Rita Mascarenhas Cabral (CEO da Tradeizi) em entrevista

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De acordo com dados de 2013, as mulheres criam 35% dos negócios em Portugal. Os dados são do Global Entrepreneurship Monitor 2013 e colocam Portugal acima da média europeia (33,3%).

Rita Cabral, 24 anos, é uma dessas mulheres que ousaram sair da sua zona de conforto e criar a sua própria Empresa. Natural do Porto, estudante de gestão pela Universidade Católica de Lisboa, é a CEO e co-founder da Tradeizi, uma startup que pretende aproximar compradores e vendedores, em diferentes geografias, através de uma inovadora plataforma B2B.

A Excelência Portugal visitou a Tradeizi e falou com a sua CEO.

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O nosso objectivo é poder conciliar as vantagens dos serviços electrónicos com o atendimento personalizado

Como surgiu a ideia de negócio?

A ideia que depois dá origem à Tradeizi surge de um amigo meu, que quando volta de uma feira na China, percebe que não havia nenhum local onde em tempo real pudesse verificar que empresas compradoras existiam. No fundo seria uma espécie de “facebook para empresas”.

O modelo inicial de negócio sofreu alterações? Contaram com o apoio de algum  programa de  Aceleração da Startups?

O modelo inicial sofreu imensas alterações, aliás ainda agora sofre alterações. Cada vez que falamos com potenciais clientes surgem novas ideias. Talvez por acreditar que o cliente tem sempre razão, e que por essa razão só devemos ter “amor” ao nosso objetivo e visão, tudo o resto tem de se adaptar à realidade, e assim, o nosso modelo de negócios e até mesmo o serviço que oferecemos, vai sendo alterado.

Claro que estas alterações e mentalidade só surgiram com o tempo, mas posso dizer que foi graças ao programa da Beta-i o “Beta-start” que foi possível esta evolução mais rápida. Nestes programas, mais do que modelos de negócio, ensinam que não devemos ser obstinados, acreditar é uma coisa, teimosia é outra. Para mim o truque está em “ir”, ou seja, falar com o máximo de pessoas possível e fazer todas as perguntas que imaginemos. Sim, vamos ter respostas que não queríamos ouvir, mas são essas mesmo que nos ajudam a evoluir.

Como obtiveram financiamento e como está distribuído o capital da sociedade ? 


Através de um dos clássicos 3F’s – “family”. Os meus pais financiaram-me e eu entrei com o capital social. Também por essa razão tenho a maioria do capital. O resto do capital está distribuído pelo Miguel Barbosa Viana e pela etNos. A etNos (www.etnos.co) é a empresa que desenvolve e faz o design da plataforma.

Quem é o cliente-alvo da Tradeizi?


O cliente-alvo são as pequenas empresas da indústria do vinho, sejam eles produtores, distribuidores, importadores, etc. No fundo são todas as empresas que querem vender e comprar vinho.

Quais as geografias onde maioritariamente procuram parceiros comerciais?


Estamos a dividir em duas partes, os produtores e os compradores. Relativamente aos produtores, queremos ajudar sobretudo os portugueses e os do Novo Mundo (Chile, Argentina, África do Sul, etc.). E estamos a procurar compradores de países em expansão, por exemplo China, Angola, Rússia.

Como funciona a plataforma? Que opções existem para o cliente e que serviços oferecem?

A plataforma funciona através de um sistema de subscrição mensal. O utilizador escolhe, dependendo das funcionalidades e o valor que pretende pagar, o pacote que mais se adequa à sua empresa. Claro que disponibilizamos uma modalidade gratuita para as empresas poderem testar algumas funcionalidades.

Oferecemos três tipos de serviços: um sistema de matchmaking, que de acordo com as características do produtor, seja o seu catálogo, quantidades produzidas, qualidade do produto e para onde pretende exportar, recomenda potenciais empresas compradoras;

Disponibiliza um guia de exportação, onde é feita uma análise dos principais procedimentos relacionados com o país de destino, seja a realidade económica com as oportunidades e obstáculos que a economia apresenta, os certificados e taxas envolvidas para exportar, contactos relevantes e outras informações importantes;

E ainda, de forma a optimizar a comunicação das marcas, desenvolvemos um business network onde as empresas podem partilhar informação para o mercado desejado, em tempo real. Quando ganham um prémio no seu produto, vão estar presentes numa feira ou mesmo quando têm um novo produto no catálogo.

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o facto de nós sermos focados numa única indústria permite um acompanhamento e informação muito mais personalizada

O que distingue a Tradeizi de plataformas de terceiros, nomeadamente as ligadas ao sector bancário?

Confesso que não conheço bem as plataformas do sector bancário, mas o facto de nós sermos focados numa única indústria permite um acompanhamento e informação muito mais personalizada. Claro que nossas funcionalidades também são bastante diferentes das plataformas de e-commerce que existem no mercado. O nosso sistema de matching permite conhecer em tempo real quais os compradores mais indicados para cada produtor, e vice-versa.

A Tradeizi tem dado grande enfoque ao sector vinícola. A especialização nesta área é uma objectivo prioritário ou pretendem abordar o mercado de uma forma universal?

A especialização no sector vinícola neste momento é um objectivo prioritário. A nossa estratégia passa pelo profundo conhecimento do sector e onde os nossos serviços possam de facto fazer a diferença, e esta é uma indústria que demonstra poder beneficiar da Tradeizi.

A nossa visão a longo prazo é chegar a outras indústrias, queremos ajudar as pequenas empresas, e embora as realidades e dificuldades que cada indústria atravessa possam parecer muito diferentes, na verdade se olharmos num sentido mais macro é fácil identificar as semelhanças. Por esta razão, acreditamos poder crescer para mais sectores com alguma facilidade.

Quantas pessoas estão envolvidas no projecto e em que áreas?

Neste momento somos 5 pessoas, embora só 3 a tempo inteiro. Somos dois da área de gestão, responsáveis por todo o planeamento estratégico, de comunicação e área comercial; dois engenheiros informáticos, que desenvolvem tudo o que tenha a ver com a plataforma, website e outros desafios informáticos; e um designer, responsável por pôr as coisas apelativas.

Além dos serviços prestados de forma electrónica, a Tradeizi fornece ou pretende vir a disponibilizar algum serviço directo junto dos potenciais compradores ou fornecedores?

O nosso objectivo é poder conciliar as vantagens dos serviços electrónicos com o atendimento personalizado. Acreditamos ser crucial que as empresas vejam uma cara e que confiem em nós para os diversos desafios. Aliás, só através do contacto directo nos é possível melhorar e adaptar a plataforma à realidade.

Claro que o serviço informático tem muitas vantagens, não só permite ao cliente obter a informação com mais rapidez, como também nos permite escalar o serviço e poder alcançar mais empresas.

A Tradeizi tem planos de expansão/internacionalização?

Claro que sim.

Estamos a começar com produtores portugueses, mas já temos contactos de muitas outras empresas interessadas, em países como Chile, Argentina, EUA, Brasil, Austrália, entre outros. Estes contactos são tanto do lado do produtor como importadores/exportadores.

shair – uma plataforma que revolucionou o negócio da arte

Shair3Mariana Gomes, 24 anos, é a CEO da shair, que desenvolveu a sua ideia inovadora e depois apresentou-a ao grupo bracarense dst. Embora com formação na área da Gestão e da Comunicação, Mariana esteve sempre envolvida no meio artístico.
A shair é uma plataforma online que dá visibilidade aos trabalhos dos novos artistas. Mas a shair não fica por aqui, a startup bracarense expõe fisicamente obras e possui acordos com galerias internacionais.

A Excelência Portugal visitou a shair e falou com Mariana Gomes.

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notei que o setor artístico estava ainda muito desligado do mundo virtual, e com os meios que temos hoje em dia para nos apoiarem numa decisão de compra online isto não fazia sentido

Com uma formação fora das artes, como lhe surgiu esta ideia de negócio?

Faz algum sentido que muitas ideias de negócio, aplicadas a determinado setor, tenham nascido a partir de pessoas com formação em áreas que à partida não têm nada a ver com esse setor. Isto porque são muitos os processos que podem ser replicados/adaptados de uma área de negócio para outra que até ao momento não tinham sido detectados como tal. No meu caso foi precisamente isto que aconteceu – notei que o setor artístico estava ainda muito desligado do mundo virtual, e com os meios que temos hoje em dia para nos apoiarem numa decisão de compra online isto não fazia sentido. O facto de ter muitos conhecidos ligados ao mundo das artes, maioritariamente artistas, também ajudou, pois notei que havia de facto uma necessidade de divulgação e comercialização dos seus trabalhos para além do circuito tradicional das galerias de arte, ainda muito elitista na sua seleção.

A Mariana foi a única mulher entre sete homens que representaram o programa Aceleração da StartUp Braga em Londres. Que papel teve o programa no desenvolvimento do vosso modelo de negócio?

O papel da StartUp Braga foi fundamental na redefinição do nosso modelo de negócio. Quando fomos selecionados para fazer parte deste programa, estávamos numa fase em que já existíamos no mercado e já tínhamos vendas, mas ainda nos faltava uma visão global para o futuro do projeto. Assim, foi a partir desta visão crítica que nasceu a ideia de incluirmos o segmento das galerias de arte na plataforma, assim como outras fontes de receita associadas à utilização da plataforma, muito para além da simples comissão de vendas.

Como funciona a plataforma? Como é que um artista submete as suas obras?

