Entrevista à investigadora Fátima Macedo

Fatima Macedo

A investigadora Fátima Macedo recebeu recentemente um bolsa de no valor de 140.000 dólares (cerca de 126.000 euros) pelo seu trabalho no estudo de uma doença genética rara, a Doença de Gaucher.

Fomos entrevistá-la.

 

Qual foi o seu percurso académico e científico?       

Licencie-me em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto em 1996. Iniciei a minha carreira científica no IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto), trabalhando sob a orientação da Prof. Leonor David. De seguida ingressei no programa doutoral GABBA (Programa Graduado em Áreas da Biologia Básica e Aplicada, UP), trabalhando em Imunologia com a Prof. Maria de Sousa (IBMC) e Prof. Nancy Andrews (Harvard University em Boston, USA). Desde 2005 que concílio a investigação científica com o ensino. Dá-me um grande prazer partilhar com os estudantes a minha paixão pela ciência. Atualmente, sou professora convidada na Secção Autónoma de Ciências da Saúde, Universidade de Aveiro. No campo científico sou, desde 2011, investigadora na Lysosome and Peroxisome Biology Unit (UniLiPe) do IBMC (Instituto de Biologia Molecular e Celular) no Porto, onde coordeno uma equipa de investigação que trabalha para a melhor compreensão do papel da acumulação de esfingolípidos em doenças lisossomais de sobrecarga na ativação do sistema imunológico.

O que a levou a estudar a Doença de Gaucher e em que é que consiste?

A pergunta que tem motivado a minha investigação nos últimos anos é saber de que modo os esfingolipidos condicionam a resposta de linfócitos T específicos para lípidos. A doença de Gaucher é a esfingolipidose (grupo de diferentes doenças em que há acumulação de esfingolipidos) mais frequente em todo o mundo (e neste aspeto Portugal não foge à regra), daí o meu interesse inicial no seu estudo.
Mais tarde, em 2011, foi descoberto que o principal lípido que se acumula nesta doença é capaz de ativar as células NKT (células do sistema imune) e que as células NKT são capazes de regular a atividade dos linfócitos B. Tendo em conta que os doentes Gaucher podem desenvolver mielomas e linfomas de células B, o meu interesse por esta patologia foi reforçado.

A doença de Gaucher é uma doença metabólica hereditária rara que afecta uma em cada 100000 pessoas. As manifestações clínicas desta patologia apresentam-se ao nível do sangue, órgãos internos (especialmente fígado e baço) e ossos, podendo ocorrer em qualquer idade.

 

Quais são os desafios futuros e em que aspectos este prémio vai facilitar atingir esses objectivos?

O desafio é sempre: “to do great science and to publish it before our competitors”. Este tipo de apoio financeiro é inestimável para a concretização deste objectivo.

 

foto: DR

noticia em: http://noticias.up.pt/genzyme-distingue-investigadora-do-ibmc-com-140-mil-dolares/

“GPS” intracelular – Entrevista a Dr. Marin Barisic, Investigador do IBMC, Porto

Dr. Marin Barisic

Marin Barisic é o primeiro autor de um estudo publicado na última edição da revista Science, uma das revistas com maior impacto científico. O investigador faz parte da equipa liderada por Hélder Maiato, do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) da Universidade do Porto e acaba de provar que existe um código da estrada dentro das células o qual ajuda ao movimento dos cromossomas durante a divisão celular. Este estudo seguiu-se a um outro publicado também recentemente na revista Nature Cell Biology, também esta com elevado impacto científico. Neste estudo explicam como diferentes forças geradas por proteínas motoras contribuem para o movimento dos cromossomas durante a divisão celular e que a interacção entre os diferentes motores é essencial para prevenir possíveis erros durante a segregação dos cromossomas.

Dr. Marin Barisic é natural da cidade costeira de Split, na Croácia. Estudou na capital, Zagreb, de onde partiu para fazer o seu doutoramento na Áustria, em Innsbruck. Durante o seu doutoramento tentou encontrar, em células humanas, novas proteínas reguladoras da divisão celular. Durante esse período, o seu interesse por tentar perceber os mecanismos que controlam a divisão celular foi crescendo, assim como a sua paixão pela microscopia e o seu potencial cada vez maior como instrumento de estudo científico.

O que o fez procurar Portugal como destino para fazer o seu pós- doutoramento?

