Ilustração – Marta Jacinto em entrevista

ilustração - marta jacinto - abelha_zarelha

Marta Jacinto nasceu em 1979, no Algarve. Em 2004, licenciou-se em Arquitetura. Desde muito cedo que o gosto pelas artes plásticas tomou conta de si. O desenho tem sido sempre a sua forma de expressão favorita, tendo frequentado, durante o ensino secundário, o curso da dominante de artes. Foi durante esse período que descobriu e experimentou novas técnicas que viriam a influenciar o seu percurso artístico. Começou, então, a fazer as suas primeiras exposições, que atualmente se estendem um pouco por todo o país. Em 2008, iniciou-se na ilustração infantil, na Martolita Ilustra. Atualmente, e em paralelo com a sua atividade de arquiteta, desenvolve trabalho na área das artes plásticas, com destaque para a ilustração, sobretudo, em livros infantis.

Tive o prazer de apresentar o mais recente trabalho da minha amiga Raquel Patriarca – A Barata Patarata e o Escaravelho Trolaró – quando foi lançado aqui no Porto. A Raquel fez uma parceria com a ilustradora Marta Jacinto para criar a colecção Livro com Bicho, que teve o seu início com A Abelha Zarelha, em 2012.

Hoje voamos até ao mundo da ilustração e vamos conhecer as motivações e trabalho de uma ilustradora. A Marta Jacinto é a convidada desta entrevista.

Marta Jacinto e Raquel Patriarca

Como é que a arquitectura é deixada para outro plano e é vencida pela ilustração?

Apesar de continuar a exercer arquitectura, de serem duas áreas que me completam, aos poucos fui-me apercebendo que a ilustração, o desenho em mim, é quase tão natural como respirar. Quando a magia e o encanto invadem o meu pensamento quase 24 horas por dia, ao ponto de me fazerem sentir especial, torna-se quase impossível não me render a este fabuloso mundo onde posso dar vida a todos os seres que habitam no meu imaginário.

Tropeças na ilustração infantil por acaso? Ou foi, de facto, um desejo tornado realidade?

Sem dúvida um desejo tornado realidade, pois desde que me entendo por gente, a minha verdadeira paixão e vocação foi sempre tudo o que estivesse ligado às artes plásticas, tudo servia para fazer arte. No entanto, só há relativamente pouco tempo é que descobri o meu verdadeiro potencial, a ilustração infantil, que podia materializar numa história todo o meu imaginário e partilhá-lo com o mundo.

Lês para crianças? Como é ler histórias ilustradas por ti? É «tarefa fácil» manter todos atentos?

Essa é uma das melhores partes do meu trabalho, porque tenho o retorno daquilo que faço. É um momento mágico. Através da leitura, consigo reforçar e expressar ainda mais as características que idealizei em cada personagem e cenário e, por isso, é muito fácil cativar a atenção de todos.

O futuro do livro infantil está assegurado? Contará sempre com a ilustração? Ou vês outros caminhos?

Decerto que sim, a ilustração sempre fez parte do nosso quotidiano, sempre esteve relacionada com tudo, é como se fosse o rosto das palavras e cada vez mais valoriza a leitura, não só os pequenos leitores como também os adultos, despertam cada vez mais o interesse pela riqueza da literatura infantil, onde se pode ler também uma história paralela.

Tens, com certeza, referências no mundo da ilustração de livros. Queres deixar alguns nomes?

Com certeza que sim, embora esta seja uma questão um pouco complicada de responder, pois gosto do trabalho de tantos ilustradores que seria injusto enumerar alguns e esquecer-me de outros igualmente importantes para mim. Gosto especialmente de ilustradores que seguem um registo e linguagem diferente do meu, formas novas e abordagens diferentes que muito admiro e fazem com que eu cresça profissionalmente e saia um pouco da minha zona de conforto. Há, no entanto, alguns ilustradores que, pela sua capacidade criativa, técnica e originalidade não poderia deixar de referir, como por exemplo: Oliver Jeffers, Roger Olmos, Rebecca Dautremer, Helga Bansch, André Neves, David Pintor, Paulo Galindro, João Vaz de Carvalho, Catarina Sobral, Yara Kono, entre tantos outros.