A plataforma é muito simples e fácil de utilizar. Para o artista, basta registar-se, criar um perfil e submeter as suas obras para aprovação. Após este processo de pré-seleção, as obras ficam disponíveis para venda e podem ser selecionadas para um dos nossos leilões especiais, normalmente associados a uma das exposições físicas. As galerias parceiras têm um processo de submissão semelhante, sendo que nestes casos aprovamos o perfil previamente, e a partir daí todas as obras que submetem ficam automaticamente disponíveis. Estas entidades também podem criar leilões especiais isolados dos que são promovidos por nós, associados por exemplo às suas próprias exposições. Para o apreciador de arte, basta explorar o website (temos imensos filtros de pesquisa que ajudam neste processo!) encontrar a sua obra favorita e proceder ao seu pagamento diretamente na plataforma. O valor que é apresentado ao cliente inclui portes de envio, que são calculados já com o seguro de transporte e tendo em conta as dimensões da obra e a morada do destinatário. Temos também uma série de funcionalidades que ajudam na tomada de decisão, como o nosso serviço de curadoria, onde fazemos uma seleção de obras de acordo com as necessidades do cliente, ou a possibilidade de solicitar arte por encomenda, onde o cliente pode pedir a um artista específico uma obra com determinadas características.

Que papel tem a galeria física no negócio? Que obras são seleccionadas para exposição e de que forma?

A galeria emergentes dst desempenha um papel fundamental na integração com o mundo real, que no fundo é aquilo que a shair tem de mais inovador. Já existiam plataformas de divulgação e venda de arte online, mas nenhuma que permitisse, pelo menos de forma tão aberta, que o artista se candidatasse com essas mesmas obras a um lugar real de exposição. Fazemos exposições de 2 em 2 meses, e selecionamos as obras mais votadas do website conjuntamente com uma “repescagem” da autoria de um especialista convidado por nós. As exposições físicas são a combinação destas duas formas de seleção, e temos normalmente espaço para cerca de 70 obras na galeria emergentes dst. Também já fizemos exposições noutros locais, não só em Braga, e o processo de seleção é semelhante.

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Já existem acordos com galerias internacionais. Têm permitido a venda de obras de artistas nacionais?

A integração das galerias internacionais, para já, é mais uma forma de aumentarmos a nossa oferta, permitindo a apreciadores de arte de toda a Europa o acesso a obras às quais, de outra forma, não conseguiriam aceder. Obviamente que os próprios clientes dessas galerias poderão interessar-se em explorar a oferta da shair, incluindo as obras de artistas portugueses, que neste momento representam a maioria dos trabalhos que temos disponíveis.

Quantas pessoas estão envolvidas no projecto e em que áreas?

Neste momento, a equipa é constituída por 4 pessoas, com formação na área do design, marketing, comunicação e curadoria. A plataforma foi desenvolvida pela innovation point, uma das empresas na área de Ventures do grupo dst – que até foi onde iniciei o meu percurso neste grupo empresarial, na altura através de estágio.

Que outros serviços presta a shair e que eventos organiza?

Para além dos serviços que referi acima, que no fundo são formas de apoiarmos a decisão de compra online, temos também os cheques-prenda para ajudar os mais indecisos a oferecerem um presente original. Aos nossos artistas e galerias parceiras, damos também a possibilidade de subscreverem uma conta premium, que lhes permite destacarem as suas obras nas áreas da plataforma para este efeito, assim como acederem a estatísticas relativas aos seus visitantes, à popularidade das obras que constituem o seu portefólio, entre outros dados pertinentes para quem utiliza a plataforma como ferramenta de comercialização. É também pertinente referir que, no caso de venda, somos nós que tratamos de toda a logística associada ao processo de transporte, sendo que o artista ou a galeria só têm de se preocupar com a embalagem – e até fizemos um vídeo para ajudar neste processo! Quanto a eventos, tentamos promover outras formas de expressão artísticas nas inaugurações das nossas exposições, onde já tivemos concertos, performances, entre muitas outras iniciativas, sempre inseridas no âmbito artístico/ cultural.

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O negócio já é auto-sustentável? Quais são as fontes de receita da shair?

O negócio está perto de ser auto-sustentável, e as nossas fontes de receita passam pela comissão de 30% na venda de obras de artistas, sendo que no caso das galerias já temos uma percentagem de apenas 10%. As outras fontes de receita que nasceram sobretudo após o programa de aceleração da Startup Braga consistem na subscrição das contas premium por parte dos artistas e das galerias parceiras, e na adesão ao serviço de curadoria, ambas já referidas acima.

A shair pretende em termos físicos ficar por Braga, ou tem planos de expansão?

Temos planos de expansão para o Reino Unido, onde já abrimos atividade. Apesar de já termos algumas galerias internacionais inscritas na plataforma, o potencial de crescimento através de uma atuação presencial neste mercado é imenso, e vamos arrancar com este plano a partir de Setembro, através da presença em feiras de arte, por exemplo.

 

Fotos: DR

Raquel Ochoa – uma escritora invulgar (entrevista)

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Raquel Ochoa nasceu em 1980, em Lisboa, Licenciou-se em Direito, mas dedicou-se à literatura.

Em 2008 publicou duas obras, “O Vento dos Outros” – uma crónica de viagens à América do Sul e “Bana – Uma vida a cantar Cabo Verde”, a biografia do cantor. Em 2009 Raquel Ochoa foi vencedora do Prémio Agustina Bessa-Luís com o romance “A Casa-Comboio”, trazendo ao grande público a saga de uma família indo-portuguesa originária de Damão e a epopeia da desconhecida ou ignorada Índia Portuguesa, traduzido e publicado em Itália.

Em 2011 lançou a sua quarta obra, “A Infanta Rebelde”, a biografia da Infanta D. Maria Adelaide de Bragança, condecorada com a Ordem de Mérito Civil aos cem anos de idade. O seu segundo romance, “Sem Fim à Vista – A Viagem” chegou a público em Setembro de 2012 e relata a aventura de um personagem com graves problemas cardíacos que decide viajar até onde a resistência o permita.

Em Maio de 2014 publica “Mar Humano”, um romance histórico ao longo do século XX reflectindo sobre temas como a liberdade de imprensa e o jornalismo que se praticou e pratica em Portugal, misturando de forma original temas tão díspares como a longevidade da vida humana e o impacto da ciência na evolução da consciência.

Este ano é a vez de “As Noivas do Sultão”, um romance fascinante que tem por base um incidente diplomático entre Portugal e Marrocos.

Raquel Ochoa é formadora de escrita criativa e ministra vários cursos em Portugal e no estrangeiro.

A Excelência Portugal quis conhecer melhor esta invulgar escritora que se tem afirmado como um dos grandes nomes da literatura nacional da actualidade e entrevistou-a.Ochoa1a

Como nasceu a paixão pela escrita e onde se encaixa a licenciatura em Direito?

Escrevi a partir dos treze anos, mas a vontade de escrever e publicar aconteceu aos vinte e cinco, depois de uma grande aventura pela América do Sul que, em jeito de tratado da memória, decidi descrever. Acabou por se transformar n` “O Vento dos Outros”. O Direito foi apenas o curso em que me licenciei, nunca o usei directamente para nada.

A História, nomeadamente a nacional, sempre a seduziu? Alguma vez imaginou que poderia vir a “brincar” com ela?

Sempre, a nossa história é cheia de mitos, altos e baixos, grandes conquistas, grandes derrotas. O maior mito que podemos encontrar é a própria História. Porque foi escrita por homens com um contexto e um objectivo. A própria leitura que vamos fazendo dela vai-se modificando com a mudança das mentalidades.

Desde muito nova que leio Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós. O meu pai repetia aquele chavão constantemente: “Se não leres os clássicos portugueses não sabes nada.”

Daí, a ter passado a escrever estórias onde romanceio a História, foi um passo muito reflectido. O meu primeiro romance histórico foi o meu terceiro livro. Só aí me sentia preparada para tão grande empreendimento.

Há uma Raquel cronista de viagens, uma biógrafa e uma romancista? Qual delas se impõe mais actualmente?

Sou as três e tento progredir e fazer o melhor possível em cada género literário. Mas claramente a romancista agora fala mais alto e manda as outras de férias sempre que consegue.

Em 2009 venceu o Prémio Literário Revelação Augustina-Bessa Luís. Que impacto teve esta distinção na sua carreira ?

Ser premiada aos vinte e nove anos é um privilégio imenso. Dá força e responsabilidade. “A Casa-Comboio” foi um livro que escrevi sobre enormes sacrifícios numa fase profissional e pessoal bastante pesada. O prémio foi o alívio, a libertação.

Os seus romances têm uma base histórica verídica. Sente-se parte historiadora e parte escritora?

Reinvento a história do modo mais credível possível, mas está tudo dito: é ficção. Os meus livros baseiam-se quase sempre em histórias verídicas mas não hesito em transformar a trama agradável para que o leitor encontre evasão ou sonho naquele romance. Sou rigorosa mas isso não me torna historiadora.

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O último livro revela uma história guardada durante 200 anos. Como se acende “o rastilho” do seu processo criativo?

222 anos mais precisamente! Tento ter sempre activo o meu faro para as boas histórias e quando as encontro esse rastilho já se acendeu inconscientemente, as personagens começam a delinear-se e a ter vontades, medos, vícios. Tento, acima de tudo, reconhecer o potencial das histórias. Normalmente avalio bem.

Voltando à nossa História, mas a um período mais recente, como interagiria com as últimas décadas e nomeadamente com os anos mais recentes? Não sente vontade de intervir através da escrita?

As últimas duas décadas foram as décadas em que me tornei mulher, uma vez que tenho 35 anos, ou seja, foi o período em que comecei a ter opinião, sentido crítico. Comecei a viajar incessantemente, a conhecer o mundo e a compará-lo com este nosso modo de estar português.

Gosto de Portugal. Gosto muito do meu país. Por mais que não tenhamos uma estratégia a longo prazo, por mais que a desresponsabilização da sociedade e dos agentes do poder seja evidente, eu trato de assumir as minhas. E intervenho com bastante afinco. Os meus livros são interventivos, e trazem uma certa interpretação da história que acho urgente. Entre outros, leia-se “Mar Humano”, há um profundo alerta para o que nos estamos a tornar. Acho urgente a geração pós-25 de Abril ter um papel activo em todas as áreas da sociedade.

Viajou por geografias carregadas de marcas da presença portuguesa. Como é Portugal visto nessas paragens?

