Ator, realizador, e autor da primeira novela portuguesa. Pai de duas filhas, casou três vezes. Fez de homem, de mulher, de bom e de vilão. Fez rir e fez chorar. Mas mais do que nunca fez chorar todos aqueles que sem aviso lhe disseram adeus.
Meus Senhores… A missão do actor é simplesmente emocionar as pessoas. Levá-las ao riso ou às lágrimas. Fazer com que nos odeiem ou nos amem. Enfim….é fazê-las sonhar. Quando isso acontece, a vossa missão está cumprida.
As curiosidades sobre Nicolau Breyner começam exactamente no nome do actor. E se lhe dissermos que Nicolau não era o primeiro nome, nem Breyner o último apelido? João Nicolau de Melo Breyner Lopes, nome completo do ator, nasceu a 30 de julho de 1940, em Serpa. Passou a sua infância no Alentejo, mudando-se mais tarde para Lisboa, uma mudança que exigiu habituação – “Era um animal de campo, estava habituado a levantar-me às seis da manhã e ir para o campo com o meu avô”.
Já na capital, começou a estudar canto na Juventude Musical Portuguesa. Concluiu o ensino secundário no liceu Camões, ingressando mais tarde na Faculdade de Direito de Lisboa, com o sonho de se tornar diplomata. De diplomata a ator foi apenas um passo. Nicolau desistiu do curso e mudou-se para o Conservatório Nacional, onde se inscreveu no curso de canto, e mais tarde, no de teatro.
Na verdade, Nicolau poderia ter sido cantor de ópera, sendo-lhe reconhecidos grandes dotes vocais. Mas o ator rapidamente percebeu que não conseguiria aceitar as regras e o rigor da profissão “As leis da ópera são de alta competição: não beber, não fumar, não apanhar sol, ter cuidado com a alimentação, não namorar muitas meninas. Foi quando disse: ‘Nem pensem nisso.’ Eu queria viver!”.
Os primeiros passos como ator foram dados ainda enquanto aluno do Conservatório. Foi através de um convite de um professor, Francisco Carlos Lopes Ribeiro, que integrou o elenco da peça Leonor Teles. Com um papel que alguns poderiam considerar de pouco destaque, Nicolau não passou despercebido aos olhos dos principais produtores de teatro. Do pequeno papel passou a cabeça de cartaz nos teatros de revista do Parque Mayer, onde contracenou com figuras nacionais da comédia portuguesa, como Raul Solnado.
Casou-se pela primeira vez aos 25 anos, relação que terminou ainda durante a lua-de-mel. Sobre este casamento breve, Nicolau esclareceu a curiosidade “Porque é que quis casar? Fiz muita coisa na vida que ainda estou para perceber porquê”.
Apesar de não se ter tornado cantor de profissão, o canto esteve sempre presente na vida de Nicolau, sobretudo no teatro de revista. Mas o talento do ator foi mais além. Em 1968 concorreu ao Festival da Canção, interpretando “Pouco Mais”, da auditoria de César de Oliveira (letra) e de João Vasconcelos (música). Perdeu a vitória para Carlos Mendes, mas conquistou o 4º lugar na competição.
A nível profissional, os palcos não foram a sua única conquista. Antes do 25 de Abril dedicou-se ao teatro radiofónico na Emissora Nacional, assim como ao cinema, participando em vários filmes. Mas foi apenas após a revolução, que Nicolau se tornou num fenómeno de popularidade, como lançamento do seu primeiro programa de televisão, ‘Nicolau no País das Maravilhas’. O programa contava com pequenas peças de humor em que era feita uma crítica da situação económica e política do país.
E se falarmos do Sr. Feliz e do Sr.Contente? Foi com esta rábula que Nicolau Breyner dava a conhecer ao público português aquele que se viria a tornar num dos grandes humoristas nacionais, Herman José. Juntos, falavam da situação do país, cantando o famoso “Diga à gente, diga à gente, como vai este país”. O sketch, que se tornou viral, proporcionou ao ator algumas aventuras –‘ Num espetáculo no Porto, no Palácio de Cristal, eu e o Herman tivemos de sair por uma janela e entrar no carro da policia, tal era a loucura. Com esse sketch nasço como ator de televisão’, contou à Noticias Magazine em 2014.
O percurso no humor continuou, com o programa Eu Show Nico, em 1980. No entanto, não tardava a que Nicolau começasse a dar cartas no mundo das telenovelas. Escreveu a primeira novela portuguesa, Vila Faia, em conjunto com Francisco Nicholson e Thilo Krassman. Mas o contributo de Nicolau não ficava apenas atrás das câmaras. O ator português integrou o elenco da novela transmitida em 1982 pela RTP1,com o papel de João Godunha.
Nos anos seguintes dividiu-se entre a televisão e os palcos, acabando por fundar a sua própria produtora de televisão, a NBP. Nicolau Breyner dedicou-se sobretudo à televisão, com várias séries entre as quais o Euronico e o Reformado e Mal Pago. Mas como homem dos sete ofícios que demonstrou ser ao longo dos anos, rapidamente saltou para os ecrãs de cinema. Integrou o elenco de filmes como Jaime, Inferno e Os Imortais.
Com um vasto trabalho transversal aos vários formatos, Nicolau foi distinguido em 2005 com o Grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito, pelo então Presidente da Republica, Jorge Sampaio.
Um homem camaleónico, que de ator rapidamente se transformava em produtor, realizador e argumentista. Ao longo da sua carreira, participou em mais de 50 filmes, recebendo 3 Globos de Ouro, entre diversos prémios com que foi sendo distinguido.
Em 2010, em entrevista ao Publico, Nicolau falou daquela que pode ser a formula para o sucesso, indicando as proporções matemáticas para o atingir – “Quando dizem que a nossa profissão é 30 por cento de talento e 70 por cento de trabalho, é ao contrário. Doa a quem doer. E provo. São 75 por cento de talento e 25 por cento de trabalho. Os 75 foram-me dados por Deus, não tenho por que ser orgulhoso. É-se orgulhoso do que fazemos, do que produzimos”.
Recentemente realizou filmes como a Teia de Gelo e os Sete Pecados Rurais e integrou a nova versão da novela Jardins Proibidos, fazendo igualmente parte do elenco de Virados do Avesso.
Quando se chega à minha idade tem-se saudade inclusive das coisas más. Não é só das boas. Porque, no fundo, temos saudades de nós próprios.
Em entrevista ao jornal Publico, Nicolau confessou que não se sentia a envelhecer, mas que o cancro que lhe fora diagnosticado lhe tinha dado “a certeza de que isto ia acabar mais cedo ou mais tarde” reconhecendo que “O fim está mais próximo do que estava há dez anos”.
Ao longo dos anos marcou o panorama do teatro, do cinema e da ficção nacional. Fez sorrir, gargalhar, fez pensar e fez chorar. Deixou saudades nos intervalos em que estava longe do olhar dos portugueses. Agora deixa saudades do adeus inesperado.
Sobre como gostaria de ser lembrado, Nicolau dizia “Ser lembrado já é bom”. E os portugueses vão lembrá-lo para sempre.
Fontes: Público; Notícias Magazine
Foto: Página FB