Ilustração – Marta Jacinto em entrevista

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Marta Jacinto nasceu em 1979, no Algarve. Em 2004, licenciou-se em Arquitetura. Desde muito cedo que o gosto pelas artes plásticas tomou conta de si. O desenho tem sido sempre a sua forma de expressão favorita, tendo frequentado, durante o ensino secundário, o curso da dominante de artes. Foi durante esse período que descobriu e experimentou novas técnicas que viriam a influenciar o seu percurso artístico. Começou, então, a fazer as suas primeiras exposições, que atualmente se estendem um pouco por todo o país. Em 2008, iniciou-se na ilustração infantil, na Martolita Ilustra. Atualmente, e em paralelo com a sua atividade de arquiteta, desenvolve trabalho na área das artes plásticas, com destaque para a ilustração, sobretudo, em livros infantis.

Tive o prazer de apresentar o mais recente trabalho da minha amiga Raquel Patriarca – A Barata Patarata e o Escaravelho Trolaró – quando foi lançado aqui no Porto. A Raquel fez uma parceria com a ilustradora Marta Jacinto para criar a colecção Livro com Bicho, que teve o seu início com A Abelha Zarelha, em 2012.

Hoje voamos até ao mundo da ilustração e vamos conhecer as motivações e trabalho de uma ilustradora. A Marta Jacinto é a convidada desta entrevista.

Marta Jacinto e Raquel Patriarca

Como é que a arquitectura é deixada para outro plano e é vencida pela ilustração?

Apesar de continuar a exercer arquitectura, de serem duas áreas que me completam, aos poucos fui-me apercebendo que a ilustração, o desenho em mim, é quase tão natural como respirar. Quando a magia e o encanto invadem o meu pensamento quase 24 horas por dia, ao ponto de me fazerem sentir especial, torna-se quase impossível não me render a este fabuloso mundo onde posso dar vida a todos os seres que habitam no meu imaginário.

Tropeças na ilustração infantil por acaso? Ou foi, de facto, um desejo tornado realidade?

Sem dúvida um desejo tornado realidade, pois desde que me entendo por gente, a minha verdadeira paixão e vocação foi sempre tudo o que estivesse ligado às artes plásticas, tudo servia para fazer arte. No entanto, só há relativamente pouco tempo é que descobri o meu verdadeiro potencial, a ilustração infantil, que podia materializar numa história todo o meu imaginário e partilhá-lo com o mundo.

Lês para crianças? Como é ler histórias ilustradas por ti? É «tarefa fácil» manter todos atentos?

Essa é uma das melhores partes do meu trabalho, porque tenho o retorno daquilo que faço. É um momento mágico. Através da leitura, consigo reforçar e expressar ainda mais as características que idealizei em cada personagem e cenário e, por isso, é muito fácil cativar a atenção de todos.

O futuro do livro infantil está assegurado? Contará sempre com a ilustração? Ou vês outros caminhos?

Decerto que sim, a ilustração sempre fez parte do nosso quotidiano, sempre esteve relacionada com tudo, é como se fosse o rosto das palavras e cada vez mais valoriza a leitura, não só os pequenos leitores como também os adultos, despertam cada vez mais o interesse pela riqueza da literatura infantil, onde se pode ler também uma história paralela.

Tens, com certeza, referências no mundo da ilustração de livros. Queres deixar alguns nomes?

Com certeza que sim, embora esta seja uma questão um pouco complicada de responder, pois gosto do trabalho de tantos ilustradores que seria injusto enumerar alguns e esquecer-me de outros igualmente importantes para mim. Gosto especialmente de ilustradores que seguem um registo e linguagem diferente do meu, formas novas e abordagens diferentes que muito admiro e fazem com que eu cresça profissionalmente e saia um pouco da minha zona de conforto. Há, no entanto, alguns ilustradores que, pela sua capacidade criativa, técnica e originalidade não poderia deixar de referir, como por exemplo: Oliver Jeffers, Roger Olmos, Rebecca Dautremer, Helga Bansch, André Neves, David Pintor, Paulo Galindro, João Vaz de Carvalho, Catarina Sobral, Yara Kono, entre tantos outros.

No trabalho que te juntou à Raquel Patriarca por duas vezes, o que mais destacas?

Sem dúvida, o enamoramento e o encantamento pelas histórias, a forma invulgar de ver o mundo e as coisas, uma realidade muito parecida com a minha, onde conseguimos tirar partido dos nossos pontos fortes e uni-los de forma extraordinária, tendo sempre presente o espirito de parceria e animação, é perfeito.

Que importância tem a ilustração de um livro infantil? Sentes que contas uma história paralela ao texto

É de extrema importância, pois a ilustração, para além de exemplificar/materializar o que está escrito, e dar vida ao texto, conta também uma história paralela, que pode ser também ela refrescante e intensa e atribuir ainda mais qualidades ao texto.

Vias-te a ilustrar b.d. ou livros para adultos?

Neste momento não, pois o que mais me cativa na ilustração é precisamente a parte infantil, é ir ao encontro dos pequenos leitores. Acaba por ser um processo mais criativo e estimulante no sentido em que me coloco no papel de uma criança, e dou asas à minha imaginação, é como que uma terapia revigorante.

Que tipo de leitora és e de que livros gostas?

Sou essencialmente uma consumidora de livros infantis, gosto de livros com boas ideias, com boas ilustrações, com textos simples e especiais, que me transmitam boas energias e me façam rir.

Numa pequena frase: quem é Martolita?

Um ser igual a tantos outros, apenas com a diferença, que dentro de mim habitam milhares de seres e coisas assim-assim.

Fotos: DR

As novidades acerca do trabalho da Marta Jacinto podem ser acompanhadas em artmartolita.blogspot.com ou no Facebook.

 

 

 

 

Roteiro de Arquitectura divulga os Açores através do melhor da arquitectura contemporânea

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A delegação dos Açores da Ordem dos Arquitectos criou um roteiro da arquitectura regional como o objectivo de divulgar e valorizar o património do arquipélago. O roteiro digital inclui um total de 51 obras implantadas em oito das nove ilhas.

Este roteiro online e bilingue integra obras seleccionadas por por um júri das várias candidaturas entregues por parte de arquitectos açorianos ou não, mas com obra feita nas ilhas.

O Presidente da Delegação dos Açores da Ordem dos Arquitectos, Carlos Marques, em declarações à Lusa, considerou que que este projecto será uma grande surpresa quer para os arquitectos, quer para o público em geral, visto que nos Açores existem obras de grande valor, mas que não são conhecidas.