De forma geral somos bem vistos em todo o lado. Claro que cada caso tem as suas particularidades, se falamos de ex-colónias já é mais complexo e delicado, mas somos sempre bem-vindos. Uma coisa é certa, neste mundo pós-11 de Setembro, enquanto viajante, é muito mais confortável ser português que americano ou inglês.

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Não obstante as dificuldades que atravessamos, somos um país de Excelência?

Falta muito para chegar à Excelência embora Portugal tenha tanta gente desse nível. Acho que somos um país de “boa-vontade”. Mas falta um projecto nacional, um debate nacional, um objectivo comum. Em que país queremos que os nossos filhos cresçam? Eu quero que seja neste, mas muito diferente deste (para melhor).

Fora da escrita quem é a Raquel Ochoa ? que outras actividades e hobbies tem (ouvi falar na prática de bodyboard)? que sonhos e projectos acalenta ?

Pratico bodyboard há 14 anos e yoga há 9. São grandes janelas para a cabeça, são uma forma de auto-superação que me ajuda muito na escrita, porque como explica Murakami naquela analogia entre o maratonista e o escritor, escrever necessita de um corpo e uma mente forte.

Escrever torna-se uma tarefa penosa quando nos habituamos a desistir, quando desistir passa a ser a regra. Estas actividades são extremas e fazem-nos lidar com a persistência como se fossemos irmãs, eu e ela, unha e carne.

Tenho tantos sonhos como dias de vida, e um deles é conhecer o mundo todo.

 

Fotos: Fernando Dinis

B.Kimo – Os Kimonos de Joana Sousa

 

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Joana Sousa , natural de Oeiras e com 24 anos de idade, é a criadora e rosto da B.Kimo, uma marca de Kimonos. Mas enganem-se os que a possam associar imediatamente às artes marciais, estes Kimonos são peças de vestuário/moda.

A Excelência Portugal falou com a sua criadora e ficou a conhecer melhor este projecto.

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Sinto enorme felicidade de poder ter tornado possível um projecto que sempre esteve dentro de mim, mesmo que eu não soubesse.

Quando começaste a sentir o apelo da moda ?

Desde miúda que ia das compras directa à costureira, para alterar determinado pormenor das peças que ia comprando, olhando para trás percebo que o bichinho da moda e da costura sempre fez parte do meu ser, mas estava longe de saber que ele estava a crescer e que no futuro só me sentiria plenamente feliz deixando-o eclodir.

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fui fazendo tops, calções, tudo o que me vinha à cabeça que eu quisesse vestir fazia-o eu em vez de ir comprar, até porque muitas vezes não havia o que eu tinha idealizado nas lojas

O teu percurso académico não apontava neste sentido. Como se deu a inversão ?

Tirei uma licenciatura em Sociologia no ISCTE e posteriormente uma pós graduação em Comunicação, também no ISCTE, no entanto sentia-me perdida e sem saber bem o que quereria fazer com esta formação. Como sempre fui muito senhora do meu nariz fui fazendo trabalhos para não ter que pedir dinheiro aos meus pais, até ter ido parar a uma loja de patchwork, que uma tia minha abriu, onde trabalhava a minha irmã. Conviver com elas e com os tecidos diariamente despertou em mim o tal bichinho (da moda/costura) adormecido até então. Comecei por fazer coisas pequenas (bolsinhas e bolsinhas – quem me conhece sabe que tenho bolsinhas para tudo) até começar a costurar melhor. Daí em diante, fui fazendo tops, calções, tudo o que me vinha à cabeça que eu quisesse vestir fazia-o eu em vez de ir comprar, até porque muitas vezes não havia o que eu tinha idealizado nas lojas (ainda hoje é assim – raramente vou às compras aos centros comerciais – vou às lojas de tecidos).

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Como surge então a B.Kimo?

Conforme ia fazendo as peças, ia fotografando e pondo no Facebook e no Instagram e à medida que ia postando as fotografias comecei a receber pedidos de amigas para fazer peças iguais para elas, a peça que teve mais pedidos foi um Kimono, depois de algumas encomendas pensei, porque não criar uma marca? E foi neste momento que nasceu a B.Kimo.

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Porquê B-Kimo?

B, do verbo To Be, e Kimo, diminutivo de Kimono – que ao contrário do que muita gente pensa, quando digo que faço Kimonos, não existem apenas Kimonos para Artes Marciais. Os meus Kimonos são uma peça fundamental no guarda-roupa de qualquer mulher porque dão para todas as ocasiões, fazem a toilette e eu gosto muito de ver as mulheres a arranjarem-se cada vez mais e melhor. Claro que fico muito mais babada se o Kimono fizer parte de alguma das minhas colecções, sinto-me útil!

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Já conto com três colecções e todas elas correram/correm bem (a última ainda está disponível na página de Facebook da B.Kimo).

Quantas colecções já desenhaste? Quem colaborou no projecto?

Já conto com três colecções e todas elas correram/correm bem (a última ainda está disponível na página de Facebook da B.Kimo). Sempre idealizei as peças e as fiz, era eu, os tecidos, o tapete de corte e o cortador e a máquina de costura, mas nem tudo dá para fazer sozinha por isso contei desde a primeira colecção com o meu grupo de amigas a servir de modelos para as minhas peças, com o meu primo para fotografá-las e na última colecção, com a minha irmã para pentear as modelos enquanto eu coordenava, maquilhava e fotografava também. Só tenho a agradecer por tudo isto estar a correr tão bem.

Que outros projectos tem a Joana Sousa em mente?

Para complementar a minha formação inicial e poder continuar com este ou outros projectos que eventualmente surjam vou inscrever-me este ano no curso de Design de Moda da Faculdade de Arquitectura.

Fotos: Francisco Silva

Ricardo Diniz – Ricardo-terra e Ricardo-mar (entrevista)

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Foi de facto uma entrevista, fui preparada para uma, mas no fundo o que tive foi uma conversa com o Ricardo, em que ele se deu a conhecer de uma forma tão sincera e brutal e em condições tão tranquilas que o título deveria ser “Em conversa com o Ricardo”. Depois de uma viagem de bicicleta e cacilheiro, chegou ao Terreiro do Paço, um dos seus sítios preferidos em Lisboa, mas nem fomos para nenhuma esplanada, caminhámos mais um pouco e escolhemos uma sombra no renovado Cais das Naus – por esta altura já ele me tinha pedido para esquecer formalidades e tratá-lo por tu – coisa que eu só consegui no final, já estava programada para a terceira pessoa. Decidi retratar esta conversa da forma mais fiel possível, tive de encurtá-la infelizmente, mas espero que quem quer que a leia consiga ter uma imagem minimamente aproximada da pessoa que é o Ricardo, não só do seu percurso e dos mil e um projetos em que está envolvido, mas da sua essência. 10305421_10152768681667506_2101443487589819909_n

Olá Ricardo, em primeiro lugar queria-lhe agradecer a sua disponibilidade para esta entrevista, pois calculo que o Ricardo-terra seja uma pessoa bastante ocupada, no meio de todos os projetos dos quais faz parte e na preparação e busca de patrocínios e apoios para as viagens do Ricardo-mar. Encontrei esta dualidade sua característica numa entrevista passada e achei-a curiosa, ainda vamos falar sobre isso melhor.

Mas agora, vamos começar talvez por falar sobre o seu percurso inicial até à decisão de se tornar um velejador solitário sempre com o intuito de “comunicar portugalidade”. O Ricardo aos 8 anos foi viver para Inglaterra, foram as saudades que o levaram a reconhecer tanto valor em Portugal?

Então antes de mais, e já que estamos a gravar, muito obrigada pelo convite, e parabéns pelo trabalho de casa, surpreendeste-me, porque essa coisa do Ricardo-mar e do Ricardo-terra, não faço ideia onde é que a encontraste mas são palavras minhas e é verdade, é mesmo assim.

Fui para Inglaterra com 5 anos, no entanto aos 8 foi o momento em que decidi o que fazer da vida. Portanto, crescer fora de Portugal, a primeira escola ser fora de Portugal, a primeira língua que eu aprendo a sério não ser a minha, mas sendo português e tendo cá a minha família, gerou em mim uma eterna saudade que ainda hoje com 38 anos não se vai embora. É uma eterna saudade, eu estou em Lisboa e sinto-me turista em Lisboa, vinha agora no cacilheiro a tirar fotografias feito turista e um casal atrás de mim comentou “epá, os turistas adoram a nossa terra, já viste?” não sabia ele que eu não sou turista coisa nenhuma, sou português e estou cá e é aqui que eu moro, é aqui que eu passo a maior parte do tempo, mas já mudei de casa 20 vezes, já vivi em não sei quantos países, e isso dá-me aquela vontade imensa de continuar a falar do meu país e divulgar as coisas boas que temos…

Passemos ao relato de uma grande adversidade pela qual o Ricardo passou, quando bateu num contentor, tendo destruído o veleiro que demorara 4 anos a montar, e tendo ficado a nadar em alto mar durante 24 horas…como lidou com a situação?

O barco representava muito coisa. A minha primeira carta para conseguir patrocinadores foi em outubro de 96, o barco demorou um ano a construir mas eu demorei cinco anos a chegar àquele momento em que parti de Lisboa à vela, sozinho, rumo ao Brasil, que era esse o projeto que estava a tentar concretizar. 24 de novembro de 2001, foi quando saí do Tejo. Tinha batalhado muito, tinha passado por muitas dificuldades, tinha abdicado de tudo para concretizar os meus projetos, enquanto que na universidade ia tudo para os copos, e os meus amigos só queriam miúdas e cerveja, eu não tinha tempo nem para uma coisa nem para outra, estava focado nos meus projetos, tão focado que o curso era aquela coisa que me interrompia o dia de trabalho, por isso desisti do curso – foi das primeiras grandes decisões da minha vida.