No trabalho que te juntou à Raquel Patriarca por duas vezes, o que mais destacas?

Sem dúvida, o enamoramento e o encantamento pelas histórias, a forma invulgar de ver o mundo e as coisas, uma realidade muito parecida com a minha, onde conseguimos tirar partido dos nossos pontos fortes e uni-los de forma extraordinária, tendo sempre presente o espirito de parceria e animação, é perfeito.

Que importância tem a ilustração de um livro infantil? Sentes que contas uma história paralela ao texto

É de extrema importância, pois a ilustração, para além de exemplificar/materializar o que está escrito, e dar vida ao texto, conta também uma história paralela, que pode ser também ela refrescante e intensa e atribuir ainda mais qualidades ao texto.

Vias-te a ilustrar b.d. ou livros para adultos?

Neste momento não, pois o que mais me cativa na ilustração é precisamente a parte infantil, é ir ao encontro dos pequenos leitores. Acaba por ser um processo mais criativo e estimulante no sentido em que me coloco no papel de uma criança, e dou asas à minha imaginação, é como que uma terapia revigorante.

Que tipo de leitora és e de que livros gostas?

Sou essencialmente uma consumidora de livros infantis, gosto de livros com boas ideias, com boas ilustrações, com textos simples e especiais, que me transmitam boas energias e me façam rir.

Numa pequena frase: quem é Martolita?

Um ser igual a tantos outros, apenas com a diferença, que dentro de mim habitam milhares de seres e coisas assim-assim.

Fotos: DR

As novidades acerca do trabalho da Marta Jacinto podem ser acompanhadas em artmartolita.blogspot.com ou no Facebook.

 

 

 

 

Vinhos portugueses registam recorde de vendas

vinho-uvas-wallpaper[1]

O primeiro semestre do ano bateu um novo recorde nas exportações portuguesas de vinho, atingindo um máximo histórico de 328 milhões de euros, um crescimento de 4.6% face ao ano anterior.

O presidente do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), Frederico Falcão, destaca, em entrevista ao dinheiro vivo, que “esta trajectória de crescimento coloca o sector em vias de atingir o sexto ano consecutivo de crescimento nas exportações de vinho. Dados muito positivos e que mostram bem o resultado do trabalho das empresas do sector, da ViniPortugal e do apoio que é disponibilizado para promover os vinhos portugueses”

Já o presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, Manuel Cabral, alerta para o facto dos vinhos desta região serem bastante permeáveis ao comportamento dos mercados de destino, como Angola e França. No entanto, Angola é já o segundo maior mercado de exportação dos vinhos do Douro. Já em França, houve uma quebra de compra nas quantidades e no valor gerado.

Boas notícias chegam dos ‘Verdes’, com vendas totais a aumentar 3%, sendo que o alvarinho cresce 10% e o loureiro 24. As exportações da região dos Vinhos Verdes atingiram os 36 milhões de euros até Junho, um aumento de 10% face a ano anterior. Manuel Pinheiro destaca a presença nos mercados dos EUA (com um aumento de 20%) e o Japão (com o crescimento de 45%).

Por fim, o Dão e Lisboa continua a dar cartas, 65% de toda a produção da região já é destinada à exportação, com os países Nórdicos, Brasil, EUA, Benelux, Angola, Rússia a destacarem-se como principais mercados, diz Vasco D’Avillez.

Boas perspectivas para a próxima vindima, com um crescimento esperado de 8% de produção, atingindo um volume de 6.7 milhões de hectolitros – são estas as previsões do Instituto da Vinha e do Vinho. 2015 será então um ano histórico e já há quem o compare com 2011, quando praticamente todas as casas de Porto foram ano vintage.

 

Fonte: Dinheiro Vivo
Foto: Conexão Lusófona

Maria Manuel Viana em entrevista

maria_viana

Maria Manuel Viana nasceu na Figueira da Foz, em 1955, filha de Marcos Luís Lima Viana, conhecido pedagogo e democrata. Estudou Filologia Românica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi professora do ensino secundário durante 35 anos, na Figueira da Foz, em Castelo Branco e em Lisboa. Em Castelo Branco, foi coordenadora do Centro de Área Educativa, presidente da Comissão Distrital de Protecção de Menores, candidata a deputada pelo Partido Socialista, vereadora da cultura e coordenadora do Gabinete para a Igualdade. Escreveu os romances A Paixão de Ana B., A Dupla Vida de Mª João, Damas, Ases e Valetes (com Ana Benavente), O Verão de todos os silêncios, Teoria dos limites e Geografia do mundo, separata de Perda de Inventário, de Marta Chaves. Traduziu dois Prémios Nacionais da Crítica de Espanha, O dia de amanhã de Ignacio Martínez de Pisón e A filha do Leste, de Clara Usón, e Os belos dias de Aranjuez de Peter Hanke. Tem dois filhos, David e Manuel.