O Secretário Regional do Turismo e Transportes, Vítor Fraga,  afirmou, na cerimónia de lançamento, que o Roteiro de Arquitectura dos Açores permitirá divulgar a Região, através da Internet, como destino turístico onde a arquitectura contemporânea também assume um lugar de excelência.

Vítor Fraga salientou que “é claramente uma ferramenta de promoção turística da Região, mas também é uma ferramenta de promoção da qualidade, da excelência, do trabalho que é desenvolvido pelos arquitectos na Região Autónoma dos Açores, não só aqueles que residem cá, mas todos aqueles que acabam por desenvolver trabalhos para a Região”.

O Secretário Regional destacou ainda a importância do Roteiro de Arquitectura dos Açores estar disponível em formato digital, dada a importância cada vez maior da promoção através do online.

“Não nos podemos esquecer que, em termos daquilo que é o sector do turismo, a preponderância do digital é cada vez maior, dia após dia, e hoje, 76% dos turistas que se deslocam à Região recolhem a informação precisamente através da Internet”, afirmou.

Vítor Fraga considerou, por isso, que esta ferramenta pode “potenciar a captação de fluxos turísticos, naturalmente associados a um nicho de mercado específico, e com isto, mais uma vez, se demonstra que a construção de um verdadeiro destino turístico faz-se com o contributo de todos”.

Actualmente, existem 242 arquitetos a trabalhar nos Açores, 13 dos quais são estagiários.

 

O Roteiro vai integrar o mais importante site de promoção da região, o Visitazores.com

O Roteiro de Arquitectura dos Açores está acessível em http://roteiroarquitectura.pt/

 

Fontes: Açoreano Oriental, RTP, Lusa, Delegação dos Açores da OA e Governo Regional
Foto: Requalificação Urbanística Baía de São Lourenço (Arquitectos – Monteiro, Resendes Sousa Aquitectos, Lda – Ilha de Santa Maria, 2009 – 2012)

Olga Studios – Ambição e risco de três jovens que dominam a área da projecção de vídeo

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A Olga Studios nasceu da vontade de Rui Cardoso, Filipa Falcão e Ivo Peralta criarem uma empresa na área dos vídeos digitais, como são os vídeos a três dimensões e o vídeo mapping. Os três trabalharam juntos na mesma empresa durante quatro anos, mas as circunstâncias da vida originaram uma nova oportunidade em termos profissionais.

Há um ano foram contactados para fazer um trabalho para a Central de Cervejas e os resultados positivos valeram a criação da companhia localizada na baixa lisboeta. Rui Cardoso afirma que “não houve reuniões para montar o negócio”. A partir desse momento foi feito algum investimento que se tem mantido devido aos trabalhos que foram surgindo.

No início tiveram algum receio de apostar no projecto por causa da conjuntura no país. Filipa Falcão explicou que “sentimos menos disponibilidade das pessoas para gastar dinheiro no nosso tipo de trabalho”. No entanto, acreditam que as empresas irão investir em imagem e realizar mais eventos.

A ambição é a marca dos três jovens que pretendem crescer sustentadamente através da apresentação de vídeos em eventos corporate, mas também naqueles que são abertos ao público. A principal característica da Olga Studios é o seu site, bem como a qualidade que gera confiança no trabalho desenvolvido.

Os jovens consideram que o empreendedorismo jovem beneficia a economia do país. Ivo Peralta considera que “arriscar é positivo”. Por seu lado, Rui Cardoso tem a noção que a qualidade necessita de estar presente nas empresas que nascem em Portugal.

Fotos: DR

 

 

 

Maria Manuel Viana em entrevista

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Maria Manuel Viana nasceu na Figueira da Foz, em 1955, filha de Marcos Luís Lima Viana, conhecido pedagogo e democrata. Estudou Filologia Românica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi professora do ensino secundário durante 35 anos, na Figueira da Foz, em Castelo Branco e em Lisboa. Em Castelo Branco, foi coordenadora do Centro de Área Educativa, presidente da Comissão Distrital de Protecção de Menores, candidata a deputada pelo Partido Socialista, vereadora da cultura e coordenadora do Gabinete para a Igualdade. Escreveu os romances A Paixão de Ana B., A Dupla Vida de Mª João, Damas, Ases e Valetes (com Ana Benavente), O Verão de todos os silêncios, Teoria dos limites e Geografia do mundo, separata de Perda de Inventário, de Marta Chaves. Traduziu dois Prémios Nacionais da Crítica de Espanha, O dia de amanhã de Ignacio Martínez de Pisón e A filha do Leste, de Clara Usón, e Os belos dias de Aranjuez de Peter Hanke. Tem dois filhos, David e Manuel.

- Consegues descrever o momento em que decidiste começar a pôr no papel as histórias que trazias contigo? Como se deu o click?

– Não houve click e o momento zero – aquele em que se passa da escrita à ideia da publicação – não foi, sequer, decidido por mim. Comecei a publicar muito tarde, com 40 e tal anos, e não o teria feito sem a pressão de uma extraordinária editora, a Elsa Ligeiro, a agente cultural mais empenhada que conheço, uma mulher que montou uma editora, uma livraria e uma revista literária numa cidade do interior e que passou a vida a fazer a ponte entre Castelo Branco e Coimbra, batendo-se contra os poderes instituídos, com uma força e um entusiasmo que não perdeu, ao fim de 16 anos a lutar quase sozinha. Eu era então vereadora da cultura e gostava da determinação e dos projectos da Elsa – trabalhámos juntas muitas vezes, durante o meu mandato. Falo verdade (por muito que pareça uma história construída a posteriori) quando digo que a ideia de publicar um livro nunca me tinha ocorrido, por achar que o que eu poderia escrever já tinha sido escrito por outros e muito melhor do que eu o conseguiria fazer. A Elsa (para quem eu já escrevera uns textos, na revista Artes e Ideias Alma Azul) disse-me um dia que queria publicar um romance meu. Nessa altura, a minha vida era muito complicada, fazia muitas coisas ao mesmo tempo, na Câmara, no Centro de Área Educativa de que era coordenadora e no então recém criado Gabinete para a Igualdade, na luta contra a violência sobre mulheres, crianças, idosos, pessoas de outras etnias, emigrantes, etc. E ainda fazia política activa, era membro do Secretariado da Federação e da Comissão Nacional do PS. E, last but not the least, tinha filhos e enteados adolescentes, gostava de viajar (o meu marido era secretário geral de uma organização internacional, o que o levava a viajar constantemente) e de receber amigos em casa. Quando olho para trás, para esse tempo, parece-me que os dias tinham muito mais do que 24 horas e que vivia demasiado intensamente. Escrever um romance não cabia nessa agenda difícil e ainda hoje não sei porque disse que sim – talvez por isso seja tão fragmentário, tão diarístico, esse meu primeiro livro, escrito aos poucos, nos intervalos, à mão, em folhas soltas. Curiosamente, sem que eu disso me tivesse apercebido enquanto o escrevia, acabou por corresponder a várias rupturas na minha vida: afastei-me da luta partidária, separei-me e fui viver para outra cidade. Não é (e suponho ser a primeira vez que o digo) uma memória feliz.

