Jornal alemão fala de um “Milagre Português”, reconhecendo o esforço feito pelos empreendedores portugueses

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Há modas que vêm para ficar. Portugal está na moda, sim, mas creio que não só já o está há muito tempo, como que não vai embora assim tão cedo. Pois é, na verdade, o nosso país. Valioso, misterioso, surpreendente, bonito, histórico. Embora tente, Portugal é quase indiscritível. Mas o que é Portugal sem os portugueses? Os portugueses também são valiosos, e há que os reconhecer. E assim, por uma razão ou por outra, alguns o vão fazendo.

No passado dia 2 de Outubro, a edição online internacional do jornal alemão Der Spiegel escolheu falar de Portugal e dos portugueses. De como nós temos conseguido superar algumas das maiores dificuldades que um país pode passar, e o facto de que sabemos como dar a volta por cima. Helene Zuber, autora do artigo, diz mesmo: “A ressurgência da economia portuguesa é uma história de sucesso incrível.” Fala de como há agora toda uma nova geração de empreendedores e startups que renovam os espíritos de quem cá vive e ajuda a lutar contras as dificuldades que nos têm sido apresentadas.

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A Mónica e o João

Helene começa por descrever o que é estar na zona da Ribeira das Naus, onde observa os casais [que] se aconchegam nos bancos, um músico que toca melodia brasileiras no saxofone na rua, o rio Tejo que corre para sul e uma estátua gigante de Jesus que se consegue avistar na outra margem. Os turistas e locais põe os seus telemóveis no ar ao tentarem apanhar as melhores paisagens.” E neste ambiente em que se encontra, Helene diz que alguns vão ao tuk-tuk verde-lima de Mónica Santos e João Reis.

O início

O artigo começa por dar destaque a estes dois portugueses que montaram o “Mariá Limão”, “uma pequena carrinha de comida que vende limonada caseira e crepes, em pleno Julho.” Originalmente, Mónica Santos, de 33 anos, tinha trabalhado como assistente social, mas perdeu o emprego durante a crise. O mesmo aconteceu a João, de 38 anos, que estudou Matemática e Marketing na faculdade. “Nenhum queria deixar o seu país, tal como muitos da sua geração fizeram.”

Como também não era uma opção a de desistir, e aceitar as coisas como estavam, o que eventualmente levaria a que voltassem a viver em casa dos pais, quando souberam que o governo português estava a permitir que as pessoas montassem negócios nos tuk-tuks, pediram um crédito de 30.000€ às suas famílias e ao banco. Daí, compraram a máquina que já faz quase parte da paisagem lisboeta e todo o equipamento de cozinha que precisavam. “Embora Mónica tenha sempre gostado de cozinhar, agora vê-se a passar 10 horas do seu dia de pé, alternando com o João no grelhador de crepes e a espremedora.”

Agora

A Mónica e João já recuperaram metade do seu investimento. Com as coisas a correrem tão bem, João está também a considerar montar uma segunda carrinha de comida na praia da sua terra de origem, na região do Algarve, pois “gostava de dar emprego aos amigos desempregados que lá vivem.”

Mas tal como diz a autora do artigo, e bem, “eles não foram os únicos a perder o emprego.” Referindo a existência de uma “energia empreendedora e um novo espírito” em Portugal, continua a falar daqueles que não chegaram a sair do país à procura de outras oportunidades, e que, em vez disso, procuraram-nas por cá.

Decidiram correr riscos e estabeleceram os seus próprios negócios, “reinventando os produtos tradicionais, abrindo hotéis com novas características e restaurante não usuais. Desenvolveram software e tornaram-se designers de moda.”

“Ao fazê-lo, transformaram Lisboa num dos mais famosos destinos de viagem ao mesmo tempo criando um crescimento económico”, diz a jornalista.

Para a segunda parte do artigo, saltamos para a Embaixada, que é descrito pela autora como “um palácio do século 18 que foi convertido num centro comercial chique no quarteirão histórico de Lisboa” e ainda que “serve como uma espécie de embaixada para os melhores produtos feitos em Portugal.” E é assim que passamos a conhecer a Raquel.

 

Raquel Guedes

O início

“Apenas sentada em casa, sem respostas” diz Raquel Guedes, de 29 anos, ao falar de como se sentia depois ter vivido vários anos da sua vida a substituir professoras que estivessem em licença de maternidade, na Faculdade de Farmácia. Mas eventualmente cansou-se desse estilo de vida, chegando à conclusão: “Se não consegues encontrar alguma coisa na tua área, então tens que ter mais alguma a acontecer [na tua vida].”