- Consegues descrever o momento em que decidiste começar a pôr no papel as histórias que trazias contigo? Como se deu o click?

– Não houve click e o momento zero – aquele em que se passa da escrita à ideia da publicação – não foi, sequer, decidido por mim. Comecei a publicar muito tarde, com 40 e tal anos, e não o teria feito sem a pressão de uma extraordinária editora, a Elsa Ligeiro, a agente cultural mais empenhada que conheço, uma mulher que montou uma editora, uma livraria e uma revista literária numa cidade do interior e que passou a vida a fazer a ponte entre Castelo Branco e Coimbra, batendo-se contra os poderes instituídos, com uma força e um entusiasmo que não perdeu, ao fim de 16 anos a lutar quase sozinha. Eu era então vereadora da cultura e gostava da determinação e dos projectos da Elsa – trabalhámos juntas muitas vezes, durante o meu mandato. Falo verdade (por muito que pareça uma história construída a posteriori) quando digo que a ideia de publicar um livro nunca me tinha ocorrido, por achar que o que eu poderia escrever já tinha sido escrito por outros e muito melhor do que eu o conseguiria fazer. A Elsa (para quem eu já escrevera uns textos, na revista Artes e Ideias Alma Azul) disse-me um dia que queria publicar um romance meu. Nessa altura, a minha vida era muito complicada, fazia muitas coisas ao mesmo tempo, na Câmara, no Centro de Área Educativa de que era coordenadora e no então recém criado Gabinete para a Igualdade, na luta contra a violência sobre mulheres, crianças, idosos, pessoas de outras etnias, emigrantes, etc. E ainda fazia política activa, era membro do Secretariado da Federação e da Comissão Nacional do PS. E, last but not the least, tinha filhos e enteados adolescentes, gostava de viajar (o meu marido era secretário geral de uma organização internacional, o que o levava a viajar constantemente) e de receber amigos em casa. Quando olho para trás, para esse tempo, parece-me que os dias tinham muito mais do que 24 horas e que vivia demasiado intensamente. Escrever um romance não cabia nessa agenda difícil e ainda hoje não sei porque disse que sim – talvez por isso seja tão fragmentário, tão diarístico, esse meu primeiro livro, escrito aos poucos, nos intervalos, à mão, em folhas soltas. Curiosamente, sem que eu disso me tivesse apercebido enquanto o escrevia, acabou por corresponder a várias rupturas na minha vida: afastei-me da luta partidária, separei-me e fui viver para outra cidade. Não é (e suponho ser a primeira vez que o digo) uma memória feliz.

- Porque escreve alguém? O acto da escrita é sempre uma necessidade?

Não creio que se possa generalizar, as pessoas escrevem por motivos diversos – há quem acredite ter um mandato divino, quem julgue fazer a diferença, quem goste (apenas) de contar histórias, quem considere um dever de memória, quem pense ter uma história única e incrível, quem queira partilhar ideias, quem sinta a escrita como uma compulsão. Suponho que foi o Garcia Márquez quem disse um dia: escrevo para que gostem de mim. Parece-me uma boa resposta, embora duvide que a escrita tenha tal capacidade.

- As escritoras são esquecidas no nosso país? Que papel tem uma escritora como tu na nossa sociedade?

Não são as escritoras, são as mulheres de um modo geral. Mais do que esquecimento, falaria em rasura, em tentativa de menorização. Vi, há dias, um estudo da European Women’s Lobby: as previsões indicam que, na ausência de medidas estruturais, serão necessários mais de 100 anos para eliminar a disparidade de género no emprego, no trabalho remunerado e não-remunerado (30 anos para atingir a igualdade no emprego, 70 anos para salários iguais para homens e mulheres e 40 anos para a partilha equitativa das tarefas domésticas). Na literatura passa-se o mesmo, como em todas as áreas – para ser inteiramente justa, talvez na literatura a desigualdade seja ligeiramente menor; o campo mais igualitário que conheço é mesmo o do exercício da profissão de professor.

