
Maria Manuel Viana nasceu na Figueira da Foz, em 1955, filha de Marcos Luís Lima Viana, conhecido pedagogo e democrata. Estudou Filologia Românica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi professora do ensino secundário durante 35 anos, na Figueira da Foz, em Castelo Branco e em Lisboa. Em Castelo Branco, foi coordenadora do Centro de Área Educativa, presidente da Comissão Distrital de Protecção de Menores, candidata a deputada pelo Partido Socialista, vereadora da cultura e coordenadora do Gabinete para a Igualdade. Escreveu os romances A Paixão de Ana B., A Dupla Vida de Mª João, Damas, Ases e Valetes (com Ana Benavente), O Verão de todos os silêncios, Teoria dos limites e Geografia do mundo, separata de Perda de Inventário, de Marta Chaves. Traduziu dois Prémios Nacionais da Crítica de Espanha, O dia de amanhã de Ignacio Martínez de Pisón e A filha do Leste, de Clara Usón, e Os belos dias de Aranjuez de Peter Hanke. Tem dois filhos, David e Manuel.
- Consegues descrever o momento em que decidiste começar a pôr no papel as histórias que trazias contigo? Como se deu o click?
– Não houve click e o momento zero – aquele em que se passa da escrita à ideia da publicação – não foi, sequer, decidido por mim. Comecei a publicar muito tarde, com 40 e tal anos, e não o teria feito sem a pressão de uma extraordinária editora, a Elsa Ligeiro, a agente cultural mais empenhada que conheço, uma mulher que montou uma editora, uma livraria e uma revista literária numa cidade do interior e que passou a vida a fazer a ponte entre Castelo Branco e Coimbra, batendo-se contra os poderes instituídos, com uma força e um entusiasmo que não perdeu, ao fim de 16 anos a lutar quase sozinha. Eu era então vereadora da cultura e gostava da determinação e dos projectos da Elsa – trabalhámos juntas muitas vezes, durante o meu mandato. Falo verdade (por muito que pareça uma história construída a posteriori) quando digo que a ideia de publicar um livro nunca me tinha ocorrido, por achar que o que eu poderia escrever já tinha sido escrito por outros e muito melhor do que eu o conseguiria fazer. A Elsa (para quem eu já escrevera uns textos, na revista Artes e Ideias Alma Azul) disse-me um dia que queria publicar um romance meu. Nessa altura, a minha vida era muito complicada, fazia muitas coisas ao mesmo tempo, na Câmara, no Centro de Área Educativa de que era coordenadora e no então recém criado Gabinete para a Igualdade, na luta contra a violência sobre mulheres, crianças, idosos, pessoas de outras etnias, emigrantes, etc. E ainda fazia política activa, era membro do Secretariado da Federação e da Comissão Nacional do PS. E, last but not the least, tinha filhos e enteados adolescentes, gostava de viajar (o meu marido era secretário geral de uma organização internacional, o que o levava a viajar constantemente) e de receber amigos em casa. Quando olho para trás, para esse tempo, parece-me que os dias tinham muito mais do que 24 horas e que vivia demasiado intensamente. Escrever um romance não cabia nessa agenda difícil e ainda hoje não sei porque disse que sim – talvez por isso seja tão fragmentário, tão diarístico, esse meu primeiro livro, escrito aos poucos, nos intervalos, à mão, em folhas soltas. Curiosamente, sem que eu disso me tivesse apercebido enquanto o escrevia, acabou por corresponder a várias rupturas na minha vida: afastei-me da luta partidária, separei-me e fui viver para outra cidade. Não é (e suponho ser a primeira vez que o digo) uma memória feliz.
- Porque escreve alguém? O acto da escrita é sempre uma necessidade?
Não creio que se possa generalizar, as pessoas escrevem por motivos diversos – há quem acredite ter um mandato divino, quem julgue fazer a diferença, quem goste (apenas) de contar histórias, quem considere um dever de memória, quem pense ter uma história única e incrível, quem queira partilhar ideias, quem sinta a escrita como uma compulsão. Suponho que foi o Garcia Márquez quem disse um dia: escrevo para que gostem de mim. Parece-me uma boa resposta, embora duvide que a escrita tenha tal capacidade.
- As escritoras são esquecidas no nosso país? Que papel tem uma escritora como tu na nossa sociedade?
Não são as escritoras, são as mulheres de um modo geral. Mais do que esquecimento, falaria em rasura, em tentativa de menorização. Vi, há dias, um estudo da European Women’s Lobby: as previsões indicam que, na ausência de medidas estruturais, serão necessários mais de 100 anos para eliminar a disparidade de género no emprego, no trabalho remunerado e não-remunerado (30 anos para atingir a igualdade no emprego, 70 anos para salários iguais para homens e mulheres e 40 anos para a partilha equitativa das tarefas domésticas). Na literatura passa-se o mesmo, como em todas as áreas – para ser inteiramente justa, talvez na literatura a desigualdade seja ligeiramente menor; o campo mais igualitário que conheço é mesmo o do exercício da profissão de professor.