- Porque escreve alguém? O acto da escrita é sempre uma necessidade?

Não creio que se possa generalizar, as pessoas escrevem por motivos diversos – há quem acredite ter um mandato divino, quem julgue fazer a diferença, quem goste (apenas) de contar histórias, quem considere um dever de memória, quem pense ter uma história única e incrível, quem queira partilhar ideias, quem sinta a escrita como uma compulsão. Suponho que foi o Garcia Márquez quem disse um dia: escrevo para que gostem de mim. Parece-me uma boa resposta, embora duvide que a escrita tenha tal capacidade.

- As escritoras são esquecidas no nosso país? Que papel tem uma escritora como tu na nossa sociedade?

Não são as escritoras, são as mulheres de um modo geral. Mais do que esquecimento, falaria em rasura, em tentativa de menorização. Vi, há dias, um estudo da European Women’s Lobby: as previsões indicam que, na ausência de medidas estruturais, serão necessários mais de 100 anos para eliminar a disparidade de género no emprego, no trabalho remunerado e não-remunerado (30 anos para atingir a igualdade no emprego, 70 anos para salários iguais para homens e mulheres e 40 anos para a partilha equitativa das tarefas domésticas). Na literatura passa-se o mesmo, como em todas as áreas – para ser inteiramente justa, talvez na literatura a desigualdade seja ligeiramente menor; o campo mais igualitário que conheço é mesmo o do exercício da profissão de professor.

As mulheres vendem menos, dizem. Há a literatura universal e há a literatura feminina e as pessoas tomam como normal notícias em que, acerca de um festival literário com 100 escritores, apenas se nomeiem homens. Ou que, num outro, se diga que o escritor x e y apoiam determinada candidatura e que várias escritoras também, a b, a c e a d. Nós somos várias, eles são escritores singulares, individuais, particularizados. Nós ou somos femininas ou feministas ou pós-feministas. Há etiquetas que se nos colam à pele e serão precisos muitos anos para mudar as mentalidades.

Sou uma escritora com poucos leitores, não creio ter qualquer papel. Poderia deixar de escrever e haveria pouca gente a dar por isso, como na comparação entre o binómio de Newton e a Vénus de Milo. Sou, fundamentalmente, uma leitora.

- A violência doméstica contra a mulher é um flagelo que te angustia. O que pode ser feito para parar isto?

Educar, educar, educar. Educar para a cidadania, para a igualdade, contra a violência. Dei aulas durante 35 anos e abordei sempre esse problema – muitas alunas me respondiam que era uma forma de amor, o ciúme era a prova de serem amadas. É preciso desconstruir os estereótipos, acabar com a reprodução do que se passa em casa com pais violentos e agressivos. Educar tanto as raparigas como os rapazes. Não permitir que anúncios, como os da Flora e da Marta ou do Futre passem na televisão, uns porque normalizam a violência, outros porque tornam as mulheres objectos. Acredito nas estruturas locais, de proximidade, onde os serviços se articulam de modo a dar respostas rápidas a quem tem que sair de casa, com filhos, perdendo o emprego e os amigos. No Gabinete para a Igualdade, que durou muito pouco porque o governo que o instaurara caiu, trabalhávamos em conjunto com a Educação, a Saúde, a Segurança Social, o Instituto do Emprego e Formação Profissional, a PSP, A GNR, o tribunal, as CPCJ, as Câmaras, as Juntas de freguesia e um escritório de advogados pro bono, além do apoio constante da APAV. Isto é, todos estavam implicados e agiam concertadamente e as vítimas sabiam que tinham não só quem as ouvisse como quem tentasse encontrar uma saída rápida e estruturada para escapar a uma situação invivível. Ouvi histórias terríveis, de maus tratos, de espancamentos, de violações constantes, de ameaças de morte: vi uma mulher retalhada por uma gilette para não “lhe passar pela cabeça ir para a cama com outros”, escutei uma mãe ainda jovem que chorava porque o marido obrigava as duas filhas de ambos, de 6 e 8 anos, a fazer-lhe sexo oral todos os dias, duas crianças, de 8 e 10 anos, que fizeram a pé 4 quilómetros para me contar o que o pai fazia à mãe, dois velhos pais obrigados pelos filhos a comer na gamela dos porcos, como também ouvi histórias de mulheres que estavam cansadas de justificar as nódoas negras com quedas na neve e de se calarem por receber mais uma jóia ou um casaco de peles. A violência é socialmente transversal, não escolhe idade, nem género, nem religião. Por isso digo sempre que só educando e integrando as boas práticas no quotidiano é que teremos uma sociedade justa e igualitária.

- Montar o teu último romance, Teoria dos Limites, exigiu muito estudo e, certamente, dedicação. Num livro que reúne várias disciplinas combinadas, como surge a ideia da história?

Todos os meus romances, excepto A paixão de ana B., começaram por ser contos, publicados em revistas ou colectâneas. O que me surge primeiro é uma determinada situação: uma viagem que corre mal, um funeral, o fim de uma relação, o rapto de uma criança, a vida num universo concentracionário, a exasperação do quotidiano. A partir desse momento, fico obcecada com os nomes: o título do livro e os das personagens. Enquanto não decido, sinto-me incapaz de escrever – o que sucede a uma Mariana nunca poderia suceder a uma Vanessa, por exemplo.