As mulheres vendem menos, dizem. Há a literatura universal e há a literatura feminina e as pessoas tomam como normal notícias em que, acerca de um festival literário com 100 escritores, apenas se nomeiem homens. Ou que, num outro, se diga que o escritor x e y apoiam determinada candidatura e que várias escritoras também, a b, a c e a d. Nós somos várias, eles são escritores singulares, individuais, particularizados. Nós ou somos femininas ou feministas ou pós-feministas. Há etiquetas que se nos colam à pele e serão precisos muitos anos para mudar as mentalidades.

Sou uma escritora com poucos leitores, não creio ter qualquer papel. Poderia deixar de escrever e haveria pouca gente a dar por isso, como na comparação entre o binómio de Newton e a Vénus de Milo. Sou, fundamentalmente, uma leitora.

- A violência doméstica contra a mulher é um flagelo que te angustia. O que pode ser feito para parar isto?

Educar, educar, educar. Educar para a cidadania, para a igualdade, contra a violência. Dei aulas durante 35 anos e abordei sempre esse problema – muitas alunas me respondiam que era uma forma de amor, o ciúme era a prova de serem amadas. É preciso desconstruir os estereótipos, acabar com a reprodução do que se passa em casa com pais violentos e agressivos. Educar tanto as raparigas como os rapazes. Não permitir que anúncios, como os da Flora e da Marta ou do Futre passem na televisão, uns porque normalizam a violência, outros porque tornam as mulheres objectos. Acredito nas estruturas locais, de proximidade, onde os serviços se articulam de modo a dar respostas rápidas a quem tem que sair de casa, com filhos, perdendo o emprego e os amigos. No Gabinete para a Igualdade, que durou muito pouco porque o governo que o instaurara caiu, trabalhávamos em conjunto com a Educação, a Saúde, a Segurança Social, o Instituto do Emprego e Formação Profissional, a PSP, A GNR, o tribunal, as CPCJ, as Câmaras, as Juntas de freguesia e um escritório de advogados pro bono, além do apoio constante da APAV. Isto é, todos estavam implicados e agiam concertadamente e as vítimas sabiam que tinham não só quem as ouvisse como quem tentasse encontrar uma saída rápida e estruturada para escapar a uma situação invivível. Ouvi histórias terríveis, de maus tratos, de espancamentos, de violações constantes, de ameaças de morte: vi uma mulher retalhada por uma gilette para não “lhe passar pela cabeça ir para a cama com outros”, escutei uma mãe ainda jovem que chorava porque o marido obrigava as duas filhas de ambos, de 6 e 8 anos, a fazer-lhe sexo oral todos os dias, duas crianças, de 8 e 10 anos, que fizeram a pé 4 quilómetros para me contar o que o pai fazia à mãe, dois velhos pais obrigados pelos filhos a comer na gamela dos porcos, como também ouvi histórias de mulheres que estavam cansadas de justificar as nódoas negras com quedas na neve e de se calarem por receber mais uma jóia ou um casaco de peles. A violência é socialmente transversal, não escolhe idade, nem género, nem religião. Por isso digo sempre que só educando e integrando as boas práticas no quotidiano é que teremos uma sociedade justa e igualitária.

- Montar o teu último romance, Teoria dos Limites, exigiu muito estudo e, certamente, dedicação. Num livro que reúne várias disciplinas combinadas, como surge a ideia da história?

Todos os meus romances, excepto A paixão de ana B., começaram por ser contos, publicados em revistas ou colectâneas. O que me surge primeiro é uma determinada situação: uma viagem que corre mal, um funeral, o fim de uma relação, o rapto de uma criança, a vida num universo concentracionário, a exasperação do quotidiano. A partir desse momento, fico obcecada com os nomes: o título do livro e os das personagens. Enquanto não decido, sinto-me incapaz de escrever – o que sucede a uma Mariana nunca poderia suceder a uma Vanessa, por exemplo.

