Gente bonita come “fruta feia”

Cozinha%20bonita%20com%20Fruta%20Feia_0[1]

Quem nunca ouviu a mãe, o pai ou a avó repetir vezes sem conta “É para comer tudo o que tens no prato, não se deita comida fora.”? A realidade é que, antes de chegar à nossa mesa, cerca de metade da comida produzida no mundo vai parar ao lixo.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), as 1.3 mil milhões de toneladas que são anualmente desperdiçadas seriam suficientes para alimentar todas as pessoas que passam fome no mundo.

O mesmo acontece a cerca de 30% da fruta produzida em Portugal. Embora saborosa e de qualidade, os agricultores não conseguem vender às mercearias e supermercados 30% da fruta que produzem por esta não ter o aspeto perfeito a que os consumidores estão habituados. Isto significa que 3 em cada 10 maçãs, 30 em cada 100 peras e 300 em cada 1,000 laranjas colhidas vão diretamente para o lixo.

Para além do desperdício alimentar que isto representa, esta situação tem um impacto ambiental considerável: gastam-se em vão água, energia e terreno para produzir alimentos que acabam no lixo. De seguida, a decomposição destes alimentos não consumidos emite gases associados ao efeito de estufa e aquecimento global, como o metano e o dióxido de carbono.

O desperdício alimentar leva também a um aumento dos preços dos produtos que chegam aos supermercados de forma a cobrir os custos de produção dos alimentos não aproveitados. Estudos demonstram que quando o dinheiro é escasso, surge uma tendência para poupar em fruta e legumes optando por alimentos mais baratos mas também menos saudáveis. Por isso, no contexto atual em que muitas famílias portuguesas enfrentam dificuldades financeiras, é particularmente importante acabar com este tipo de desperdício.

A solução para este problema é bastante simples: parar de deitar comida fora só porque é “feia”. Para ajudar a acabar com o desperdício alimentar no nosso país surgiu em 2013 a inovadora Cooperativa Fruta Feia. Foi o 2º prémio do concurso FAZ – Ideias de Origem Portuguesa promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian em conjunto com a COTEC em Junho de 2013, que impulsionou o arranque da cooperativa de consumo Fruta Feia CRL em Novembro de 2013.

Este projeto pretende “reduzir as toneladas de alimentos de qualidade que são devolvidos à terra todos os anos pelos agricultores e com isso evitar também o gasto desnecessário dos recursos usados na sua produção, como a água, as terras cultiváveis, a energia e o tempo de trabalho”.

Como? A Cooperativa Fruta Feia compra diretamente aos agricultores a fruta e legumes que estes não conseguem escoar para o mercado devido à aparência. Com estes produtos enchem cestas que depois vendem aos consumidores associados. A recolha das cestas pelos consumidores é feita uma vez por semana num dos três locais de entrega (dois em Lisboa e um na Parede). Neste momento a Cooperativa Fruta Feia é composta por uma rede de 34 agricultores e 800 consumidores associados. Pretendem levar a Fruta Feia até ao Porto já em 2016, mas ambicionam um dia abranger todo o país.

O impacto deste projeto não passou despercebido. Ao fim de apenas 6 meses de existência já era notícia no The New York Times. Foi considerada a Ideia do Ano pela Time Out, e recebeu vários prémios entre os quais se destaca o Prémio de Inovação do Crédito Agrícola.

O valor da Fruta Feia já se mede às toneladas: poupam-se semanalmente em Portugal 4 toneladas de fruta e legumes de excelente qualidade que, de outra forma, iriam parar ao lixo.

Caso se queira juntar a esta ideia, basta inscrever-se na página da Fruta Feia, pagar uma quota anual de 5 euros e comprar um cabaz semanalmente. Para além de poupar, compra fresco e local.

Foto: DR