Sou muito lenta a escrever, não só porque confirmo tudo como leio muitos documentos e textos sobre o tema – já expliquei que sou obsessiva. Verifico no Google maps se as ruas são aquelas, onde vão dar, se há lojas ou cafés no percurso das personagens. No caso de A teoria, foi especialmente difícil porque eu nada sabia sobre o Leibniz e estudei tudo o que encontrei, até os seminários do Gilles Deleuze no YouTube ouvi. Pedi uma conferência do Manuel António Pina a uma filha para falar do Winnie the pooh, que é recorrente nos meus livros. Li o Discurso sobre a teologia natural dos chineses , estudei tanto o tipo de árvores dos cemitérios como o teorema de Godel, segui um blogue de um escritor para construir a figura do meu, do homem que vai ser enterrado, assim como me baseei na Julia Kristeva e no seu Soleil Noir. Dépression et mélancolie, ouvi muitíssimo Bach antes de me decidir pela partita para piano número 4, na versão de Glenn Gould. Consultei centenas de vezes (não é exagero) o DSM para perceber as perturbações desta ou daquela pessoa. Saio esgotada da escrita de um romance mas sabe-me bem regressar depois à realidade, ao dia a dia, às conversas com os meus filhos e amigos. Há como que um desdobramento de personalidade (deve ser por isso que tantas personagens minhas sofrem dessa perturbação), sou a Mariana e a Sara e a ana B. e a MªJoão e o João Caetano e fico muito feliz quando volto a ser a Maria Manuel, que gosta muito de filmes, de livros e que tem a vida mais normalzinha que imaginar se possa.

- Escreveste este trabalho entre Portugal e o Dubai. Sentiste necessidade de te isolar?

Foi o Dubai como podia ter sido Nova Iorque ou Florença ou as Canárias – era o sítio onde o David, o meu filho mais velho, estava a trabalhar, nessa altura, e eu queria muito estar com ele. Houve quem me criticasse por ter referido o Dubai, onde os direitos humanos são o que sabemos. O Dubai Dubai não existiu, quase – enquanto o meu filho trabalhava, na recepção do hotel, eu estava fechada num dos quartos a escrever. O Verão de todos os silêncios, que se passa nas Canárias, também foi por causa do David, que estava lá, então. Ou a parte da Argentina, onde fomos, eu, o meu filho mais novo, Manuel, e o pai dele comemorar os anos do David. O maior isolamento é em casa, só mesmo quando já cheguei ao último capítulo, ao final, é que preciso de estar com pessoas de quem gosto muito e que me fizeram falta durante o tempo que levei a escrever o livro.

- Antes de lançares o livro, contaste com a leitura atenta e amiga de algumas escritoras. Amizades assim ajudam-te muito?

A palavra que me ocorre sempre é mátria: três escritoras, a Inês Pedrosa, a Julieta Monginho, a Patrícia Reis, a quem me ligam laços de grande amizade e cumplicidade, e que lêem e relêem, sem nunca se queixarem, sugerindo alterações, corrigindo gralhas, lendo de forma muito inteligente o que lhes envio, ainda cheia de dúvidas. O que me dizem, o que propõem, as observações que fazem são-me essenciais, nunca publicaria sem a ajuda, o apoio, o olhar crítico delas. Funcionam como a rede que me ampara, a mim funâmbula, com medo de tropeçar.

Não é só a estas três escritoras, no entanto, que recorro: o meu filho mais novo, o Manuel, é sempre o primeiro leitor e ajuda-me muito na procura de textos de apoio, assim como uma jovem colega dele, a Inês Fialho. E devo imensíssimo ao meu grupo de amigos, que escuta as minhas dúvidas com uma paciência que nunca deixará de me espantar e que se desdobra para me explicar o que cada um sabe e eu não: a Ana Benavente, com quem até já escrevi um livro a meias, a Graça Aníbal (leitora atentíssima), a Isa Duarte Ribeiro, minha consultora para as questões artísticas, a Bia e o Carlos Veiga, meu editor mas sobretudo meu grande amigo, a Margarida Lages, sempre entusiasta, o meu primo Marcelo e o meu ex-marido, António Abrunhosa (a quem, aliás, a Teoria é dedicada), ambos com um saber enciclopédico que muito me ajuda. É uma rede grande de apoio, de suporte, de amparo, durante os anos que demoro a escrever um livro. Nenhum livro se escreve sozinho – um livro escreve-se com muitas coisas: muitos outros livros já lidos e amados, alguns filmes e certas músicas. E com os amigos, os mais íntimos, os mais próximos, os mais cúmplices, primeiríssimos leitores e ouvintes, copistas e críticos, anjos da guarda no difícil e esquizofrénico desdobramento identitário autor-personagem que que todo o escritor vive.

mariteo[1]Teoria dos Limites, uma edição Teodolito, livro que li recentemente.

A realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, diz, a certa altura, uma das personagens deste romance. O aqui narrado parte da concepção fantasmática de um génio, uma espécie de mundo de ficção científica, com dois universos paralelos habitados por mónadas, essas substâncias simples, esses pontos metafísicos, essas individualizações infinitamente pequenas, como quartos sem portas nem janelas dentro de uma pirâmide cuja base tenderia ao infinito, onde bastaria uma ínfima coisa para passar de uma realidade para outra, e onde cada um de nós vê o seu duplo e pode escolher entre ser herói ou banal, amar ou resignar-se, sentir prazer ou raiva com a felicidade alheia, lutar pela liberdade ou jogar as regras do jogo, viver com dignidade ou ser passivo, aceitar a ignomínia ou revoltar-se, julgar o outro pondo-se no lugar dele, adoptar muitas perspectivas para perceber o todo, perguntar-se em que é que a ficção supera a realidade, se na beleza ou na construção não tão utópica quanto poderia parecer do melhor dos mundos possíveis.

Fotos: DR

Fundação Oriente distinguida pelo Governo japonês

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A Fundação Oriente foi distinguida com o Diploma de Mérito atribuído pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros nipónico, pela sua contribuição na promoção da amizade e do entendimento mútuo entre Portugal e o Japão.

esta distinção oficial é um acto de reconhecimento do trabalho desenvolvido pela nossa instituição que muito nos honra e estimula a continuar a nossa missão para consolidar as melhores relações entre Portugal e o Japão e entre a Europa e a Ásia

Para Carlos Monjardino, Presidente da Fundação Oriente, “esta distinção oficial é um acto de reconhecimento do trabalho desenvolvido pela nossa instituição que muito nos honra e estimula a continuar a nossa missão para consolidar as melhores relações entre Portugal e o Japão e entre a Europa e a Ásia ”.