Sou muito lenta a escrever, não só porque confirmo tudo como leio muitos documentos e textos sobre o tema – já expliquei que sou obsessiva. Verifico no Google maps se as ruas são aquelas, onde vão dar, se há lojas ou cafés no percurso das personagens. No caso de A teoria, foi especialmente difícil porque eu nada sabia sobre o Leibniz e estudei tudo o que encontrei, até os seminários do Gilles Deleuze no YouTube ouvi. Pedi uma conferência do Manuel António Pina a uma filha para falar do Winnie the pooh, que é recorrente nos meus livros. Li o Discurso sobre a teologia natural dos chineses , estudei tanto o tipo de árvores dos cemitérios como o teorema de Godel, segui um blogue de um escritor para construir a figura do meu, do homem que vai ser enterrado, assim como me baseei na Julia Kristeva e no seu Soleil Noir. Dépression et mélancolie, ouvi muitíssimo Bach antes de me decidir pela partita para piano número 4, na versão de Glenn Gould. Consultei centenas de vezes (não é exagero) o DSM para perceber as perturbações desta ou daquela pessoa. Saio esgotada da escrita de um romance mas sabe-me bem regressar depois à realidade, ao dia a dia, às conversas com os meus filhos e amigos. Há como que um desdobramento de personalidade (deve ser por isso que tantas personagens minhas sofrem dessa perturbação), sou a Mariana e a Sara e a ana B. e a MªJoão e o João Caetano e fico muito feliz quando volto a ser a Maria Manuel, que gosta muito de filmes, de livros e que tem a vida mais normalzinha que imaginar se possa.

- Escreveste este trabalho entre Portugal e o Dubai. Sentiste necessidade de te isolar?

Foi o Dubai como podia ter sido Nova Iorque ou Florença ou as Canárias – era o sítio onde o David, o meu filho mais velho, estava a trabalhar, nessa altura, e eu queria muito estar com ele. Houve quem me criticasse por ter referido o Dubai, onde os direitos humanos são o que sabemos. O Dubai Dubai não existiu, quase – enquanto o meu filho trabalhava, na recepção do hotel, eu estava fechada num dos quartos a escrever. O Verão de todos os silêncios, que se passa nas Canárias, também foi por causa do David, que estava lá, então. Ou a parte da Argentina, onde fomos, eu, o meu filho mais novo, Manuel, e o pai dele comemorar os anos do David. O maior isolamento é em casa, só mesmo quando já cheguei ao último capítulo, ao final, é que preciso de estar com pessoas de quem gosto muito e que me fizeram falta durante o tempo que levei a escrever o livro.

- Antes de lançares o livro, contaste com a leitura atenta e amiga de algumas escritoras. Amizades assim ajudam-te muito?

A palavra que me ocorre sempre é mátria: três escritoras, a Inês Pedrosa, a Julieta Monginho, a Patrícia Reis, a quem me ligam laços de grande amizade e cumplicidade, e que lêem e relêem, sem nunca se queixarem, sugerindo alterações, corrigindo gralhas, lendo de forma muito inteligente o que lhes envio, ainda cheia de dúvidas. O que me dizem, o que propõem, as observações que fazem são-me essenciais, nunca publicaria sem a ajuda, o apoio, o olhar crítico delas. Funcionam como a rede que me ampara, a mim funâmbula, com medo de tropeçar.

Não é só a estas três escritoras, no entanto, que recorro: o meu filho mais novo, o Manuel, é sempre o primeiro leitor e ajuda-me muito na procura de textos de apoio, assim como uma jovem colega dele, a Inês Fialho. E devo imensíssimo ao meu grupo de amigos, que escuta as minhas dúvidas com uma paciência que nunca deixará de me espantar e que se desdobra para me explicar o que cada um sabe e eu não: a Ana Benavente, com quem até já escrevi um livro a meias, a Graça Aníbal (leitora atentíssima), a Isa Duarte Ribeiro, minha consultora para as questões artísticas, a Bia e o Carlos Veiga, meu editor mas sobretudo meu grande amigo, a Margarida Lages, sempre entusiasta, o meu primo Marcelo e o meu ex-marido, António Abrunhosa (a quem, aliás, a Teoria é dedicada), ambos com um saber enciclopédico que muito me ajuda. É uma rede grande de apoio, de suporte, de amparo, durante os anos que demoro a escrever um livro. Nenhum livro se escreve sozinho – um livro escreve-se com muitas coisas: muitos outros livros já lidos e amados, alguns filmes e certas músicas. E com os amigos, os mais íntimos, os mais próximos, os mais cúmplices, primeiríssimos leitores e ouvintes, copistas e críticos, anjos da guarda no difícil e esquizofrénico desdobramento identitário autor-personagem que que todo o escritor vive.

