Mariana Gomes, 24 anos, é a CEO da shair, que desenvolveu a sua ideia inovadora e depois apresentou-a ao grupo bracarense dst. Embora com formação na área da Gestão e da Comunicação, Mariana esteve sempre envolvida no meio artístico.
A shair é uma plataforma online que dá visibilidade aos trabalhos dos novos artistas. Mas a shair não fica por aqui, a startup bracarense expõe fisicamente obras e possui acordos com galerias internacionais.
A Excelência Portugal visitou a shair e falou com Mariana Gomes.

notei que o setor artístico estava ainda muito desligado do mundo virtual, e com os meios que temos hoje em dia para nos apoiarem numa decisão de compra online isto não fazia sentido
Com uma formação fora das artes, como lhe surgiu esta ideia de negócio?
Faz algum sentido que muitas ideias de negócio, aplicadas a determinado setor, tenham nascido a partir de pessoas com formação em áreas que à partida não têm nada a ver com esse setor. Isto porque são muitos os processos que podem ser replicados/adaptados de uma área de negócio para outra que até ao momento não tinham sido detectados como tal. No meu caso foi precisamente isto que aconteceu – notei que o setor artístico estava ainda muito desligado do mundo virtual, e com os meios que temos hoje em dia para nos apoiarem numa decisão de compra online isto não fazia sentido. O facto de ter muitos conhecidos ligados ao mundo das artes, maioritariamente artistas, também ajudou, pois notei que havia de facto uma necessidade de divulgação e comercialização dos seus trabalhos para além do circuito tradicional das galerias de arte, ainda muito elitista na sua seleção.
A Mariana foi a única mulher entre sete homens que representaram o programa Aceleração da StartUp Braga em Londres. Que papel teve o programa no desenvolvimento do vosso modelo de negócio?
O papel da StartUp Braga foi fundamental na redefinição do nosso modelo de negócio. Quando fomos selecionados para fazer parte deste programa, estávamos numa fase em que já existíamos no mercado e já tínhamos vendas, mas ainda nos faltava uma visão global para o futuro do projeto. Assim, foi a partir desta visão crítica que nasceu a ideia de incluirmos o segmento das galerias de arte na plataforma, assim como outras fontes de receita associadas à utilização da plataforma, muito para além da simples comissão de vendas.
Como funciona a plataforma? Como é que um artista submete as suas obras?
A plataforma é muito simples e fácil de utilizar. Para o artista, basta registar-se, criar um perfil e submeter as suas obras para aprovação. Após este processo de pré-seleção, as obras ficam disponíveis para venda e podem ser selecionadas para um dos nossos leilões especiais, normalmente associados a uma das exposições físicas. As galerias parceiras têm um processo de submissão semelhante, sendo que nestes casos aprovamos o perfil previamente, e a partir daí todas as obras que submetem ficam automaticamente disponíveis. Estas entidades também podem criar leilões especiais isolados dos que são promovidos por nós, associados por exemplo às suas próprias exposições. Para o apreciador de arte, basta explorar o website (temos imensos filtros de pesquisa que ajudam neste processo!) encontrar a sua obra favorita e proceder ao seu pagamento diretamente na plataforma. O valor que é apresentado ao cliente inclui portes de envio, que são calculados já com o seguro de transporte e tendo em conta as dimensões da obra e a morada do destinatário. Temos também uma série de funcionalidades que ajudam na tomada de decisão, como o nosso serviço de curadoria, onde fazemos uma seleção de obras de acordo com as necessidades do cliente, ou a possibilidade de solicitar arte por encomenda, onde o cliente pode pedir a um artista específico uma obra com determinadas características.
Que papel tem a galeria física no negócio? Que obras são seleccionadas para exposição e de que forma?
A galeria emergentes dst desempenha um papel fundamental na integração com o mundo real, que no fundo é aquilo que a shair tem de mais inovador. Já existiam plataformas de divulgação e venda de arte online, mas nenhuma que permitisse, pelo menos de forma tão aberta, que o artista se candidatasse com essas mesmas obras a um lugar real de exposição. Fazemos exposições de 2 em 2 meses, e selecionamos as obras mais votadas do website conjuntamente com uma “repescagem” da autoria de um especialista convidado por nós. As exposições físicas são a combinação destas duas formas de seleção, e temos normalmente espaço para cerca de 70 obras na galeria emergentes dst. Também já fizemos exposições noutros locais, não só em Braga, e o processo de seleção é semelhante.

Já existem acordos com galerias internacionais. Têm permitido a venda de obras de artistas nacionais?
A integração das galerias internacionais, para já, é mais uma forma de aumentarmos a nossa oferta, permitindo a apreciadores de arte de toda a Europa o acesso a obras às quais, de outra forma, não conseguiriam aceder. Obviamente que os próprios clientes dessas galerias poderão interessar-se em explorar a oferta da shair, incluindo as obras de artistas portugueses, que neste momento representam a maioria dos trabalhos que temos disponíveis.
Quantas pessoas estão envolvidas no projecto e em que áreas?
Neste momento, a equipa é constituída por 4 pessoas, com formação na área do design, marketing, comunicação e curadoria. A plataforma foi desenvolvida pela innovation point, uma das empresas na área de Ventures do grupo dst – que até foi onde iniciei o meu percurso neste grupo empresarial, na altura através de estágio.
Que outros serviços presta a shair e que eventos organiza?
Para além dos serviços que referi acima, que no fundo são formas de apoiarmos a decisão de compra online, temos também os cheques-prenda para ajudar os mais indecisos a oferecerem um presente original. Aos nossos artistas e galerias parceiras, damos também a possibilidade de subscreverem uma conta premium, que lhes permite destacarem as suas obras nas áreas da plataforma para este efeito, assim como acederem a estatísticas relativas aos seus visitantes, à popularidade das obras que constituem o seu portefólio, entre outros dados pertinentes para quem utiliza a plataforma como ferramenta de comercialização. É também pertinente referir que, no caso de venda, somos nós que tratamos de toda a logística associada ao processo de transporte, sendo que o artista ou a galeria só têm de se preocupar com a embalagem – e até fizemos um vídeo para ajudar neste processo! Quanto a eventos, tentamos promover outras formas de expressão artísticas nas inaugurações das nossas exposições, onde já tivemos concertos, performances, entre muitas outras iniciativas, sempre inseridas no âmbito artístico/ cultural.

O negócio já é auto-sustentável? Quais são as fontes de receita da shair?
O negócio está perto de ser auto-sustentável, e as nossas fontes de receita passam pela comissão de 30% na venda de obras de artistas, sendo que no caso das galerias já temos uma percentagem de apenas 10%. As outras fontes de receita que nasceram sobretudo após o programa de aceleração da Startup Braga consistem na subscrição das contas premium por parte dos artistas e das galerias parceiras, e na adesão ao serviço de curadoria, ambas já referidas acima.
A shair pretende em termos físicos ficar por Braga, ou tem planos de expansão?
Temos planos de expansão para o Reino Unido, onde já abrimos atividade. Apesar de já termos algumas galerias internacionais inscritas na plataforma, o potencial de crescimento através de uma atuação presencial neste mercado é imenso, e vamos arrancar com este plano a partir de Setembro, através da presença em feiras de arte, por exemplo.
Fotos: DR