A Fundação Oriente tem-se empenhado em divulgar a cultura japonesa nas suas diversas vertentes, quer com a organização de exposições e espectáculos de artistas contemporâneos japoneses, quer com a realização de workshops e cursos ligados à história e práticas tradicionais daquele país. A exposição permanente do Museu do Oriente integra um importante núcleo do Japão, onde se incluem peças raras de arte namban.

É a partir da história de encontros e mútuas influências entre Portugal e a Ásia que a Fundação Oriente desenvolve a sua actividade, que é agora reconhecida pelo Governo do Japão. O galardão será entregue pelo Embaixador do Japão, Hiroshi Azuma, em data a anunciar.

 

Fonte: Fundação Oriente
Foto: Turismo de Portugal

Coimbra dos amores é jóia da Europa

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Desengane-se quem acha que só o Porto ou Lisboa são considerados melhores destinos para se conhecer e visitar. Desta vez, a primeira capital do país e a eterna cidade dos estudantes – Coimbra, é considerada pelo site European Best Destinations das “melhores jóias escondidas na Europa”.

O site que por norma premeia os melhores locais da Europa para visitar divididos pelos mais diversos temas – desde paisagens a pontes – escolhe Coimbra como uma cidade com uma “mística especial” que só os acontecimentos carregados de história lhe podiam conferir.

Com a universidade mais antiga de Portugal o site ressalva que a cidade une “memórias de estudantes despreocupados e esperançados”. Museus, petiscos, conhecimento e história é o que Coimbra oferece a quem lá passa e sim, “Coimbra não se explica, Coimbra sente-se”.

Para a além de Coimbra o site premeia também as cidades de Piran (Eslovénia), Portofino e Burano (Itália), Hvar (Croácia), Dinant (Bélgica), Mellieha (Malta), Tenby (País de Gales), Sveti Stefan (Montenegro), Ploumanac’h, Eguisheim, Cap Ferret e Colmar (França). Esta não é a primeira vez que uma cidade portuguesa aparece referenciada neste site sendo que o Alentejo e o Douro são dos melhores destinos vinícolas e as cidades do Porto e do Algarve são destacadas como destino mais “in”.

 

Fonte:  European Best Destinations.“ EUROPE’S BEST HIDDEN GEMS 2015”
Avaiable: http://www.europeanbestdestinations.com/best-of-europe/best-hidden-gems-in-europe-2015/ Accessed: 03/09/2015

 Foto: UC

Joana Lobo Anta em entrevista

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A música e a pintura são as grandes paixões de Joana Lobo Anta. A artista tem tido sucesso nas duas actividades, mas a sua maior aposta é o jazz. O percurso na música já originou convites para actuar fora de Portugal. Na entrevista deixa um conselho aos mais novos para colocarem os pés na terra, mas também para não desistirem daquilo em que acreditam.

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Como nasceu o gosto pela pintura e música?

Com três anos decidi que queria ser artista plástica e aos 16 comecei a cantar. Nessa altura ainda duvidava das minhas capacidades, mas fui aperfeiçoando a minha voz. Canto dois estilos diferentes. Tenho um grupo que vai do Jazz ao Blues, mas também música electrónica.

Em que locais costuma actuar?

A minha carreira tem evoluído com pés firmes e humildes. Costumo cantar em eventos privados, hotéis de luxo, bares na área da grande Lisboa.

Neste momento qual é a actividade que dedica mais tempo?

No Verão aposto mais na música por questões logísticas. A partir dessa altura até ao Natal o ritmo é sempre mais acelerado. Neste momento não dedico muito tempo à pintura.

O Jazz tem tido receptividade por parte do público?

As pessoas são bastante receptivas em relação ao som porque gostam de Jazz. Não é o estilo mais comum na população portuguesa, mas é o que se adequa mais à minha voz.

Gostava de cantar fora de Portugal?

Estou a trabalhar em contactos para actuar lá fora. Os sítios onde gostaria de cantar são Estados Unidos, Dubai e África do Sul.

Como analista o estado da cultura no nosso país?

As pessoas queixam-se que há falta de cultura, mas existe pouca iniciativa para procurar. Há cada vez mais artistas, ideias, sendo que não é difícil de lhes aceder. O problema é que não temos um ministério activo e não haver verbas.

Existem condições para ser artista em Portugal?

Há muito pouco apoio, mesmo por parte dos privados.

Quais são as características necessárias para ser boa pintora e cantora?

Trabalhar e estudar. Na música aprendi com as bandas e os músicos que fui ouvindo. Na pintura e na música é necessário treinar e não ter medo de fracassar, além de ter uma boa cultura visual e auditiva.

O talento também é imprescindível?

Também é preciso ter talento. Isso significa meter alma e paixão naquilo que se faz porque o resto vai sendo delapidado.

Como avalia a música em Portugal?

Está cada vez melhor nos diversos estilos. Tem bastante qualidade.

Costuma cantar em português ou inglês?

O inglês é a forma de que gosto mais de me exprimir porque desde pequenina sempre me habituei a ouvir música estrangeira.

Que conselhos dá aos mais jovens que se iniciam nestas duas áreas?

Tem a ver com a forma como nos apresentamos. Escolher as músicas que mais se adaptam ao registo vocal. A imagem é importante. Ter um bom vídeo, logotipo. É preciso bater as portas. Nunca desvalorizar os sítios onde actuamos porque pode nascer um novo contacto rumo ao próximo passo. Na pintura aprender novas técnicas, soltar mais o traço. Os jovens devem fazer aquilo que entenderem porque nunca se cai. No entanto, devem ter sempre os pés assentes na terra e não pensar que alguém lhes vai levar o barco a bom porto. Têm de remar muito para conseguirem os objectivos.

Prefere tratar da sua carreira ou ter uma equipa?

Eu sou manager e agente. Trato dos contactos com os clientes, da facturação, dos músicos que vão trabalhar comigo, da imagem gráfica e também faço os cartazes. Tenho agentes que trabalham comigo, mas não exclusivamente. Faço grande parte dos contactos.

Qual a sua opinião relativamente aos concursos televisivos?

Quando participei no Factor X percebi que estamos perante um escrutínio muito pesado. As imagens são manipuladas. Há promessas em relação ao que irão fazer com os artistas. Não vejo a máquina operar da mesma forma que acontece no Reino Unido ou nos Estados Unidos.

Acha que os grandes nomes da música portuguesa vão deixar de ter sucesso?

Não. Isto é um círculo onde se entra e sai rapidamente. O público está mais receptível à música nacional porque o género de som das bandas nacionais está mais diversificado. Hoje em dia temos grandes produções.