mariteo[1]Teoria dos Limites, uma edição Teodolito, livro que li recentemente.

A realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, diz, a certa altura, uma das personagens deste romance. O aqui narrado parte da concepção fantasmática de um génio, uma espécie de mundo de ficção científica, com dois universos paralelos habitados por mónadas, essas substâncias simples, esses pontos metafísicos, essas individualizações infinitamente pequenas, como quartos sem portas nem janelas dentro de uma pirâmide cuja base tenderia ao infinito, onde bastaria uma ínfima coisa para passar de uma realidade para outra, e onde cada um de nós vê o seu duplo e pode escolher entre ser herói ou banal, amar ou resignar-se, sentir prazer ou raiva com a felicidade alheia, lutar pela liberdade ou jogar as regras do jogo, viver com dignidade ou ser passivo, aceitar a ignomínia ou revoltar-se, julgar o outro pondo-se no lugar dele, adoptar muitas perspectivas para perceber o todo, perguntar-se em que é que a ficção supera a realidade, se na beleza ou na construção não tão utópica quanto poderia parecer do melhor dos mundos possíveis.

Fotos: DR

Feira do Livro do Porto com homenagem a Agustina Bessa-Luís

feira1

Está aí mais uma Feira do Livro do Porto, entre 4 a 20 de Setembro, nos jardins do Palácio de Cristal e Biblioteca Almeida Garrett. A organização, à semelhança do ano passado, é da responsabilidade da Câmara do Porto.

 

Sessão dedicada a Agustina

No ano que a Feira do Livro do Porto homenageia a escritora Agustina Bessa-Luís, o ciclo de debates Um Objeto e Seus Discursos por Semana muda-se, em setembro, para o recinto da Feira e dedica-lhe a sua primeira sessão, dia 5, nos jardins do Palácio de Cristal.

A Avenida das Tílias transformou-se na alameda dos escritores, primeiro com Vasco Graça Moura, a quem foi simbolicamente dedicada uma tília e uma placa com um excerto de um dos seus poemas na Feira do Livro 2014. Este ano a homenageada será Agustina Bessa-Luís, a quem será dedicada uma placa de homenagem, referência maior da literatura portuguesa. Três convidadas particularmente ligadas à sua vida e obra irão falar do percurso da escritora: Mónica Baldaque, Isabel Ponce de Leão e Zita Seabra.

O início está marcado para as 18,00 horas com entrada é gratuita.

feira2


O festival literário programado este ano para a Feira do Livro do Porto incluirá dez debates, nos quais participarão grandes nomes da literatura e da cultura portuguesas, tais como Richard Zimler, Valter Hugo Mãe, Sérgio Godinho, Álvaro Magalhães e Francisco José Viegas.

Este ano a programação cultural parte de uma reflexão sobre a felicidade, tema transversal às actividades do Pelouro da Cultura da autarquia.

“O lento e incendiário caminho do humor”, “Números Felizes”, “Os Amores da Escrita” e “Memórias Políticas: um passado feliz?” são alguns dos títulos destes debates, “a partir dos diversos géneros e veículos da literatura”, explica o vereador da Cultura Paulo Cunha e Silva.

Não perca toda a programação, a ser disponibilizada brevemente no site da Câmara Municipal do Porto e no facebook da feira do livro.

 


Fontes: http://www.porto.pt/noticias/festival-literario-com-grandes-nomes-da-cultura-nacional-
e http://www.umobjetoeseusdiscursos.com/

Fotos: DR

João Pinto Coelho em entrevista

JPC

João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967. Licenciou-se em Arquitetura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Passou diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional perto de Nova Iorque e dos cenários que evoca neste romance. Em 2009 e 2011 integrou duas ações do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto. No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio. A esse propósito tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012. Perguntem a Sarah Gross é o seu primeiro romance e finalista do prémio LeYa em 2014.