Quando bati no contentor, perdi isso tudo, senti eu que tinha perdido esses cinco anos de trabalho, que tinha desonrado o investimento dos patrocinadores e o investimento da equipa que construiu o barco. Fiquei muito triste, muito em baixo, não consegui compreender a injustiça…e o que aconteceu em terra foi muito pior do que o que me aconteceu em mar. Estive no mar 26 horas à deriva, a ver o barco destruído, a meter água, já não navegava, e isso foi muito muito duro para mim, mas chegar a terra e não ter barco e não saber o que dizer aos patrocinadores e sentir que algumas pessoas não entendiam o esforço e gozavam e criticavam…custou-me a ultrapassar.

Hoje em dia já conta com quantas milhas navegadas? (Equivalente a…?)

Cerca de 100 000 milhas, é o equivalente a 3 voltas ao mundo. No meio disso já fui daqui a Inglaterra e voltei talvez 30 vezes, já fiz 5 travessias do Atlântico, fiz muitas viagens entre Caraíbas e os EUA…uma série de viagens.

Como é a rotina numa grande viagem? O que é que tem de ir fazendo ao longo do percurso, como entretém os pensamentos, como dorme…? (Terei lido bem quando disse que não dorme mais do que 15 minutos seguidos?)

Leste bem, não dá para dormir mais do que isso. Quanto mais perto de terra estiver, quanto mais rápido o barco estiver, menos eu posso dormir. Tem a ver com as colisões, com os outros navios e embarcações, barcos de pesca, redes, atividades junto à costa…O barco é um instrumento extremamente exigente, imagina uma Marta Pereira da Costa, que é uma jovem portuguesa que toca guitarra portuguesa, ou um António Chainho, mais conhecido e experiente, a tocarem uma guitarra desafinada, não conseguem aguentar aquilo nem dez segundos. Param, afinam, e voltam a tocar. Eu sou igual no barco, sou muito exigente, o barco tem de estar feliz, tem de estar afinado, as velas têm de estar a sentir bem o vento para que o barco vá a navegar da forma mais eficiente possível. Tu a dormires dez minutos muda um bocadinho a intensidade do vento, ou o ângulo do vento, ou aparece um navio, tu não podes permitir que uma destas três coisas aconteça sem a tua intervenção imediata. Quando o barco está bem eu estou bem e tento sempre estar focado no bem-estar geral a bordo, seja meu seja o da gatinha.

(risos) Como é que se chama a gatinha que o acompanha?

A que fez a última viagem comigo chama-se Vitória, e a anterior a essa foi a Soneca Maria (risos). Gosto sempre de levar um animal comigo para o mar. No total durmo cerca de 4 horas em cada 24, todos os dias durante o tempo que for preciso para chegar ao outro lado. É mais fácil do que possas pensar, imagina que vais num comboio, sei que já não andas de transportes públicos desde que tens a carta (risos), mas imagina que vais no comboio, dormes um bocadinho, não acordas quinze minutos depois fresquinha que nem uma alface? Até parece que dormiste uma noite inteira enquanto passaste pelas brasas! Eu faço isto muitas vezes, estou sempre a acordar cheio de energia fresca. Portanto aguento, não tenho outro remédio senão aguentar.

A rotina a bordo, passa muito por navegar, ver a meteorologia, afinar as velas, comunicar com outros navios, atualizar o site e redes sociais, dar entrevistas em direto e por satélite, ou responder a e-mails, gosto muito de ler – leio três livros por semana no mar, não consigo nem isso por ano em terra -, escrevo, canto, adoro música – tenho um leitor de cassetes, do tempo em que nasceste (risos). É tão bom ter vinte anos…e aquela sensação de “depois quando for mais velho vou tratar disso…” esquece, começa já a tratar disso, começa já a bombar, o relógio está sempre a contar, e o tempo passa muito rápido, ataca, ataca já, controla já, agarra já o touro pelos cornos…

(dissertação sobre a palermice que são as touradas, “com todo o respeito pela tradição e pelas famílias”)

E o tempo também passa rápido no mar?

Não, não, nada! No mar, que caraças pá, como eu durmo tão pouco, os dias duram o triplo!

Em terra, quantas vezes é que tu não ouves, “olha, queres ir beber um copo ao pôr-do-sol?”, então e o pôr da lua? “epá, hoje vi o nascer do sol”, então e o nascer da lua?

Eu no mar vejo o sol a pôr e a lua a nascer no horizonte, grande e vermelhona muitas vezes, parece um sol a nascer, depois é que vai ficando mais branquinha quando sobe. Vejo a lua a passar, vejo todas as horas a passar, lentamente. O tempo deixa de ser relevante, passas a usufruir porque tens tempo para parar….

(passa um vendedor ambulante com água fresca para vender, e o Ricardo pergunta-me se quero água, eu digo que não, e ele devolve ao senhor: “se fosse um magnum amêndoas ainda ia!”)

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 preciso da transição do Ricardo-terra que se tem de reencontrar com o Ricardo-mar

Voltemos à dualidade, acha que consegue assim à pressão elaborar uma comparação entre o Ricardo-mar e o Ricardo-terra? A diferença principal não se deverá ao ritmo cada vez mais alucinante que a vida (em terra) leva em contraste com a calma e isolamento sentidos no mar? Já falámos um bocado sobre isto, com os dias que demoram o triplo…

É uma boa pergunta e faz sentido. Deixa-me explicar uma coisa, eu quando vou para o mar, o compromisso necessário, a entrega, os níveis de fé, são os mesmos de há 500 anos atrás, logo o respeito, a humildade e a fé também são os mesmos. E quem me diz que não acredita em nada…eu já vi pessoas com a mania de que não acreditam em nada e quando chegam ao mar até sabem o Pai-Nosso de cor e salteado, no mar rapidamente percebem que estamos aqui todos por alguma razão, e que isto tudo foi criado por alguém e que estamos todos conectados.

Portanto eu quando estou em terra, eu não consigo no meu estado normal, rodeado de ar condicionado, esplanadas, água fresquinha, um gelado no congelador se for preciso, eu não consigo ir para o mar com esta mania de que está tudo bem, de que faço assim (estalar de dedos) e muda a estação de rádio e faço assim (novamente estalar de dedos) e aqueço ou arrefeço o ambiente em que eu estou. No mar, estás disposta ao que o mar te dá, ao que a natureza te dá, está frio, tens frio, está calor, tens calor, tens medo…eu tenho medo sempre, tenho mais ou tenho menos, mas tenho sempre medo, e tenho de saber controlar esse medo. Se tu me pusesses num helicóptero neste momento no meio do mar, sofria muito, eu preciso da adaptação, preciso da transição do Ricardo-terra que se tem de reencontrar com o Ricardo-mar, porque o Ricardo-mar nunca deixa de lá estar. O que eu sinto é que há um gajo no mar neste preciso momento que percebe muito daquilo, e que está muito feliz lá, e eu aqui, eu quero é estar sossegado, na minha pequena quinta, com os meus gatos – tenho dez – com os meus filhos, com a minha família…não tenho televisão há anos, tenho uma telefonia muito antiga, um rádio com mais de cinquenta anos em madeira, acordo ligo logo aquilo de manhã, vou cuidar da minha horta, dos meus legumes…eu quero é estar sossegado. Trabalho a partir de casa, faço reuniões em hotéis e esplanadas, já larguei a loucura de ter uma empresa em Lisboa e de ter um escritório, há cinco anos atrás simplifiquei. Aprendi isso com o mar, há essa ligação, sim.

Mas há claramente um gajo no mar que tem uma capacidade de luta e de superação de coisas muito difíceis que eu não faço ideia como é que ele consegue, e essa pessoa é o Ricardo-mar. Eu em terra, às vezes, principalmente à noite, quando me vou deitar, na minha cama que está quentinha, que não mexe, que não está encharcada de água salgada, e não me estou a sentir nem com medo nem enjoado, nem preocupado, e penso “aquele gajo que anda lá no mar, como é que ele faz aquilo?”. E há um momento doloroso mas essencial que é o momento em que o Ricardo-terra se despede da família, amigos, patrocinadores e imprensa, meto-me naquele barco, ainda como Ricardo-terra, largo as amarras, os barcos que me acompanham na despedida começam a voltar para trás, um a um, há um momento em que é só um, e esse um tem alguma timidez em voltar para trás porque sente algum sentimento de culpa de “bem, quando eu me virar, sou o último ser humano que ele vai ver, e será que eu sou a última pessoa que ele vai ver?”, eu sei que há esse diálogo sem ninguém dizer nada, e o barco voltou para trás, estou sozinho, e passado algumas horas estou 100% sozinho e já não vejo terra, e continuo a ser o Ricardo-terra, desesperadamente à procura do Ricardo-mar, que hoje felizmente encaixa nas primeiras 24 horas, mas chegou a demorar 10 dias, no início, quando eu ainda não percebia muito do assunto, chorava baba e ranho, enjoava que nem uma pescada… desde as idas e vindas de Inglaterra em miúdo, quando lá vivia, com o meu pai lá e a minha mãe cá que eu tenho um big deal brutal com as despedidas, e transportei isso para a minha idade adulta, para as despedidas de quando vou para o mar. Resolvi isso com uma psicóloga de desporto chamada Ana Ramirez, que é uma máquina e uma pessoa muito importante na minha vida.

Pode agora falar um pouco sobre os projetos paralelos às suas viagens? Temos o “Made in Portugal” e uma empresa de consultoria de imagem, a “Delfinus”, correto? Para além disso, o Ricardo é Co-Fundador e Presidente do Portugal Ocean Race e ainda Embaixador Europeu para os Oceanos, nomeado pela Comissão Europeia.