Um cantor deve apostar em vários géneros?

Um músico deve tornar-se fiel a um registo. Um bom exemplo é a Ana Moura. No entanto, passei por vários estilos vocais. Não consigo ser sempre a mesma coisa.

Qual é o seu registo na pintura?

Não consigo ser abstracta. Adoro a figura humana. É um estilo associado à pop-art.

Qual das duas actividades exige mais perfeccionismo?

A pintura porque gosto das coisas feitas com rigor.

Em qual costuma ter mais ideias?

Na pintura gosto de experimentar mais coisas. Se pudesse ficava durante várias horas a pintar. A música também tem o efeito de improvisar, em particular os Live Act de música electrónica. Costumam sair momentos inspiradores. A música é mais fácil porque sai tudo de imediato.

Uma artista consegue viver exclusivamente do seu trabalho?

É preciso ter nervos de aço para viver da arte. Não é fácil porque se trata de uma profissão instável. Grande parte do meu tempo é absorvida pelas minhas actividades. Tudo vale a pena porque o mundo precisa de artistas. Quem quiser ser artista tem de se informar junto das pessoas certas e ter uma atitude inteligente.

 

Fotos: 1) Paulo Segadães 2) Maria Rita

 

 

Festas do Povo de Campo Maior apresentam candidatura a Património Cultural Imaterial da Unesco

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Na passada terça-feira, realizou-se, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, a cerimónia oficial de entrega do dossiê da candidatura das Festas do Povo de Campo Maior a Património Cultural Imaterial da Unesco. O dossier foi simbolicamente entregue ao presidente da Câmara Municipal de Campo Maior, Ricardo Pinheiro, por António Ceia da Silva, presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo, o organismo que lidera a candidatura.

O dossier será agora entregue pela Câmara Municipal de Campo Maior ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, que formalizará a candidatura junto da UNESCO.

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As Festas do Povo consistem na decoração das ruas de Campo Maior, sobretudo o Centro Histórico, com flores de papel e outros objectos em cartão e papel, feitos pela população. Trata-se de um evento tradicional único, e que já alcançou uma notoriedade elevada a nível nacional e internacional.

É uma celebração que, por tradição, só acontece quando o povo quer, pois a sua realização depende do voluntariado e da força de vontade dos campomaiorenses. A preparação é feita rua a rua, sendo que o trabalho desenvolvido em cada uma delas fica em segredo, mesmo para amigos e familiares dos moradores, e só é dado a conhecer na noite da “enramação”.

As últimas Festas do Povo tiveram lugar em 2011 e trouxeram a Campo Maior cerca de 1 milhão de pessoas, vindas de todo o país, da vizinha Espanha, da comunidade emigrante e até mesmo de outros países europeus. Foram decoradas 104 ruas com flores de papel, o equivalente a uma distância de aproximadamente 20 km. No total, foram utilizadas perto de 30 toneladas materiais e o trabalho voluntário de cerca de 7500 pessoas, números que demonstram a vitalidade e importância que este evento tem para as gentes de Campo Maior.

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A História

Alguns indicadores históricos remetem a génese destas comemorações para a Festa em honra do padroeiro da vila, S. João Baptista, realizada pela primeira vez em 1893 e organizada por uma Comissão Popular. Essa Festa, em honra de S. João Baptista, realizou-se anualmente até 1898. Estima-se que, posto este período, só voltou a acontecer em 1921, por vontade do povo, e que tenha surgido daí o nome de Festas do Povo. A festa realizava-se no início de Setembro e durava quatro dias. O papel apareceu como elemento decorativo e a iluminação eléctrica permitia que a Festa decorresse noite dentro. Tanto em Portugal como em Espanha, os impactos foram sentidos nos concelhos que mais perto estavam da Festa.

O actual modelo de Festas realizou-se por 20 vezes. Em apenas 15 anos, entre 1989 e 2004, o número de visitantes das Festas do Povo duplicou. O sucesso de todas as edições deve-se à surpreendente diversidade da decoração das ruas, de beleza inigualável. A arte das flores de papel e as Festas do Povo de Campo Maior são um Património cultural único no Mundo.

A realização das Festas, embora tenha sido progressivamente adaptada à evolução social e histórica, manteve-se, desde o início, fiel ao espírito associativo, altruísta, artístico, e hospitaleiro, que constituem a forma de estar dos campomaiorenses.

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A organização

Os moradores de cada rua reúnem-se e após terem inscrito a sua rua junto da Associação das Festas, elegem um coordenador geral dos trabalhos ao qual se dá o nome de “Cabeça de rua”.

O “Cabeça” de cada rua é responsável pela orientação, distribuição das tarefas e escolha do local para a realização dos trabalhos. A par das toneladas de papel, da cola, dos arames, das cartolinas, da esferovite, dos agrafos, encontra-se todo um trabalho de preparação que, durante meses, é organizado com a finalidade da concretização das festas com sucesso.

Ao longo de vários meses, durante todo o processo de execução das flores e enfeites de papel, existe uma forte cooperação entre os moradores de cada rua. Estes preparativos começam a fazer parte do quotidiano dos campomaiorenses, sendo também um excelente momento para os responsáveis autárquicos e outras personalidades da vila se empenharem, pois patrocinam de várias formas todos os eventos socioculturais que decorrem durante a semana das Festas, contribuindo para a promoção do desenvolvimento social e económico da vila.

Trabalha-se noites e noites a fio e discutem-se projectos, ideias e métodos a seguir. É de referir que, durante estas noites, o trabalho não é a única palavra de ordem. O convívio entre os moradores de cada rua e, como não podia deixar de ser, “ as saias” enchem as casas onde os trabalhos decorrem.

De uma forma geral, são as mulheres que começam a trabalhar o papel. Nas noites frias de Inverno, umas já muito experientes, outras a iniciarem-se nesta arte de trabalhar o papel e sempre acompanhadas pelo olhar atento das mais velhas, iniciam o minucioso fabrico das flores e enfeites de papel. Cortando e recortando, começam a surgir os primeiros “torcidos, trapaças e franjas” e outros enfeites, que irão enfeitar as ruas e que servem de base a toda a sua decoração. O espaço doméstico que serve de local para a realização dos trabalhos não é sempre o mesmo e a mistura desses diversos espaços vem contribuir para um reforço dos laços existentes.