Escrever foi uma necessidade que foi crescendo dentro de ti ou uma consequência natural do teu percurso?

As duas coisas, se bem que a vontade de passar uma ideia para o papel seja muito mais tardia do que a a minha relação com a leitura. E é essa relação que delineia o percurso que me fez autor. Poderia dizer que comecei a escrever este romance a partir do momento em que li o meu primeiro livro. Sempre tive a tendência para idealizar alternativas para as histórias que lia, projetar os enredos dos livros que me passavam pelas mãos para outros contextos, soluções diferentes. A leitura é um ato criativo, a verdade é essa, e por isso digo que o livro que escrevi tem todas as páginas que li.

Auschwitz é local central no teu livro. Queres falar-nos um pouco da tua experiência enquanto investigador sobre o Holocausto?

Dividiria essa experiência por dois períodos distintos. Uma primeira fase inclui tudo o que li – que foi muito – sobre o Holocausto entre o final da adolescência até ao ano de 2009. A partir daí a aproximação tornou-se muito mais aprofundada, quer por causa das ações do Conselho da Europa em que participei e que me colocaram dias a fio a trabalhar em Auschwitz com alguns dos mais proeminentes investigadores internacionais sobre o Holocausto, quer pelo trabalho de investigação a que me obrigou a escrita do romance. Foram 3 anos de pesquisa intensa, o regresso à Polónia para recolher mais materiais. Foi um caminho tortuoso, há muita informação sobre Auschwitz-campo, mas contam-se pelos dedos de uma mão os livros que nos falam de Auschwitz-cidade.

Sentiste em algum ponto que a realidade e ficção se misturavam? O que pode o leitor esperar de uma história que retracta um período tão negro da história?

Isso foi permanente, sobretudo quando a narrativa se situava na Polónia. Houve uma preocupação quase obsessiva de envolver a ficção em matéria comprovada. Isso é especialmente importante quando se aborda um tema com implicações tão sensíveis como o Holocausto. Mas, além dessas questões maiores, a preocupação estendeu-se aos pormenores, coisas como o nome de uma rua tal como era conhecida na altura, a descrição de um hotel em Cracóvia ou de um terminal de comboios em Nova Iorque.

A reacção do público surpreendeu-te? Queres contar algum episódio em particular?

É preciso ver que esta foi a minha primeira aproximação à escrita. A minha relação com a literatura tem 40 anos, mas exclusivamente enquanto leitor. Só parti para esta experiência porque a dada altura achei que tinha uma história verdadeiramente boa para ser contada, um enredo que valia o risco de lhe dedicar 3 ou 4 anos da minha vida para produzir um romance. A questão era saber se a história que existia à priori se mantinha boa uma vez escrito o livro. Quando o terminei convenci-me de que sim. E por isso tenho de te dizer que não me surpreende o interesse que o livro tem suscitado. Já da crítica não posso dizer o mesmo, não posso dizer que esperava as cinco estrelas com que o Público e o Expresso avaliaram o romance. Lá está, olha-se frequentemente para a crítica literária com alguma desconfiança, quando, por vezes, não é nela que está o preconceito.

Sarah Gross foge de um passado e procura enterrá-lo. Sentes que quem sobreviveu ao Holocausto teve o mesmo comportamento?

Não me parece que existam modelos comportamentais. Ao longo dos últimos anos, encontrei antigos prisioneiros que contam histórias muito diferentes sobre as suas vidas depois de Auschwitz. A verdade é que para eles não existe um “depois de Auschwitz”. Como eu digo no livro: “só se sobrevive a Auschwitz no dia em que se morre”. Esse será possivelmente o único traço comum no que lhes resta viver. Uma das personagens mais fascinantes que conheci pessoalmente chamava-se Kazimiersz Smoleń, um polaco que foi preso pela Gestapo e enviado para Auschwitz, onde lutou por sobreviver durante cinco anos. Passado pouco tempo após a libertação, voltou a Auschwitz, dirigiu o Museu, passou a viver naquele lugar e dedicou os muitos anos que lhe restavam a revisitar o passado. Foi um dos sobreviventes mais ativos na divulgação da história do campo, quer junto dos inúmeros grupos que visitavam o campo, quer como consultor – por exemplo, colaborou com o Laurence Rees, quer no livro, quer no documentário da BBC “Auschwitz: The Nazis and ‘The Final Solution”. Só saiu de Auschwitz no dia em que morreu. Tinha noventa e um anos, foi pouco tempo depois de se ter encontrado comigo, e – que coincidência excecional – partiu no dia 27 de janeiro, data em que se comemora a libertação do campo. Seja lá por que razão for, aí está o exemplo de quem se alimenta de um passado tenebroso para lhe sobreviver.