Como te disse há pouco comecei a trabalhar muito cedo, por gosto, por identificar oportunidades e não por necessidade. Felizmente nunca me faltou nada, embora tenhamos simplificado muito em certas fases. Dou-te um exemplo concreto, passava férias em Vilamoura, e enquanto os meus amigos queriam praia e gelados na marina e discotecas, eu não tinha muita pachorra para isso, via que os carros do aldeamento estavam sujos por causa da poeira, e com a mangueira que se usava para a rega dos jardins, com o Sonasol lá de casa e com a esfregona ia lavar os carros. Eu cheguei ao ponto de ter tantos carros para lavar no aldeamento, que comecei a contratar os filhos dos donos dos carros para lavarem os carros aos próprios pais mas era eu que lhes pagava com o dinheiro que os pais me davam a mim. Isto parece parvo mas os putos ficavam todos felizes. E eu fazia isto com 15/16 anos, sempre quis rentabilizar o tempo e ser útil.

O conceito do Made In Portugal nasceu, promover produtos feitos em Portugal, e com o objetivo de construir barcos em Portugal e dinamizar a indústria náutica e os estaleiros. Isso evoluiu, hoje em dia tenho uma empresa que se chama Papillon, que faz a gestão e a manutenção de barcos, nomeadamente super-iates.

Eu sem querer criei uma agência de comunicação, e believe it or not, tive essa empresa 14 anos. Os meus projetos enquanto navegador solitário no fundo funcionaram como uma incubadora para jovens talentos, fotógrafos, programadores, designers…todos eles estavam a servir os meus projetos, fazíamos sites e logótipos para os meus projetos, até que eu percebi que para aquele modelo de negócio fazia sentido termos mais clientes: se éramos tão bons com os meus projetos, então podíamos ter outras coisas, e começámos a fazer sites e logótipos para os nossos patrocinadores, e crescemos, até ter clientes em várias partes do planeta. Foi um projeto muito giro, muito inesperado, que justificou ter um escritório no Saldanha, mas que mais tarde vendi.

Faço palestras, tenho o meu livro, faço workshops de formação e essencialmente continuo a trabalhar para ajudar pessoas e empresas a atingir objetivos. Sou empreendedor, navegador solitário, autor, coach. Enquanto coach, tive também de simplificar, há dois, três anos cheguei a trabalhar com mais de 400 pessoas a nível mundial, neste momento tenho cerca de 100 pessoas em tratamento on-going, sendo que o contacto regular quase diário é quase com 30. Eu não tenho formação enquanto coach, sou um “accidental life coach” como costumo dizer.

Em relação à Política do Mar, temos das maiores Zonas Económicas Exclusivas da Europa, concorda que Portugal está finalmente a tirar partido da sua localização e geografia estratégicas e se está a voltar novamente para o mar? Que medidas aconselha para acelerar este processo de reconciliação com o Mar?

Eu acho… que já posso morrer tranquilo. Ou seja, se eu agora cair para o lado, já morro em paz, porque este sentimento de missão que eu tenho que me leva a ir para o mar, tem sido precisamente para que Portugal esteja como já está. Em 98 tivemos um kick off com a Expo, a coisa abrandou um bocadinho, mas de repente começa a surgir uma nova geração, que inspira os mais velhos, que exige aos mais velhos, e nos mais velhos surgem pessoas como o Tiago Pitta e Cunha, advisor do Governo, entre muitas outras pessoas que já conseguem trabalhar em equipa para que isto tudo comece a funcionar, e começo a ver exemplos em vários níveis, nomeadamente a capa da última Exame é dedicada ao mar, a negócios do mar, e quem está de facto a puxar pelo mar. Há muito trabalho a fazer, os estaleiros de Portugal não são conhecidos no mundo como deveriam ser, a pesca em Portugal ainda não está como deveria voltar a estar e melhor, mas estamos no bom caminho. O surf é cool, é um negócio, é patrocinável por grandes marcas multinacionais. Está tudo a aquecer, estamos no bom caminho, e acho que todos temos feito por isso, eu contribuí com pequenas gotas no oceano. Quando circunnaveguei a ZEE de Portugal – foi a expedição Mare Nostrum – foi a realização de um sonho, demorei 8 anos a concretizá-lo, mas demorei 8 anos porque eu tinha os norugueses a quererem-me patrocinar, tinha os belgas também, os ingleses, os japoneses, e eu disse não, não, não, este projeto tem de ser português, com empresas portuguesas e de preferência com um barco meu e português. Esperei mas quando arranquei do Tejo arranquei com um barco meu, português, que deu trabalho a 312 pessoas e demorou 100 dias a remodelar, tive 24 dias sozinho no mar, sempre o mais fiel possível em cima da linha da ZEE e concretizámos um projeto que nunca tinha sido feito, nunca ninguém à vela circunnavegou ZEE nenhuma, muito menos a portuguesa, e foi para mostrar que Portugal é mar, e tu hoje vês em todas as escolas do país um mapa lindíssimo a dizer que Portugal também é mar, e que mostra aos miúdos que Portugal não é um retângulo vertical, mas é um retângulo vertical mais ilhas mais uma mancha imensa que é mar que pertence a Portugal e que tem de ser trabalhado e que vai ser um dos grandes contribuidores para o PIB português. Deixa-me com imenso orgulho ver que estamos todos a puxar pelo mesmo e que isto vai lá, estamos no muito bom caminho, felizmente, finalmente.

Por fim, para quando uma volta ao mundo? Sei que está nos seus planos.

Olha volta ao mundo foi um desejo que eu tive com oito anos, e a vontade e o desejo que eu tive de a fazer foi algo tão grande que ainda hoje o sonho comanda a vida. Tudo o que atingi e as decisões que tomei na minha vida foram por causa da volta ao mundo, que curiosamente ainda não fiz. Hoje em dia não tenho essa pressa, não tenho essa imensa vontade que faz o meu mundo andar para a frente. Mas uma coisa te posso dizer, se um dia fizer a volta ao mundo, será muito ligada às comunidades portuguesas, muito ligada a algo que tenha a ver com a promoção das nossas empresas e da nossa cultura, terá a ver com Portugal no mundo e unir quem fala português, reforçando que Portugal tem uma diáspora fabulosa, temos 5.5 milhões de portugueses  a viver fora de Portugal, e temos muito a fazer com isso, temos de reforçar os laços com Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé, Brasil, Macau, Goa… Eu hoje em dia não vou por pressas nem calendários, vou por feelings, e amanhã de manhã se acordar com o feeling que é agora que eu tenho de fazer a volta ao mundo, amanhã de manhã começo a trabalhar nessa expedição para fazer a volta ao mundo, e não vai ser nem num ano nem dois, vai ser em pelo menos quatro. Mas as minhas prioridades neste momento são outras, tenho filhos, tenho outros projetos que quero atingir em terra. Quando tiver de fazer, se tiver de fazer, será.

Agora tiramos uma selfie?

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Fotos: DR

Maria Wurst – delicioso empreendedorismo luso-germânico

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Maria Wurst nasce da amizade entre Francisca e Ina: uma é portuguesa, a outra é alemã; uma é morena, outra é loira. Ambas são sonhadoras e dotadas de um talento especial para o espírito empresarial.
Maria Wurst percorre o país de Norte a Sul e a Excelência Portugal foi conhecer este delicioso projecto numa das suas paragens.
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INA KOELLN  – 29 anos

O meu nome é Katharina Kölln, mas desde pequena que sou tratada por Ina (graças a um dos meus 4 irmãos que não tinha paciência para articular o meu nome todo).  Nasci em Freiburg , uma cidade bastante „eco“, no sul da Alemanha.
Com 16 anos, passei o meu primeiro ano no estrangeiro, a estudar, no sul de França. Foi nesta altura que descobri a minha paixão pelas viagens e aventuras.
Viajei com a mochila às costas durante um ano e fui viver para Paris, onde estudei design de vestuário masculino.
Seguiu-se Londres, onde comecei a trabalhar num pequeno atelier de moda e num bar à noite.
Foi nesta cidade que conheci a minha grande amiga e agora sócia, Francisca Meneses. Partilhámos uma casa na altura e depois de fazermos várias viagens à Alemanha e a Portugal, decidi viver em Lisboa. Depois de ultrapassadas as primeiras dificuldades de adaptação, lancei, em 2013, a minha marca INA KOELLN de malas e acessórios. E pouco tempo depois nasceu a nossa Maria Wurst, que era já uma ideia antiga nossa, mas que ainda não tinha encontrado o timing certo … até hoje!

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FRANCISCA MENESES – 28 anos

Aos 5 anos perguntaram-me “o que queres ser quando fores grande?” E eu respondi de forma convicta, “DONA!”. Aos 10 já tomava conta dos meus irmãos gémeos e aos 12 fui sub-guia de uma patrulha de escuteiros. Escolhi o curso de Marketing e Publicidade como licenciatura e após o curso rumei a Londres de mochila às costas, onde conhecia a minha actual sócia Ina Koelln. Realizei um curso de Inglês aplicado ao marketing enquanto trabalhava em part-time. Ainda nesse ano, fui seleccionada para o programa de estágios internacionais INOV CONTACTO e o destino foi Cabo Verde, ilha do Sal.

Regressei a Portugal e na dificuldade de procura de emprego, fiz um curriculum em formato de vídeo que teve resultados imediatos. Trabalhei 2 anos numa agência de publicidade e em Dezembro de 2012 decidi abraçar o projecto da minha vida – a Maria Wurst.

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Como surgiu a ideia deste negócio? 

Este projecto nasce de uma amizade, em Londres, entre uma Portuguesa e uma Alemã. Foi no regresso de uma viagem, a Freiburg, que o nosso sonho ganhou forma. Mais precisamente, a forma de uma salsicha. “E se trouxéssemos o prato mais típico da Alemanha para Portugal?” Os portugueses são exigentes com o que comem. Querem pratos deliciosos, baratos e de qualidade – e até já se renderam à street-food.
Por isso, não fizemos a coisa por menos. O nosso orgulho são as nossas salsichas: feitas à mão por um talhante alemão, com carnes DOP de uma herdade alentejana. É um conceito inovador em Portugal e com fortes capacidades de crescimento.

Já existia alguma experiência empresarial por parte de alguma das duas?

Sempre trabalhámos por conta de outrem, ganhámos experiência e sentido de responsabilidade. Posteriormente, a Ina cria a sua própria marca de roupa, com matérias-primas portuguesas e em simultâneo nasce a Maria Wurst.

