblioteca da cidade para eleger, com uma dose recomendável de acaso, as futuras leituras. Os escreventes vão aparecendo, como as nuvens. Os nossos, claro. E os nórdicos, os africanos, os americanos. Gosto de acreditar que chegam no tempo certo. José Saramago. Gonçalo M. Tavares. António Lobo Antunes. Manuel António Pina. Herberto Helder. Herta Muller. Iréne Némirovsky. Franz Kafka. Allan Poe. Dostoiévski. Tolstói. Tchékhov. Gogol. Mia Couto. Vargas Llosa. Não é uma lista de referência, mais um roteiro de descoberta. Espero ter mais uns braços de tempo para ampliar o número de encontros. Imagino que sem um corpo leitor não haveria mãos escreventes.

Qual a tua visão da leitura em Portugal?

Acredito que se leia muito mais do que na minha meninice. Não me lembro de ter recebido um livro, muito menos de ir a uma feira livreira ou poder visitar uma livraria a um palmo de casa. A biblioteca municipal ficava na cidade e tornou-se apenas uma realidade quando me emancipei pelos transportes públicos. Nenhum outro amigo se ajuntava nesta viagem para trazer livros nas duas mãos: era sempre uma celebração solitária. Hoje, temos um bafo criativo incrível no livro infantil. E uma carga de novidades literárias a cada estação. Provavelmente, nunca se publicou tanto. Os números parecem avisar menos livros vendidos e menos leitores mas nunca me terei cruzado com tantas cabeças que gostam de se embrenhar na matéria dos livros como agora.

A angústia do escritor e da sua próxima obra é real? Ou julgas que é uma criação feita para alimentar um certo mito que rodeia quem escreve?

Para a minha pessoa, a maior angústia será a do tempo finito (e exageradamente ocupado). Podemos falar da vida (por sermos criaturas temporárias) mas também do mais simples dia (que avança pelas curtas vinte e quatro horas mesmo quando precisarias de duplicar a duração). Para mim, o verbo escrever precisa de silêncio (leia-se reflexão) e, com as tarefas multiplicadas da vida mais comum, nem sempre podemos criar esse intervalo de suspensão. Temos responsabilidades primeiras: regar as plantas do átrio, apreciar as primeiras chuvas ou abraçar a criatura vulnerável. Apesar da principalidade da escrita na minha vida, obrigo-me sempre a dar prioridade ao elo que tenho com os outros.

O que dizes aos leitores quando te perguntam que parte(s) do que escreves és tu?

A mais minúscula cena escrita tem tudo de mim. Na revisão dos textos (primeira, segunda, terceira, décima), acabo por perceber que o mais privado está por trás de cada personagem ou até acontecimento da narrativa. Somos depósitos de memórias: como poderia eu (nós) criar criaturas e mundos alternativos? A matéria bruta é tudo o que tenho cá dentro: as feridas, os desapontamentos, os espantos, as raivas, as alegrias, mas também os livros, os filmes, as notícias, os documentários e um sopro de fantasia.

Fotos: DR