
A música e a pintura são as grandes paixões de Joana Lobo Anta. A artista tem tido sucesso nas duas actividades, mas a sua maior aposta é o jazz. O percurso na música já originou convites para actuar fora de Portugal. Na entrevista deixa um conselho aos mais novos para colocarem os pés na terra, mas também para não desistirem daquilo em que acreditam.

Como nasceu o gosto pela pintura e música?
Com três anos decidi que queria ser artista plástica e aos 16 comecei a cantar. Nessa altura ainda duvidava das minhas capacidades, mas fui aperfeiçoando a minha voz. Canto dois estilos diferentes. Tenho um grupo que vai do Jazz ao Blues, mas também música electrónica.
Em que locais costuma actuar?
A minha carreira tem evoluído com pés firmes e humildes. Costumo cantar em eventos privados, hotéis de luxo, bares na área da grande Lisboa.
Neste momento qual é a actividade que dedica mais tempo?
No Verão aposto mais na música por questões logísticas. A partir dessa altura até ao Natal o ritmo é sempre mais acelerado. Neste momento não dedico muito tempo à pintura.
O Jazz tem tido receptividade por parte do público?
As pessoas são bastante receptivas em relação ao som porque gostam de Jazz. Não é o estilo mais comum na população portuguesa, mas é o que se adequa mais à minha voz.
Gostava de cantar fora de Portugal?
Estou a trabalhar em contactos para actuar lá fora. Os sítios onde gostaria de cantar são Estados Unidos, Dubai e África do Sul.
Como analista o estado da cultura no nosso país?
As pessoas queixam-se que há falta de cultura, mas existe pouca iniciativa para procurar. Há cada vez mais artistas, ideias, sendo que não é difícil de lhes aceder. O problema é que não temos um ministério activo e não haver verbas.
Existem condições para ser artista em Portugal?
Há muito pouco apoio, mesmo por parte dos privados.
Quais são as características necessárias para ser boa pintora e cantora?
Trabalhar e estudar. Na música aprendi com as bandas e os músicos que fui ouvindo. Na pintura e na música é necessário treinar e não ter medo de fracassar, além de ter uma boa cultura visual e auditiva.
O talento também é imprescindível?
Também é preciso ter talento. Isso significa meter alma e paixão naquilo que se faz porque o resto vai sendo delapidado.
Como avalia a música em Portugal?
Está cada vez melhor nos diversos estilos. Tem bastante qualidade.
Costuma cantar em português ou inglês?
O inglês é a forma de que gosto mais de me exprimir porque desde pequenina sempre me habituei a ouvir música estrangeira.
Que conselhos dá aos mais jovens que se iniciam nestas duas áreas?
Tem a ver com a forma como nos apresentamos. Escolher as músicas que mais se adaptam ao registo vocal. A imagem é importante. Ter um bom vídeo, logotipo. É preciso bater as portas. Nunca desvalorizar os sítios onde actuamos porque pode nascer um novo contacto rumo ao próximo passo. Na pintura aprender novas técnicas, soltar mais o traço. Os jovens devem fazer aquilo que entenderem porque nunca se cai. No entanto, devem ter sempre os pés assentes na terra e não pensar que alguém lhes vai levar o barco a bom porto. Têm de remar muito para conseguirem os objectivos.
Prefere tratar da sua carreira ou ter uma equipa?
Eu sou manager e agente. Trato dos contactos com os clientes, da facturação, dos músicos que vão trabalhar comigo, da imagem gráfica e também faço os cartazes. Tenho agentes que trabalham comigo, mas não exclusivamente. Faço grande parte dos contactos.
Qual a sua opinião relativamente aos concursos televisivos?
Quando participei no Factor X percebi que estamos perante um escrutínio muito pesado. As imagens são manipuladas. Há promessas em relação ao que irão fazer com os artistas. Não vejo a máquina operar da mesma forma que acontece no Reino Unido ou nos Estados Unidos.
Acha que os grandes nomes da música portuguesa vão deixar de ter sucesso?
Não. Isto é um círculo onde se entra e sai rapidamente. O público está mais receptível à música nacional porque o género de som das bandas nacionais está mais diversificado. Hoje em dia temos grandes produções.
Um cantor deve apostar em vários géneros?
Um músico deve tornar-se fiel a um registo. Um bom exemplo é a Ana Moura. No entanto, passei por vários estilos vocais. Não consigo ser sempre a mesma coisa.
Qual é o seu registo na pintura?
Não consigo ser abstracta. Adoro a figura humana. É um estilo associado à pop-art.
Qual das duas actividades exige mais perfeccionismo?
A pintura porque gosto das coisas feitas com rigor.
Em qual costuma ter mais ideias?
Na pintura gosto de experimentar mais coisas. Se pudesse ficava durante várias horas a pintar. A música também tem o efeito de improvisar, em particular os Live Act de música electrónica. Costumam sair momentos inspiradores. A música é mais fácil porque sai tudo de imediato.
Uma artista consegue viver exclusivamente do seu trabalho?
É preciso ter nervos de aço para viver da arte. Não é fácil porque se trata de uma profissão instável. Grande parte do meu tempo é absorvida pelas minhas actividades. Tudo vale a pena porque o mundo precisa de artistas. Quem quiser ser artista tem de se informar junto das pessoas certas e ter uma atitude inteligente.
Fotos: 1) Paulo Segadães 2) Maria Rita