Como definem o conceito da Maria-Wurst?

Proporcionar uma experiência diferente aos Portugueses – Oferecer uma especialidade alemã com qualidade. Satisfação do cliente, SEMPRE!

Quais as maiores dificuldades que sentiram no arranque?

Apesar do investimento ser relativamente baixo, há sempre dificuldades. É preciso ter pulso, muita coragem e dedicação. Nem toda a gente tem uma historia para contar. Nem toda a gente tem um produto forte e inovador. Nós temos e por isso, decidimos avançar.

Que impacto teve a participação no Shark-Tank? Já obtiveram financiamento?

Impacto extremamente positivo. As pessoas reconhecem-nos e procuram-nos. Temos várias pessoas interessadas em participar no negócio.

Vocês têm participado em muitos eventos e festivais de Norte a Sul. Este “road-show” tem sido uma forma de dar a conhecer o projecto. Como tem sido o feedback? 

O feedback tem sido motivador, daí rumarmos diversas vezes ao Norte e Sul do país.

A oferta de produtos tem evoluído/sido ajustada?

Temos os mesmos produtos, com alguma mudança na receita (consistência e sabor) e a ideia é acrescentar alguns extras, como a típica e saborosa salada de batata.

Quais são os projectos futuros para a marca (franchising, etc …) ?

Para já consolidar a Marca e tornar a Maria Wurst uma referência na gastronomia alemã.

 

Fotos: DR

Turismo Solidário chega a Portugal com experiências inovadoras

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impacTrip (agência de viagens de Turismo Solidário), após ter passado pelo programa de incubação de empresas sociais da SCML e pelo programa Shark Tank, lanççou, esta semana,  o seu novo site repleto de experiências turísticas alternativas para REdescobrir Portugal e criar um
impacto social e ambiental positivo.
Da combinação da viagem com o voluntariado nasce este conceito turístico inovador: O turismo solidário. Dada a importância crescente da responsabilidade social e do crescimento do turismo alternativo, a Excelência Portugal quis saber um pouco mais sobre este conceito.

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- Como surgiu a ideia?

A ideia surgiu bastante longe de Portugal… Depois de trabalhar na Malásia, estava eu a viajar sozinha de mochila às costas pela Ásia quando percebi que havia mais pessoas como eu, que queriam conhecer profundamente os locais por onde passavam e deixar uma marca positiva nas pessoas que conheciam fazendo voluntariado. Já existiam alguns programas deste género com bastante sucesso e que faziam realmente a diferença nessas comunidades. Em Portugal não existia nada do género, e foi aí que eu pensei: “Em Portugal existem, obviamente, necessidades sociais e nós somos um país maravilhoso para se viajar” e a ideia estava formada. Durante este processo conheci o Diogo que, com experiência no sector do turismo percebeu que era uma ideia com futuro. Estivemos 1 ano a consolidar a rede de parceiros, passámos por um programa de incubação de empresas sociais do Banco de Inovação Socia, recebemos financiamento no programa da SIC do shark tank e finalmente, após muito trabalho, lançámos a impacTrip.

Escrevemos um artigo (em inglês) exatamente sobre a viagem que despoletou tudo isto.

- Qual o percurso de vida dos fundadores?

Somos uma equipa pequena mas muito motivada: Apenas eu e o Diogo.

Temos competências e experiências muito complementares e uma visão comum do que queremos alcançar pelo que tem resultado muito bem.

Eu tenho Mestrado em gestão internacional na NOVA sbe, diversas experiências internacionais (tendo vivido 3 vezes fora em 2 continentes) e em gestão de projetos. Já tinha liderado 2 projetos de empreendedorismo social antes e sou apaixonada por viagens.

O Diogo é formado em turismo e tem bastantes anos de experiência no sector. Tem competências em marketing, vendas e de gestos de marcas e é apaixonado pela Natureza e pelo desporto.

- Quem são os clientes-alvo e que experiências podem encontrar ?

Toda a gente que viaja connosco se surpreende, pelo impacto que causa Na sua viagem.

O público-alvo depende muito do programa que oferecemos. O Eco-mergulho é mais destinado a jovens, grupos de amigos e backpackers. Se falarmos em programas na Natureza de 4 dias ou 1 semana, o público-alvo passa a ser famílias e casais. Em geral, quem procura o turismo solidário vem do Norte da Europa (Escandinávia, Inglaterra, Alemanha, Holanda etc), é bastante ativo no seu país de origem e tem uma grande consciencialização social e ambiental.

Com isto não queremos dizer que o público Português não começa a procurar este tipo de turismo bem mais local e ativo. Os Portugueses têm aceite muito bem o nosso trabalho e estão a aderir bastante mais do que estávamos à espera.

Todos os viajantes podem encontrar as nossas viagens no nosso website www.impactrip.com e pesquisar qual o destino e tipo de impacto que querem causar. É muito fácil e o conceito é bem explicado no vídeo de apresentação.

– Que impacto teve a participação no Shark-Tank?

Representa uma abertura de portas muito importante, faz com que cheguemos a sítios que sozinhos teria sido muito mais difícil, faz com que sejamos mais assertivos no que fazemos e por fim faz-nos sentir que estamos no caminho certo para os nossos objetivos. A Shark Susana era o que mais queríamos e tem sido mesmo muito bom trabalhar com ela. Está sempre disponível para nós, participa ativamente nos nossos projetos, trabalha ideias connosco, enfim, tem sido incansável.

 

Fotos: DR

Entrevista a João Azevedo – Ciência, engenharia aplicada e evolução da energia solar

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Fomos conversar com João Azevedo, aluno de doutoramento da Faculdade de Ciências da U. Porto (FCUP) em simultâneo com a Faculdade de Engenharia também da U. Porto (FEUP). Conversámos sobre o último trabalho publicado no reputado jornal “Energy & Environmental Science”, sobre como é trabalhar entre a ciência fundamental e a engenharia aplicada e sobre a evolução da energia solar.

 

Olá João, podes contar-nos um pouco da tua história recente. Estás atualmente a realizar o doutoramento, qual é o teu tema?

O meu doutoramento é focado no armazenamento de energia solar na forma de combustíveis eletroquímicos. Neste tópico, eu tenho vindo a trabalhar em duas abordagens diferentes: por um lado o desenvolvimento de materiais nanoestruturados que consigam converter energia solar em energia química (na forma de hidrogénio gasoso) de forma eficaz e estável, como por exemplo óxido de ferro e óxido de cobre; por outro tenho vindo a procurar novos combustíveis eletroquímicos que consigam armazenar energia solar na forma líquida por forma a contornar um grande obstáculo do hidrogénio, que é o seu armazenamento.   

No teu último trabalho publicado no jornal “Energy & Environmental Science”, tu e a tua equipa investigaram sobre a importância de um material óxido para a conversão a energia solar em energia química. Podes explicar-nos brevemente como ocorre esta conversão de energias? E qual a importância no contexto do armazenamento da energia solar?

Atualmente existe uma grande procura de novas formas eficientes e limpas de armazenar energia solar, dado esta fonte renovável apesar de muito abundante ser intermitente, ou seja, não existe nos períodos da noite e é mais escassa em dias encobertos. Assim sendo, o seu armazenamento pode facilmente torná-la na fonte predominante de energia. Hoje existem várias formas de armazenar energia solar mas uma das mais atrativas é na forma de combustíveis eletroquímicos.

Basicamente, utilizo um semicondutor (material óxido) que absorve luz solar e a converte em electrões. Estes electrões por sua vez estão envolvidos em reações químicas (de redução/oxidação) quando o semicondutor está em contacto com um determinado líquido que contém iões (eletrólito) fazendo com que esses iões adquiram ou percam alguns electrões. Assim é possível transferir energia solar para o electrólito que não é nada mais que um combustível eletroquímico. Finalmente, quando precisamos da energia de volta podemos simplesmente inverter a reação e reavemos a energia química armazenada na forma de eletricidade. Esta abordagem é hoje muito investigada para a produção de hidrogénio a partir de água pois esta quando sofre reações de redução/oxidação separa-se em hidrogénio e oxigénio, processo chamado de hidrólise. Este processo tem já demonstrado excelentes resultados e é hoje muito promissora.

Imagino que este trabalho tenha resultado de um longo processo – quanto tempo aproximadamente estimas que tenha demorado? E quantas pessoas estiveram envolvidas?

Este trabalho resultou de um esforço conjunto de três grupos de investigação e foi realizado durante o meu estágio na EPFL, no laboratório LPI, na Suíça. O trabalho experimental foi realizado ao longo de cerca de 5 meses e tem depois um trabalho de escrita que não te sei precisar quanto tempo demorou. Deste trabalho resultou um artigo com 9 autores, distribuídos pelas três instituições (LPI, IFIMUP-IN e LEPABE).

O que mais gostavas de destacar deste trabalho?

O material que estudei neste trabalho é um dos mais conhecidos na área de produção de hidrogénio solar – Cu2O. O Cu2O produz correntes elevadas em comparação com outros óxidos mas tem uma grande desvantagem – é instável e deteriora-se ao final de poucas horas. Durante a minha estadia na Suíça, realizamos um outro trabalho que resultou num tempo de estabilidade de cerca de 8 horas e foi alcançado pela proteção deste material com camadas mais estáveis. Neste trabalho, demonstrei que utilizando um simples tratamento térmico conseguimos aumentar essa estabilidade para mais de 55 horas. Embora ainda seja pouco para fazer um dispositivo comercial, permitiu ver que é possível aumentar muito a estabilidade e apontou-nos numa direção para futuras melhorias. Neste momento já conseguimos dobrar a estabilidade deste material e estamos em fase de submeter um novo trabalho com os esses resultados.

Encontras-te a fazer o doutoramento “a meias” entre a FCUP (no grupo IFIMUP-IN) e na FEUP (no grupo LEPABE). Como descreverias a tua experiência? Sentes que são dois mundos diferentes? Como caracterizas cada um?