Estava a procura de um bom laboratório europeu que me permitisse continuar a estudar a divisão celular e ao mesmo tempo aprender e aprofundar os meus conhecimentos de microscopia. Foi assim que encontrei o laboratório do Dr. Hélder Maiato, o qual contactei directamente. Para minha sorte, o grupo tinha acabado de ser premiado com uma ERC (European Research Council), a maior financiadora de projectos científicos europeus, o que me permitiu ser contratado e vir viver para Portugal já em 2011.

Já tinha estado em Portugal antes?

Não. Mas já conhecia bem a cultura portuguesa e da qual sempre gostei muito. Depois de ter estado nos Alpes foi uma maneira de me sentir outra vez mais em casa, numa cidade mediterrânica, com mar, bom peixe e marisco, bom vinho e sol.

Tendo em conta a sua experiência, qual a sua opinião em relação às condições de trabalho que encontrou por cá e o que acha do ambiente científico?

O laboratório tem umas fantásticas instalações de microscopia e está muito bem equipado. Estou inserido num grupo com um óptimo ambiente e bastante internacional. Existem também vários outros grupos a trabalhar “na porta ao lado” na mesma área que eu, como por exemplo o grupo do Professor Claudio Sunkel, o que traz massa crítica muito boa para o meu trabalho e para a discussão de ideias. Para além disso, há vários outros grupos de grande nível científico no instituto. Temos seminários todas as semanas com cientistas convidados de toda a parte do mundo com quem podemos estabelecer colaborações e trocar ideias. Outra coisa com imenso valor são os programas de doutoramento que tem alunos com grande qualidade e com quem tenho tido oportunidade de trabalhar.

E, para finalizar, quais são os seus planos para o futuro?

Sinto-me neste momento preparado para me tornar independente e criar o meu próprio grupo. Gostaria de ficar na Europa e não ponho de lado a ideia de ficar pelo Porto que adoro. Num futuro um pouco mais longínquo gostaria de voltar para a Croácia e levar aquilo que tenho aprendido para ajudar a desenvolver a ciência no meu país.

 

Obrigada Dr. Marin

A notícia pode ser lida completa no site da Universidade do Porto,

http://noticias.up.pt/equipa-do-ibmc-publica-na-science-descoberta-de-um-gps-intracelular/

ou vista em:

http://tv.up.pt/videos/rsaykkpm

Vacina criada no ICBAS prepara entrada em ensaios clínicos

Ponte_entre_Edificios

Foi durante o seu trabalho na equipa liderada por Paula Ferreira no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), que Pedro Madureira, se decidiu juntar à Venture Catalysts (empresa focada na criação de startups com base científica) para criar a Immunethep. O objectivo desta empresa será desenvolver uma vacina neonatal que possa ser administrada nas mães de forma a prevenir infeções bacterianas em recém-nascidos.

Esta foi a primeira vacina patenteada pela Universidade do Porto e foi licenciada à Immunethep para exploração comercial já em 2014 (http://noticias.up.pt/u-porto-licencia-pela-primeira-vez-uma-vacina/).

Segue-se agora um novo marco importante para o seu desenvolvimento. No passado dia 30 de Março, a Portugal Ventures fechou um investimento cujo valor vai permitir à Immunethep continuar com o desenvolvimento da vacina, avançar com os ensaios pré-clínicos e entrar em ensaios clínicos humanos.

Segundo a Immunethep, “todos os anos quase 1 milhão de bebés morrem devido a infeções bacterianas durante o primeiro mês de vida” e “não existe até à data nenhuma forma de as prevenir”. Acrescenta ainda que “o desenvolvimento desta vacina vai permitir cobrir 95% das bactérias responsáveis pelas infeções neonatais”.

Este é o resultado de uma investigação que já sem tem vindo a desenvolver há quase 30 anos e que começou com Mário Arala Chaves, fundador do Laboratório de Imunologia do ICBAS. A vacina vai permitir anular a ação de uma proteína bacteriana que é responsável por “desligar” o sistema imunitário dos recém-nascidos que pode levar ao desenvolvimento de pneumonia, meningite e, em casos mais severos, morte por choque séptico.

Pelos mais pequenos!

 

Websites:

Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS): http://sigarra.up.pt/icbas/pt/web_page.Inicial

Venture Catalysts:  http://www.venture-catalysts.com/

Immunotherp: http://www.immunethep.com/

Portugal Ventures: http://www.portugalventures.pt/

Fotos: DR