Agora

Decidiu então lançar a sua própria linha de roupa de criança. Hoje em dia, Raquel aluga a sua própria loja dentro da Embaixada.

 

Como outros exemplos de sucesso, Helene não deixou de referir os casos da incubadora Startup Lisboa, que rendeu mais 250 empreendedores e criou 800 novos empregos, e o facto do Comité de Regiões da EU distinguir Lisboa como “Região Europeia Empreendedora” de 2015. E que comparativamente com outros países e cidades europeias, embora os nossos salários sejam mais baixos, e que os financiamentos não necessitam de ser tão dispendiosos, estamos a superar rivais como Amsterdão e Barcelona. Escreve ainda sobre a mais recente notícia de que “Lisboa irá ser anfitriã, nos próximos 3 anos, do Web Summit, uma das maiores conferências do seu tipo para jovens empreendedores tecnológicos, com 40.000 convidados previstos.”

E assim, passamos para a terceira e última parte do artigo, em que nos são apresentados mais 3 grandes casos de sucessos de portugueses que tiveram que perseverar para prosperar.

 

Duarte D’Eça Leal

“A verdade é que a crise foi uma oportunidade”, diz Duarte. Tem apenas 30 anos mas gere um dos hotéis mais hip de Lisboa – um hostel de luxo que só o nome diz tudo: “Independente”.

O início

“Quando tinha 15 anos, Duarte foi para o colégio interno de Oxford e mais tarde para a faculdade na “London Business School”. Uma década depois, começou a sua carreira numa grande empresa imobiliária na Grã-Bretanha.” Ao falar desses tempos diz:“(…)Senti que me estava a faltar alguma coisa”. Decidiu que preferia investir o seu talento em Portugal e tentar implementar as suas ideias no seu local de origem. “Eu senti que Portugal tinha muito potencial”, diz Duarte D’Eça Leal. E assim, no final de 2011, ele e os irmãos renovaram o palácio localizado no Bairro Alto e abriram um hostel e suites para os viajantes.

Agora

Duarte é o dono de uma dúzia de quartos, com tudo desde beliches a quartos duplos e suites, preenchidos com mobília vintage e tecidos portugueses. Existem dois restaurantes que estão colocados dentro do “Independente”. Mesmo com o aumento de impostos, o hostel prosperou e hoje já tem mais um edifício vizinho, conseguindo empregar ao todo 120 colaboradores.

“O sucesso de Duarte é o produto da sua própria iniciativa criativa.”

 

Filipa Neto

Com apenas 25 anos, Filipa poderia ter escolhido estabelecer o seu negócio em qualquer lugar da Europa, mas ela e os seus 13 colaboradores estão instalados em Lisboa.

O início

Filipa defende que quer ficar em Portugal e ajudar a trabalhar na sua parte, promovendo o crescimento do seu país. Há um ano e meio atrás, Filipa estabeleceu a start-up “Chic by Choice”, uma empresa que disponibiliza roupas de luxo para alugar online. Em primeiro lugar, conseguiu meio milhão de euros em capital de risco para lançar a empresa, “uma grande responsabilidade para uma jovem” diz Helene. E depois disso, foi trabalhar para alcançar os seus objectivos.

Agora

Do seu escritório em Lisboa, os colaboradores da “Chic by Choice” compram e enviam Haute Couture para toda a Europa. “A empresa é tão bem sucedida que Filipa quer contratar duas novas pessoas a cada mês. E não é tudo, ela diz com um sorriso: Em Agosto, ela adquiriu um concorrente alemão.”

Talvez os portugueses comecem a perceber. Ou melhor, a aperceber. A aperceberem-se da excelência que é Portugal, que são os portugueses, das suas excelentes capacidades e que, com ou sem obstáculos, por mais difíceis que sejam, conseguimos ultrapassá-los e prosperar. É importante que percebamos aquilo que se passa à nossa volta. É importante acreditar em nós e nos outros. Somos excelentes, e podemos começar a ouvir isso de americanos, alemães, ou de pessoas de qualquer outra nacionalidade, mas por que não começar a ouvir isso de portugueses?

 

Fontes: Spiegel.de
Fotos: DR