Este muito satisfeito com esta experiência. Ambos os grupos têm excelente qualidade e estou certo que não teria alcançado tanto se não tivesse beneficiado do conhecimento de ambos os grupos. No IFIMUP-IN existe um profundo conhecimento de fabrico e caracterização de materiais nanoestruturados. Este grupo tem um passado muito forte em dispositivos magnéticos e tem agora dado os seus primeiros passos, mas firmes, na área de produção de energia. Foi neste grupo, sob a orientação do Prof. João Araújo e da Doutora Célia Sousa, que consegui adquirir as ferramentas necessárias para preparar todos os materiais que utilizei ao longo do meu doutoramento. No LEPABE existe um grupo de excelência na área de produção de energia solar e este grupo tem tido grande destaque internacional pela produção de células solares utilizando tecnologias inovadoras que permitem obter resultados muito melhores que qualquer concorrência. Foi aqui que, sob a orientação do Prof. Adélio Mendes, aprendi todos os fundamentos de células fotoeletroquímicas que são a base do meu trabalho e é onde transformo os meus materiais em dispositivos.  

Depois do projeto European Research Council (ERC) ganho em 2012 pelo grupo do Professor Adélio Mendes, seguiu-se a venda da patente (partilhada com a EFACEC) das novas células solares de perovskites por 5 milhões já este ano. A somar a estas, têm-nos chegado mais boas notícias. Estes são tempos excitantes para a energia solar em Portugal?

Sem dúvida. O nosso país tem muito potencial para a produção de energia solar e são as novas tecnologias desenvolvidas por grupos de investigação que vão conseguir que Portugal rentabilize este recurso. Embora a situação atual do país não proporcione grandes incentivos à investigação, penso que o trabalho que está a ser feito a nível nacional é impressionante, o que só revela o mérito dos investigadores portugueses.

A energia solar tem tido um crescimento impressionante. Do relatório publicado pela BBC Energy (r)evolution, estima-se que a energia solar seja a fonte energética dominante em 2050 e que o seu preço baixe para metade nesta próxima década. Como imaginas o futuro da energia solar? Quais julgas que serão as próximas grandes revoluções nesta área?

Não tenho grandes dúvidas que no futuro teremos uma produção de energia solar muito mais abundante. Tenho presenciado em primeira mão grandes avanços na área de painéis fotovoltaicos no grupo do LEPABE e penso que num futuro breve vamos começar a ver estas tecnologias a servirem-nos diariamente. Penso que o que nos limita atualmente é o armazenamento da energia produzida. Uma patente recente baseada num conceito desenvolvido pelo Prof. Adélio Mendes sobre baterias solares, sobre a qual tenho vindo a dedicar parte do meu doutoramento, poderá fazer a diferença nesta área e dar o passo final para implementação de produção solar em grande escala.

E como comparas (a evolução solar) com a evolução das outras energias renováveis?

No futuro imaginas que chegaremos a um sistema misto com diferentes fontes e a micro-geração de energia, como recentemente sugeriu Elon Musk da Tesla?

Honestamente, não sei fundamentar a evolução de outras energias renováveis da mesma forma que o sei fazer para a energia solar. Penso que todas são necessárias mas a energia solar tem uma vantagem evidente em relação às restantes que é a produção local – enquanto que, por exemplo, a energia hídrica é maioritariamente produzida em barragens e não o conseguimos fazer no meio de uma cidade. No entanto concordo que o futuro passará por utilizar todos os recursos renováveis ao nosso dispor.

E o teu futuro, o que gostavas de fazer depois de terminar o doutoramento?

Tal como disseste, estes são tempos excitantes para a energia solar em Portugal. Por isso gostaria de dedicar mais algum tempo a investigação de novas tecnologias de produção e armazenamento de energia solar. No entanto, tenho noção que a investigação em Portugal está a atravessar uma fase difícil e conseguir fundos para o fazer é atualmente uma tarefa árdua.

 

Fotos: DR

 

Spark Agency – Miguel Gonçalves em entrevista

MGoncalvesO Miguel Gonçalves é uma pessoa particularmente difícil de descrever. Não por falta de qualidades já reconhecidas, mas por parecer simplista lançar dois ou três elogios. Talvez desassossegador de mentes entorpecidas encaixe com o papel que tem feito nas inúmeras palestras realizadas ao longo dos últimos anos.

Mas Miguel é muito mais do que isso e a sua visão levou-o mais longe. A Spark Agency é uma empresa criada em conjunto com a Tânia Delalande especialista em talento. Um conceito original e inovador que veio revolucionar o mercado de trabalho. Foi no escritório da Spark que o conheci e tive a oportunidade de o entrevistar. Com amabilidade enorme e uma energia contagiante, conversámos sobre como surgiu a sua ideia, de como é ser empreendedor em português e, principalmente, do mercado de trabalho em Portugal.

Conversámos também sobre o Picth BootCamp, um acelerador de carreiras que já conta com 34 edições e mais de 1000 postos de trabalho. Aliado a uma equipa muito apaixonado, muito viva e focada, redescobrem novas formas de aproximar o talento jovem com as empresas portuguesas.

“ Falem da nossa Excelência. Falem dos nossos casos fantásticos no mundo todo” disse numa palestra do TedEx Youth Braga. Desta vez, foi a Excelência Portugal que falou com ele. E descobrimos que é mais um dos casos fantásticos que é preciso dar a conhecer.

sparkO Miguel e a Tânia são os rostos principais da Spark Agency. Que papel tem cada um na empresa?

O que diz na minha assinatura é comandante executivo e a Tânia é problem solver. O meu trabalho resume-se a imaginar uma parede branca e colocar um ponto preto na parede. “O caminho é este”. O trabalho da Tânia é encontrar a maneira mais cost efective e funcional de chegarmos ao ponto. Garante que a máquina funciona. O meu é mais sugerir, empurrar, fazer crescer ideias.

E foi com a junção destes dois talentos, diversos, que nasce a Spark. Uma empresa dinâmica, explosiva e diferenciadora. Muito jovem mas com a sua posição já muito marcada no panorama nacional.

A Spark tem só tem 3 anos. Em 2011 estávamos já a trabalhar mas era ainda um projeto, não uma empresa. Vamos a meio do quarto ano e a empresa tem vindo a mudar. Temos vindo a explorar novas oportunidades de negócio e por isso o nosso modelo de negócio também tem vindo a evoluir. Hoje temos uma área muito forte de recrutamento, search executive, mas trabalhamos principalmente em employer branding. sparky1aNeste contexto, como se posicionam os Pitch Bootcamp na missão da empresa?

Ajudamos as empresas a serem mais apelativas junto do talento alvo que pretendem magnetizar. Trabalhamos a cultura organizacional ajudando as equipas a desenvolver e ritualizar comportamentos. O Pitch Bootcamp acaba por ser um híbrido de missão com o sonho de mudar Portugal. Acaba por ser o produto que mais problemas viu resolvidos até hoje. Estamos a fazê-lo há dois anos, quase três, já esteve com 3000 mil “miúdos”, 2000 profissionais de 600 empresas, 34 edições. Já chegou a uma fase de apuramento muito sólida. Acaba por ser a coisa mais trabalhada, apurada, que mais investimento viu por parte da Spark.

O conceito do Pitch Bootcamp foi criado de raiz pela Spark Agency. O que traz de novo ao mercado de trabalho?

O que traz de novo? Traz muitas coisas novas, não apenas nos conteúdos mas também na fórmula. A forma per se é bastante disruptiva e o picth bootcamp aparece de uma experiência anterior que tínhamos tido que foi o “So you think you can pitch”. Muito parecido com o “So you think you can dance” ou outros programas do género. Em 2011 lançámos no mercado, correu incrivelmente bem! Estivemos com imensas empresas, 5 mil candidaturas, várias edições, centenas de postos de trabalho e percebemos que existia ali uma oportunidade de negócio muito interessante. O objetivo era redesenhar e reinterpretar a forma como jovens se apresentam nas empresas e como as empresas se apresentam aos jovens, dando origem ao Bootcamp como temos hoje. sparky2aUma das características deste evento é o facto de decorrerem sempre numa universidade. Uma estratégia que pretende aproximar estes dois agentes?

Acontece em faculdades por um ponto de vista simples: muitas empresas têm ainda a perceção que as academias estão muito longes do mercado. E algumas de facto estão enquanto que outras tem já departamentos muito especializados. Quando o Picth Bootcamp acontece neste contexto estamos especificamente a dizer a estes dois stakeholders que precisam de estar juntos! E considerando que em média, cada edição tem 120 empresas, estamos a dizer às empresas que a faculdade esta aberta e estamos a dizer à faculdade que as empresas estão disponíveis para os seus alunos.

Estão também a dizer que ambas funcionam melhor se estiverem juntas.

Funcionam muito melhor se tiverem juntas a vários níveis! Podem ajudar a comunidade académica a direcionar a sua pedagogia. Podem ajudar os alunos a perceber quais as reais necessidades do mercado. E podem ajudar as empresas a perceber quem são estes os jovens, que expectativas têm, que ambicionam, quais os seus objetivos, que canais utilizam até as empresas? Que talento é este que está a crescer todos os dias nas faculdades e que é tão diferente das gerações anteriores? O que lhes vai na alma?

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Os dois dias do Pitch Bootcamp estão amplamente preenchidos do início ao fim. Como estão organizados?

Ao longo dos dois dias os diferentes stakeholders são submetidos a muitas experiências diferentes. Temos um framework que tem vindo a ser desenvolvido e que tem quatro partes fundamenteis. Primeiro trabalhamos com os bootcampers no seu produto. Ou seja, que competências eles trazem ao mercado de trabalho. Perceber quem é que eu sou, o que é que eu já fiz, quais são as minhas principais experiências, que competências já desenvolvi até aqui. Depois passamos para o cliente. Em que tipo de indústrias quero trabalhar? Em que tipo de funções gostava desempenhar? Em que empresas posso desempenhar estas funções?