Aos homens cabem os trabalhos mais pesados, nomeadamente, a carpintaria e toda a montagem desse mesmo material. São eles também com a ajuda de algumas mulheres que, na noite da “enramação”, carregam flores e penduram-nas, sob o olhar atento de todos e sob a orientação do “cabeça”.

Na noite que antecede o inicio dos festejos, erguem-se os paus, pintados ou cobertos com folhas de papel, que sustentam os tectos das ruas e todos os outros ornamentos.  “Enramar” uma rua numa noite não é tarefa fácil e parece quase impossível, mas tudo tem de estar pronto antes do Sol nascer. Para isso, recorre-se à ajuda de amigos e familiares que vêm de fora. Nesta noite, poucos são os campomaiorenses que se deitam,  pois ninguém quer deixar de participar no espectáculo da “enramação” e no início das Festas das Flores.

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Quando os Campomaiorenses terminam a enramação da rua, juntam-se para a primeira arruada antes da chegada dos forasteiros. Cantando às saias vão conhecer as outras ruas de pandeireta e castanholas na mão (por vezes antes da arruada, todos juntos, carregam energias com um pequeno almoço bem Alentejo na rua).

Ao romper do Sol, chega a abertura das festas: ouvem-se pandeiretas e castanholas e começa-se a bailar e cantar as “saias”. Para tornar as festas mais animadas e diversificadas, são convidados vários artistas do distrito a participar com a sua música neste evento. A gastronomia típica da zona também ganha especial destaque durante os festejos.

O elevado número de visitantes que o evento atraí promove a interacção cultural entre os indivíduos. As Festas das Flores constituem uma forte ligação entre as culturas. A localização privilegiada de Campo Maior torna o evento num eixo entre a Cultura Portuguesa e a Espanhola, bem como uma ligação estreita entre as diversas regiões do país.

As Festas do Povo são o resultado de um trabalho que exigiu muitas horas de preparação, muitos custos e, sobretudo, muita força de vontade e companheirismo

 

Fotos: DR
Fonte: Associação das Festas do Povo de Campo Maior, Centro Cultural Campo Maior e Câmara Municipal de Campo Maior

Feira do Livro do Porto com homenagem a Agustina Bessa-Luís

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Está aí mais uma Feira do Livro do Porto, entre 4 a 20 de Setembro, nos jardins do Palácio de Cristal e Biblioteca Almeida Garrett. A organização, à semelhança do ano passado, é da responsabilidade da Câmara do Porto.

 

Sessão dedicada a Agustina

No ano que a Feira do Livro do Porto homenageia a escritora Agustina Bessa-Luís, o ciclo de debates Um Objeto e Seus Discursos por Semana muda-se, em setembro, para o recinto da Feira e dedica-lhe a sua primeira sessão, dia 5, nos jardins do Palácio de Cristal.

A Avenida das Tílias transformou-se na alameda dos escritores, primeiro com Vasco Graça Moura, a quem foi simbolicamente dedicada uma tília e uma placa com um excerto de um dos seus poemas na Feira do Livro 2014. Este ano a homenageada será Agustina Bessa-Luís, a quem será dedicada uma placa de homenagem, referência maior da literatura portuguesa. Três convidadas particularmente ligadas à sua vida e obra irão falar do percurso da escritora: Mónica Baldaque, Isabel Ponce de Leão e Zita Seabra.

O início está marcado para as 18,00 horas com entrada é gratuita.

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O festival literário programado este ano para a Feira do Livro do Porto incluirá dez debates, nos quais participarão grandes nomes da literatura e da cultura portuguesas, tais como Richard Zimler, Valter Hugo Mãe, Sérgio Godinho, Álvaro Magalhães e Francisco José Viegas.

Este ano a programação cultural parte de uma reflexão sobre a felicidade, tema transversal às actividades do Pelouro da Cultura da autarquia.

“O lento e incendiário caminho do humor”, “Números Felizes”, “Os Amores da Escrita” e “Memórias Políticas: um passado feliz?” são alguns dos títulos destes debates, “a partir dos diversos géneros e veículos da literatura”, explica o vereador da Cultura Paulo Cunha e Silva.

Não perca toda a programação, a ser disponibilizada brevemente no site da Câmara Municipal do Porto e no facebook da feira do livro.

 


Fontes: http://www.porto.pt/noticias/festival-literario-com-grandes-nomes-da-cultura-nacional-
e http://www.umobjetoeseusdiscursos.com/

Fotos: DR

João Pinto Coelho em entrevista

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João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967. Licenciou-se em Arquitetura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Passou diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional perto de Nova Iorque e dos cenários que evoca neste romance. Em 2009 e 2011 integrou duas ações do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto. No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio. A esse propósito tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012. Perguntem a Sarah Gross é o seu primeiro romance e finalista do prémio LeYa em 2014.

Escrever foi uma necessidade que foi crescendo dentro de ti ou uma consequência natural do teu percurso?

As duas coisas, se bem que a vontade de passar uma ideia para o papel seja muito mais tardia do que a a minha relação com a leitura. E é essa relação que delineia o percurso que me fez autor. Poderia dizer que comecei a escrever este romance a partir do momento em que li o meu primeiro livro. Sempre tive a tendência para idealizar alternativas para as histórias que lia, projetar os enredos dos livros que me passavam pelas mãos para outros contextos, soluções diferentes. A leitura é um ato criativo, a verdade é essa, e por isso digo que o livro que escrevi tem todas as páginas que li.

Auschwitz é local central no teu livro. Queres falar-nos um pouco da tua experiência enquanto investigador sobre o Holocausto?

Dividiria essa experiência por dois períodos distintos. Uma primeira fase inclui tudo o que li – que foi muito – sobre o Holocausto entre o final da adolescência até ao ano de 2009. A partir daí a aproximação tornou-se muito mais aprofundada, quer por causa das ações do Conselho da Europa em que participei e que me colocaram dias a fio a trabalhar em Auschwitz com alguns dos mais proeminentes investigadores internacionais sobre o Holocausto, quer pelo trabalho de investigação a que me obrigou a escrita do romance. Foram 3 anos de pesquisa intensa, o regresso à Polónia para recolher mais materiais. Foi um caminho tortuoso, há muita informação sobre Auschwitz-campo, mas contam-se pelos dedos de uma mão os livros que nos falam de Auschwitz-cidade.

Sentiste em algum ponto que a realidade e ficção se misturavam? O que pode o leitor esperar de uma história que retracta um período tão negro da história?