As mulheres vendem menos, dizem. Há a literatura universal e há a literatura feminina e as pessoas tomam como normal notícias em que, acerca de um festival literário com 100 escritores, apenas se nomeiem homens. Ou que, num outro, se diga que o escritor x e y apoiam determinada candidatura e que várias escritoras também, a b, a c e a d. Nós somos várias, eles são escritores singulares, individuais, particularizados. Nós ou somos femininas ou feministas ou pós-feministas. Há etiquetas que se nos colam à pele e serão precisos muitos anos para mudar as mentalidades.
Sou uma escritora com poucos leitores, não creio ter qualquer papel. Poderia deixar de escrever e haveria pouca gente a dar por isso, como na comparação entre o binómio de Newton e a Vénus de Milo. Sou, fundamentalmente, uma leitora.
- A violência doméstica contra a mulher é um flagelo que te angustia. O que pode ser feito para parar isto?
Educar, educar, educar. Educar para a cidadania, para a igualdade, contra a violência. Dei aulas durante 35 anos e abordei sempre esse problema – muitas alunas me respondiam que era uma forma de amor, o ciúme era a prova de serem amadas. É preciso desconstruir os estereótipos, acabar com a reprodução do que se passa em casa com pais violentos e agressivos. Educar tanto as raparigas como os rapazes. Não permitir que anúncios, como os da Flora e da Marta ou do Futre passem na televisão, uns porque normalizam a violência, outros porque tornam as mulheres objectos. Acredito nas estruturas locais, de proximidade, onde os serviços se articulam de modo a dar respostas rápidas a quem tem que sair de casa, com filhos, perdendo o emprego e os amigos. No Gabinete para a Igualdade, que durou muito pouco porque o governo que o instaurara caiu, trabalhávamos em conjunto com a Educação, a Saúde, a Segurança Social, o Instituto do Emprego e Formação Profissional, a PSP, A GNR, o tribunal, as CPCJ, as Câmaras, as Juntas de freguesia e um escritório de advogados pro bono, além do apoio constante da APAV. Isto é, todos estavam implicados e agiam concertadamente e as vítimas sabiam que tinham não só quem as ouvisse como quem tentasse encontrar uma saída rápida e estruturada para escapar a uma situação invivível. Ouvi histórias terríveis, de maus tratos, de espancamentos, de violações constantes, de ameaças de morte: vi uma mulher retalhada por uma gilette para não “lhe passar pela cabeça ir para a cama com outros”, escutei uma mãe ainda jovem que chorava porque o marido obrigava as duas filhas de ambos, de 6 e 8 anos, a fazer-lhe sexo oral todos os dias, duas crianças, de 8 e 10 anos, que fizeram a pé 4 quilómetros para me contar o que o pai fazia à mãe, dois velhos pais obrigados pelos filhos a comer na gamela dos porcos, como também ouvi histórias de mulheres que estavam cansadas de justificar as nódoas negras com quedas na neve e de se calarem por receber mais uma jóia ou um casaco de peles. A violência é socialmente transversal, não escolhe idade, nem género, nem religião. Por isso digo sempre que só educando e integrando as boas práticas no quotidiano é que teremos uma sociedade justa e igualitária.
- Montar o teu último romance, Teoria dos Limites, exigiu muito estudo e, certamente, dedicação. Num livro que reúne várias disciplinas combinadas, como surge a ideia da história?
Todos os meus romances, excepto A paixão de ana B., começaram por ser contos, publicados em revistas ou colectâneas. O que me surge primeiro é uma determinada situação: uma viagem que corre mal, um funeral, o fim de uma relação, o rapto de uma criança, a vida num universo concentracionário, a exasperação do quotidiano. A partir desse momento, fico obcecada com os nomes: o título do livro e os das personagens. Enquanto não decido, sinto-me incapaz de escrever – o que sucede a uma Mariana nunca poderia suceder a uma Vanessa, por exemplo.
Sou muito lenta a escrever, não só porque confirmo tudo como leio muitos documentos e textos sobre o tema – já expliquei que sou obsessiva. Verifico no Google maps se as ruas são aquelas, onde vão dar, se há lojas ou cafés no percurso das personagens. No caso de A teoria, foi especialmente difícil porque eu nada sabia sobre o Leibniz e estudei tudo o que encontrei, até os seminários do Gilles Deleuze no YouTube ouvi. Pedi uma conferência do Manuel António Pina a uma filha para falar do Winnie the pooh, que é recorrente nos meus livros. Li o Discurso sobre a teologia natural dos chineses , estudei tanto o tipo de árvores dos cemitérios como o teorema de Godel, segui um blogue de um escritor para construir a figura do meu, do homem que vai ser enterrado, assim como me baseei na Julia Kristeva e no seu Soleil Noir. Dépression et mélancolie, ouvi muitíssimo Bach antes de me decidir pela partita para piano número 4, na versão de Glenn Gould. Consultei centenas de vezes (não é exagero) o DSM para perceber as perturbações desta ou daquela pessoa. Saio esgotada da escrita de um romance mas sabe-me bem regressar depois à realidade, ao dia a dia, às conversas com os meus filhos e amigos. Há como que um desdobramento de personalidade (deve ser por isso que tantas personagens minhas sofrem dessa perturbação), sou a Mariana e a Sara e a ana B. e a MªJoão e o João Caetano e fico muito feliz quando volto a ser a Maria Manuel, que gosta muito de filmes, de livros e que tem a vida mais normalzinha que imaginar se possa.