É importante não fechar as portas do passado. Sentes, de alguma forma, que escrever foi também uma forma de participares na memória colectiva de um acontecimento tão presente e doloroso?

Há uns anos recebi um e-mail surpreendente. Foi-me enviado por um senhor chamado Elie Wiesel, um judeu romeno, um homem absolutamente notável que sobreviveu a Auschwitz e a Buchenwald e que foi galardoado com o prémio Nobel da Paz em 1986. Nessa mensagem, entre outras considerações mais pessoais, ele escreveu: aquele que ouve uma testemunha, torna-se uma testemunha por sua vez. Não escrevi com outro objetivo que não fosse contar a história que me ocorreu a dada altura, mas sempre soube que colocar a ação nessa arena de perversidade que foi Auschwitz seria inevitavelmente um prolongamento das vozes que vinha encontrando ao longo dos últimos anos, as vozes dos que testemunharam com os próprios olhos o desastre da Shoah. E isso, enquanto autor, comprometia-me com o rigor e com a sensatez. É o princípio mais elementar para quem fala de Auschwitz.

Como se deu o contacto da televisão? Queres contar como foi a reportagem para a SIC?

Salvo raras exceções, os contactos preliminares com a imprensa são sempre feitos através da editora. Foi assim que aconteceu desta vez. Fui desafiado para ir com uma equipa da SIC e do jornal Público à Polónia. A ideia era fazer reportagens em Auschwitz e Cracóvia em torno do romance. Produziu-se material de grande qualidade, e isso só foi possível graças à imensa qualidade dos jornalistas que viajaram comigo.

Resumidamente, queres desvendar um pouco da história? Que sensações pensas estar a passar ao leitor(a)?

A narrativa divide-se ao longo do romance em dois contextos diferentes: nos finais dos anos 1960, em St. Oswald’s, um colégio elitista situado em Shelton, que é uma pequena cidade do Connecticut, na costa leste dos Estados Unidos, e, no período entre as duas guerras mundiais, em Oswiécim, na Polónia, a cidade que os alemães rebatizaram como Auschwitz em 1939. A ação abrange também os anos de ocupação pela Alemanha nazi. Como qualquer romance, este também conta histórias diversas, neste caso as histórias de duas mulheres, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura Americana, e Sarah Gross, a diretora de St. Oswald’s, uma judia polaca nascida em Chicago. Pela história pessoal de Sarah, o romance descobre a cidade que acolheu o campo de concentração e extermínio, mostrando ao leitor como um lugar feliz se transforma num símbolo da iniquidade, no inferno de Auschwitz. De resto, sei bem que não há abordagens epidérmicas quando nos aproximamos do Holocausto. O leitor é confrontado com o que de mais abominável o ser humano é capaz de produzir e isso é brutal. Muitas pessoas me disseram que tiveram de pousar o livro para assimilar certas coisas, mas, lá está, tudo aquilo aconteceu. Não há interpretações nem hipérboles, há descrições; cada qual lidará com elas à sua maneira.

Vês-te a escrever novo romance num futuro próximo? Ou Sarah Gross foi personagem única criada por ti?

Quero acreditar que a fonte não esgotou, ainda é cedo para isso. De qualquer maneira, só me inicio na escrita de um novo livro se idealizar uma história que me apeteça muito ler e que ainda não tenha sido escrita. Tal como aconteceu com Perguntem a Sarah Gross.

 

500_9789722057103_perguntem_sarah_gross[1]
Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador. Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou. Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História.

Perguntem a Sarah Gross
João Pinto Coelho
Publicado em 04-2015
Dom Quixote

Fotos: DR