O que fazem as crianças que vivem no deserto a 180 km da escola mais próxima? Foi esta a realidade que uma psicóloga portuguesa, Andreia Hesemans, encontrou quando se mudou da capital da Namíbia (Windhoek) para Sossusvlei, no Deserto do Namibe. Neste cenário árido mas deslumbrante, são vários os complexos turísticos que se instalaram entre as dunas. Andreia reparou que, dada a inexistência de transportes públicos na região, os filhos dos trabalhadores destes hotéis simplesmente não iam à escola.
Quando foi mãe, há seis anos, a psicóloga apercebeu-se do impacto que a ausência de uma escola tinha nestas crianças. Resolveu, então, criar uma. Foi a partir do negócio Namib Sky Ballon Safaris (www.namibsky.com) do sogro de Andreia que surgiu o fundo comunitário Namib Sky que financia, em conjunto com donativos provenientes de todo o Mundo, a nova pré-escola Little Bugs (www.little-bugs.org). Esta tem hoje 25 alunos entre os 2 e os 5 anos e é dirigida aos trabalhadores dos hotéis desta região. Foi doada à Little Bugs uma carrinha para transportar as crianças, diariamente, entre a casa e a escola. Cada aluno tem um custo anual de 2200€ mas os pais apenas fazem uma pequena contribuição para o transporte.
O programa escolar inclui aulas de artes, música, desporto e culinária. No entanto, os alunos na Little Bugs ganham muito mais do que seria de esperar de uma escola.
Em geral, na Namíbia, a alimentação não é equilibrada: 29% das crianças (http://www.unicef.org/sowc2011/pdfs/SOWC-2011-Statistical-tables_12082010.pdf) com menos de 5 anos sofre de um atraso, por vezes irreversível, no desenvolvimento tanto físico como cognitivo devido à falta de ingestão de nutrientes. Este atraso resulta, por exemplo, num mau desempenho escolar pelo que melhorar a sua alimentação é crucial. A Little Bugs tem um papel fundamental neste processo. Os alunos recebem gratuitamente pequeno-almoço, lanche da manhã e almoço o que melhora, sem dúvida, a qualidade de vida de uma criança assim como o seu futuro.
Para além disso, a escola fornece água potável aos seus alunos. A água limpa é um bem muito preciso num ambiente desértico e num país onde, nas zonas rurais, de acordo com a Unicef, 15% da população ainda não tem acesso a água potável estando em constante risco de contrair vários tipos de doenças.
Segundo Andreia, antes de virem para a escola, estas crianças não falavam inglês, apesar de ser a língua oficial na Namíbia. Agora, todos dominam esta língua que é a terceira mais falado no Mundo aumentando, desta forma, as suas oportunidades no futuro.
Estes 25 alunos são agora crianças mais felizes e saudáveis! A Little Bugs acredita no que B.B. King uma vez disse: “The beautiful thing about learning is that no-one can take it away from you”. O que aprenderam nesta pré-escola vai ficar com eles para sempre. Andreia criou um projeto que conseguiu, assim, garantir a estas crianças, que vivem num lugar inóspito do planeta, um início de vida igual ao de qualquer criança que viva na cidade. O próximo passo é angariar fundos para que a escola continue a crescer de modo a acolherem as crianças que, neste momento, se encontram em lista de espera. Um dia, pretendem que a escola inclua também o ensino primário.
Veja aqui (www.little-bugs.org/the-movie) um pequeno filme sobre a Little Bugs, um projeto brilhante de uma portuguesa no deserto.
Foto: DR