- Escreveste este trabalho entre Portugal e o Dubai. Sentiste necessidade de te isolar?
Foi o Dubai como podia ter sido Nova Iorque ou Florença ou as Canárias – era o sítio onde o David, o meu filho mais velho, estava a trabalhar, nessa altura, e eu queria muito estar com ele. Houve quem me criticasse por ter referido o Dubai, onde os direitos humanos são o que sabemos. O Dubai Dubai não existiu, quase – enquanto o meu filho trabalhava, na recepção do hotel, eu estava fechada num dos quartos a escrever. O Verão de todos os silêncios, que se passa nas Canárias, também foi por causa do David, que estava lá, então. Ou a parte da Argentina, onde fomos, eu, o meu filho mais novo, Manuel, e o pai dele comemorar os anos do David. O maior isolamento é em casa, só mesmo quando já cheguei ao último capítulo, ao final, é que preciso de estar com pessoas de quem gosto muito e que me fizeram falta durante o tempo que levei a escrever o livro.
- Antes de lançares o livro, contaste com a leitura atenta e amiga de algumas escritoras. Amizades assim ajudam-te muito?
A palavra que me ocorre sempre é mátria: três escritoras, a Inês Pedrosa, a Julieta Monginho, a Patrícia Reis, a quem me ligam laços de grande amizade e cumplicidade, e que lêem e relêem, sem nunca se queixarem, sugerindo alterações, corrigindo gralhas, lendo de forma muito inteligente o que lhes envio, ainda cheia de dúvidas. O que me dizem, o que propõem, as observações que fazem são-me essenciais, nunca publicaria sem a ajuda, o apoio, o olhar crítico delas. Funcionam como a rede que me ampara, a mim funâmbula, com medo de tropeçar.
Não é só a estas três escritoras, no entanto, que recorro: o meu filho mais novo, o Manuel, é sempre o primeiro leitor e ajuda-me muito na procura de textos de apoio, assim como uma jovem colega dele, a Inês Fialho. E devo imensíssimo ao meu grupo de amigos, que escuta as minhas dúvidas com uma paciência que nunca deixará de me espantar e que se desdobra para me explicar o que cada um sabe e eu não: a Ana Benavente, com quem até já escrevi um livro a meias, a Graça Aníbal (leitora atentíssima), a Isa Duarte Ribeiro, minha consultora para as questões artísticas, a Bia e o Carlos Veiga, meu editor mas sobretudo meu grande amigo, a Margarida Lages, sempre entusiasta, o meu primo Marcelo e o meu ex-marido, António Abrunhosa (a quem, aliás, a Teoria é dedicada), ambos com um saber enciclopédico que muito me ajuda. É uma rede grande de apoio, de suporte, de amparo, durante os anos que demoro a escrever um livro. Nenhum livro se escreve sozinho – um livro escreve-se com muitas coisas: muitos outros livros já lidos e amados, alguns filmes e certas músicas. E com os amigos, os mais íntimos, os mais próximos, os mais cúmplices, primeiríssimos leitores e ouvintes, copistas e críticos, anjos da guarda no difícil e esquizofrénico desdobramento identitário autor-personagem que que todo o escritor vive.
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Teoria dos Limites, uma edição Teodolito, livro que li recentemente.
A realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, diz, a certa altura, uma das personagens deste romance. O aqui narrado parte da concepção fantasmática de um génio, uma espécie de mundo de ficção científica, com dois universos paralelos habitados por mónadas, essas substâncias simples, esses pontos metafísicos, essas individualizações infinitamente pequenas, como quartos sem portas nem janelas dentro de uma pirâmide cuja base tenderia ao infinito, onde bastaria uma ínfima coisa para passar de uma realidade para outra, e onde cada um de nós vê o seu duplo e pode escolher entre ser herói ou banal, amar ou resignar-se, sentir prazer ou raiva com a felicidade alheia, lutar pela liberdade ou jogar as regras do jogo, viver com dignidade ou ser passivo, aceitar a ignomínia ou revoltar-se, julgar o outro pondo-se no lugar dele, adoptar muitas perspectivas para perceber o todo, perguntar-se em que é que a ficção supera a realidade, se na beleza ou na construção não tão utópica quanto poderia parecer do melhor dos mundos possíveis.
Fotos: DR