Isso foi permanente, sobretudo quando a narrativa se situava na Polónia. Houve uma preocupação quase obsessiva de envolver a ficção em matéria comprovada. Isso é especialmente importante quando se aborda um tema com implicações tão sensíveis como o Holocausto. Mas, além dessas questões maiores, a preocupação estendeu-se aos pormenores, coisas como o nome de uma rua tal como era conhecida na altura, a descrição de um hotel em Cracóvia ou de um terminal de comboios em Nova Iorque.

A reacção do público surpreendeu-te? Queres contar algum episódio em particular?

É preciso ver que esta foi a minha primeira aproximação à escrita. A minha relação com a literatura tem 40 anos, mas exclusivamente enquanto leitor. Só parti para esta experiência porque a dada altura achei que tinha uma história verdadeiramente boa para ser contada, um enredo que valia o risco de lhe dedicar 3 ou 4 anos da minha vida para produzir um romance. A questão era saber se a história que existia à priori se mantinha boa uma vez escrito o livro. Quando o terminei convenci-me de que sim. E por isso tenho de te dizer que não me surpreende o interesse que o livro tem suscitado. Já da crítica não posso dizer o mesmo, não posso dizer que esperava as cinco estrelas com que o Público e o Expresso avaliaram o romance. Lá está, olha-se frequentemente para a crítica literária com alguma desconfiança, quando, por vezes, não é nela que está o preconceito.

Sarah Gross foge de um passado e procura enterrá-lo. Sentes que quem sobreviveu ao Holocausto teve o mesmo comportamento?

Não me parece que existam modelos comportamentais. Ao longo dos últimos anos, encontrei antigos prisioneiros que contam histórias muito diferentes sobre as suas vidas depois de Auschwitz. A verdade é que para eles não existe um “depois de Auschwitz”. Como eu digo no livro: “só se sobrevive a Auschwitz no dia em que se morre”. Esse será possivelmente o único traço comum no que lhes resta viver. Uma das personagens mais fascinantes que conheci pessoalmente chamava-se Kazimiersz Smoleń, um polaco que foi preso pela Gestapo e enviado para Auschwitz, onde lutou por sobreviver durante cinco anos. Passado pouco tempo após a libertação, voltou a Auschwitz, dirigiu o Museu, passou a viver naquele lugar e dedicou os muitos anos que lhe restavam a revisitar o passado. Foi um dos sobreviventes mais ativos na divulgação da história do campo, quer junto dos inúmeros grupos que visitavam o campo, quer como consultor – por exemplo, colaborou com o Laurence Rees, quer no livro, quer no documentário da BBC “Auschwitz: The Nazis and ‘The Final Solution”. Só saiu de Auschwitz no dia em que morreu. Tinha noventa e um anos, foi pouco tempo depois de se ter encontrado comigo, e – que coincidência excecional – partiu no dia 27 de janeiro, data em que se comemora a libertação do campo. Seja lá por que razão for, aí está o exemplo de quem se alimenta de um passado tenebroso para lhe sobreviver.

É importante não fechar as portas do passado. Sentes, de alguma forma, que escrever foi também uma forma de participares na memória colectiva de um acontecimento tão presente e doloroso?

Há uns anos recebi um e-mail surpreendente. Foi-me enviado por um senhor chamado Elie Wiesel, um judeu romeno, um homem absolutamente notável que sobreviveu a Auschwitz e a Buchenwald e que foi galardoado com o prémio Nobel da Paz em 1986. Nessa mensagem, entre outras considerações mais pessoais, ele escreveu: aquele que ouve uma testemunha, torna-se uma testemunha por sua vez. Não escrevi com outro objetivo que não fosse contar a história que me ocorreu a dada altura, mas sempre soube que colocar a ação nessa arena de perversidade que foi Auschwitz seria inevitavelmente um prolongamento das vozes que vinha encontrando ao longo dos últimos anos, as vozes dos que testemunharam com os próprios olhos o desastre da Shoah. E isso, enquanto autor, comprometia-me com o rigor e com a sensatez. É o princípio mais elementar para quem fala de Auschwitz.

Como se deu o contacto da televisão? Queres contar como foi a reportagem para a SIC?

Salvo raras exceções, os contactos preliminares com a imprensa são sempre feitos através da editora. Foi assim que aconteceu desta vez. Fui desafiado para ir com uma equipa da SIC e do jornal Público à Polónia. A ideia era fazer reportagens em Auschwitz e Cracóvia em torno do romance. Produziu-se material de grande qualidade, e isso só foi possível graças à imensa qualidade dos jornalistas que viajaram comigo.

Resumidamente, queres desvendar um pouco da história? Que sensações pensas estar a passar ao leitor(a)?

A narrativa divide-se ao longo do romance em dois contextos diferentes: nos finais dos anos 1960, em St. Oswald’s, um colégio elitista situado em Shelton, que é uma pequena cidade do Connecticut, na costa leste dos Estados Unidos, e, no período entre as duas guerras mundiais, em Oswiécim, na Polónia, a cidade que os alemães rebatizaram como Auschwitz em 1939. A ação abrange também os anos de ocupação pela Alemanha nazi. Como qualquer romance, este também conta histórias diversas, neste caso as histórias de duas mulheres, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura Americana, e Sarah Gross, a diretora de St. Oswald’s, uma judia polaca nascida em Chicago. Pela história pessoal de Sarah, o romance descobre a cidade que acolheu o campo de concentração e extermínio, mostrando ao leitor como um lugar feliz se transforma num símbolo da iniquidade, no inferno de Auschwitz. De resto, sei bem que não há abordagens epidérmicas quando nos aproximamos do Holocausto. O leitor é confrontado com o que de mais abominável o ser humano é capaz de produzir e isso é brutal. Muitas pessoas me disseram que tiveram de pousar o livro para assimilar certas coisas, mas, lá está, tudo aquilo aconteceu. Não há interpretações nem hipérboles, há descrições; cada qual lidará com elas à sua maneira.

Vês-te a escrever novo romance num futuro próximo? Ou Sarah Gross foi personagem única criada por ti?

Quero acreditar que a fonte não esgotou, ainda é cedo para isso. De qualquer maneira, só me inicio na escrita de um novo livro se idealizar uma história que me apeteça muito ler e que ainda não tenha sido escrita. Tal como aconteceu com Perguntem a Sarah Gross.

 

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Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador. Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou. Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História.

Perguntem a Sarah Gross
João Pinto Coelho
Publicado em 04-2015
Dom Quixote

Fotos: DR