Mas depois terá de existir a ligação entre os dois, certo?

Claro, e daí passarmos para a proposta de valor. Depois de saber o que é que vendo e a quem vou vender, tenho de perceber que match existem entre as necessidades do cliente e aquilo que lhe apresento. Se houver match tenho uma proposta de valor forte, se não houver é mais fraca. Por fim, trabalhamos a comunicação. Como desenvolver o “eu” online, previsões curriculares, assinaturas de email, como recorrer a candidaturas específicas, candidaturas espontâneas, ….

No 2º dia temos o dia com as empresas e acontece o pitch propriamente dito. As empresas estão distribuídas em mesas com mais três pessoas e cada participante tem agora 3 minutos para fazer um pitch e oportunidade de fazer perguntas e questões.

O Pitch Bootcamp acaba por ser um acelerador da carreira. Em apenas dois dias faz-se um processo que sozinho demorar-se-ia muito mais tempo ou só se fazia muito mais tarde. Acha que é possível aos jovens ficarem referenciados no mercado?

Não, não é possível ficar logo referenciado mas abre muitas portas. Se és universitário ou acabaste o curso à pouco tempo e queres explorar oportunidades de negócio, não conheço nenhum sítio em Portugal mais interessante para o fazer do que o Picth Bootcamp. Porque de uma forma muito rápida, muito cost effective e muito intensa consegues chegar a muitas empresas. Acelera de facto a tua carreira e dá-te uma visão crítica sobre o mercado mas, sobretudo, ajuda-te a pensar no que se quer efetivamente na carreira. Porque se eu quero muito, tenho de estar disponível para investir. É extremamente importante trabalhar muito e bem, mas mais importante trabalhar bem do que muito.  E o bootcamp ajuda-te a perceber isto e mostra que é possível ter uma carreira excecional. Está nas tuas mãos construir essa carreira todos os dias. pitch2A quantidade das empresas presentes no último dia é um dos aspetos mais aliciantes do evento.

E não é apenas a quantidade das empresas mas a qualidade das pessoas que vêm apresentar as empresas! Pessoas muito fortes dessas empresas. Diretores de bancos, diretores executivos, de marketing, de R&D, CEO’s, … Pessoas a quem vendo talento vivo, fresco e forte consigam fazer um bypass ao recrutamento e dizer “Olhem, este miúdo é excecional, coloca em partline e vamos entrevistá-lo”. Ou seja, é a oportunidade de uma pessoa de 20 anos poder falar com pessoas que podem ser potenciais clientes mas que, ao mesmo tempo, podem passar bom feedback sobre as suas opções.

Torna-se possível falar diretamente e de uma forma muito natural com pessoas que muitos não imaginariam conseguir chegar. Acha que é fácil chegar a elas?

Às vezes o mercado tem a perceção que há uma escassez de forma ou de metodologia para entrar em contacto com os agentes de mercado. O que em rigor é mentira. A experiência diz-me que é mais fácil agora entrar em contacto com as empresas do que nunca foi. sparky3aMas esta facilidade advém também de uma mudança por parte das empresas, que têm vindo a alterar nomeadamente o conceito de recrutamento jovem.

A realidade tem mudado dramaticamente. As empresas vão à academia porque precisam de rejuvenescer as suas equipas e de obter ideias novas. Se me perguntares, talvez nos últimos 5 a 10 anos passámos do arquétipo do jovem das fotocópias para o jovem das ideias. São vistos como os talentos novos e que já estão a ser integrados nas empresas. A médio e longo prazo a serão os próximos gestores de primeira linha.

Esta preocupação crescente das empresas pela qualidade dos seus recursos humanos é uma evidência clara. Quer pela criação de programas de captação de alentos quer pelos alargados investimentos que são feitos nesta área. Esta evidência pode levar a um paradoxo, visto que o desemprego jovem tem apresentado resultados assustadores.

Como é que estas duas realidades coexistem?

Ninguém faz grandes investimentos para ter um rapaz das fotocópias. Tens dois mercados atualmente: o mercado das commodities e o mercado dos talentos. No primeiro são os jovens que têm de ir bater à porta das empresas e o grande critério das transações é o preço. No mercado das empresas são estas que vêm ter com os jovens. E isto muda tudo! É outro mercado, com outra configuração. É muito mais pequeno mas também muito mais vivo, onde são os jovens que escolhem onde querem trabalhar. sparky4aÉ muito fácil para os jovens, quando enfrentados com o mercado de trabalho, sentirem que não tem grande proposta de valor para as empresas. O que leva a que isto aconteça?

Uma coisa que acontece com imensa frequência na população universitária é assumirem que ausência de experiência é algo comprometedor. E assumem erradamente que o facto de não terem experiência legitima a utilidade que têm no mercado. Uma coisa que ajudamos no bootcamp é perceber que num recém-diplomado a empresa não espera experiência. Procura preditores de desempenho. O que é que esta pessoa já fez que me permite depreender que será um teamplayer, que fará fit na minha cultura ou numa equipa, que produz resultados…

E que é capaz de lidar com os desafios que vão aparecer. As softs skills ganham cada vez mais importância nas equipas de trabalho e daí serem um ponto importante nos processos de recrutamento. Em que é que o Picth Bootcamp ajuda neste aspecto?

Uma das coisas mágicas que acontece no bootcamp é ajudar a perceber que a moeda de mercado são as competências. E as tuas competências que foram desenvolvidas na academia, nos voluntariados, a fazer desporto, no núcleo de alunos, na Excelência Portugal. As competências que tu desenvolveste em tudo o que já fizeste.

As grandes transformações que ali acontecem ocorrem quando as pessoas se espantam “Uau, eu que achava que não tinha nada para trazer ao mercado, afinal de contas tenho imensas coisas válidas”. É um dos grandes efeitos pedagógicos destes eventos.

No início, muitas pessoas diziam que o conceito não ia resultar. Não foi fácil, mas a Spark mostrou é possível e criaram um produto novo num mercado que precisava de ser abalado. Que conselho dá a todos os portugueses que estão na primeira fase dos seus sonhos, das suas ideias?   

A malta pergunta muitas vezes se aquela ideia é boa ou má, se vai funcionar ou não. E eu respondo da mesma forma: só o mercado é que sabe se presta ou não presta. Só o mercado é que sabe se uma ideia de negócio se transforma num negócio. No início a reação foi lenta, mas o mercado reage sempre, sempre à qualidade e à persistência. Foi estarmos sistematicamente a tentar ser bons e não atirar a toalha ao chão demasiado cedo. Melhorar edição a edição até chegarmos a um ritmo de cruzeiro que cresce por referência.

 

Fotos: DR

 

Stand Up Paddle Board – Isa Sebastião bate recorde mundial

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No passado domingo, Isa Sebastião, actual campeã nacional de Stand Up Paddle Board (SUP) em Maratona e Sprint, bateu, em Alcácer do Sal, o recorde do mundo da maior distância percorrida num rio sem paragens a remar em pé numa prancha. Isa Sebastião fez, em 24 horas, 170 quilómetros no Rio Sado. 

Para entrar no livro dos recordes do Guiness,  a atleta tinha-se proposto a completar 130km. Superado o objectivo em 40 km, cabe agora ao Guiness a homologação do feito.

A Excelência Portugal quis saber mais sobre esta modalidade e entrevistou a atleta.
ISA4Isa Sebastião tem 41 anos e 1.80m. A lisboeta  (Alcântara)  iniciou a sua  carreira desportiva passou pelo basquetebol, o CIF foi o seu clube de formação e jogou no União de Santarém e Nacional da Madeira. Foi várias vezes campeã nacional e representou a selecção de Portugal até ao final da carreira (96 internacionalizações).

Deixou de jogar basquetebol aos 26 anos porque o desejo de fazer desporto de exploração da natureza era cada vez maior. Gosta de praticar qualquer desporto que a coloque em contacto com a natureza e lhe proporcione aventura e desafio e principalmente se forem no meio aquático- Actualmente além de SUP pratica kitesurf regularmente.

Começou a praticar  SUP quando teve conhecimento, pela internet, em 2009. Organizou alguns eventos como a Oeiras SUP Race e a primeira etapa de ondas e race no Ocean Spirit.

Em 2012 começou a competir em Race sempre com homens, em 2014, já com algumas mulheres a fazerem o circuito, sagrou-se campeã nacional de Race e Sprint (no entanto as mulheres continuam a ser “muuuuito” poucas). Em 2013, entrou numa prova do circuito mundial ficando em 7º lugar.

Na sua opoinião, Portugal tem das melhores condições da Europa e talvez mundo para a práctica do SUP. A modalidade têm várias vertentes e em todas o nosso pais é fabuloso:

– Excelentes ondas como já é sabido para o SUP Waves;

– Costa com nortada excelente para Downwinds (descer ao vento), dito pelo presidente da IOSUP, Fernando Labad, como Portugal para o downwind só o Hawai;

– Óptimas lagoas, albufeiras e rios para passeios e travessias.

Esta actividade têm sido a de maior crescimento nos últimos tempos e pensa que Portugal não vai ser excepção, A facilidade de aprendizagem, boas sensações e versatilidade são a receita para o sucesso e literalmente é uma actividade dos 8 aos 80 e adequa-se a diferentes tipos de procura de sensações: calma, adrenalina, lazer, desporto, família, etc.

Isa pessoalmente adora remar durante muito tempo mas também adora apanhar ondas.

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A nível competitivo ainda somos praticamente inexistentes. Pela Europa existem provas com mais de 100 participantes e em Portugal ainda contamos com 20 ou 30.  Para Isa Sebastião, “ainda existe a mentalidade de que se não é para ganhar então não vou. “
No que concerne a apoios, estes são idênticos aos de todos os desportos amadores e recentes, ou seja praticamente nulos. Para se conseguirem apoios tem de haver mediatismo, e esta é uma modalidade que ainda não tem qualquer tempo nos meios de comunicação social.
Fotos: DR