Aquicultura – Madeira é uma referência (entrevista à Drª Natacha Nogueira)

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Portugal apresenta um consumo elevado de peixe per capita (aprox. 60kg/habitante/ano) e importa a maioria do pescado que consome. A UE também é deficitária nesta área e recorre à importação, em vários continentes, de mais de 70% do pescado consumido.

Tendo em conta a redução dos stocks naturais de peixe,a aquicultura afigura-se, cada vez mais, como uma solução e actividade económica de elevado potencial. O nosso país, na Costa Sul e na Ilha da Madeira, possui condições muito interessantes para a produção em aquicultura em mar aberto (offshore). 

Na Madeira, esta actividade é desenvolvida por duas empresas, a Aquailha e a Ilhapeixe. A produção atinge já as 650 toneladas e representa um volume de negócios superior a um milhão de euros. A principal espécie produzida é a dourada cujos destinos principais são o continente, Espanha e de uma forma residual para a Venezuela.

O desenvolvimento da actividade pode contar com apoios comunitários e prevê-se a duplicação da produção actual, em como a introdução de novas espécies.

O Governo Regional teve um papel importante no desenvolvimento desta actividade com a criação da primeira piscicultura piloto: o Centro de Maricultura da Calheta. Esta estrutura presta apoio técnico às empresas,através da investigação em novas espécies e na promoção da formação.

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A Excelência Portugal quis saber mais sobre o potencial desta actividade na Madeira e entrevistou a Drª Natacha Nogueira. Esta bióloga desenvolveu uma tese de mestrado nesta temática e possui vasta experiência desenvolvida no Centro de Maricultura da Calheta.
A Madeira pode tornar-se uma referência  produção de peixe em cativeiro, a par dos países nórdicos, como a Noruega, na criação de salmão ?

Equiparar a produção actual madeirense à produção dos países nórdicos seria presentemente pouco sensato. A balança consumo/produção aquicola é ainda muito deficitária, mesmo a nível nacional. Se assumirmos que os portugueses são os maiores consumidores de peixe na União Europeia, com uma média anual de 56 quilos de peixe per capita e que a produção aquícola atingiu em 2012, somente as 10.317 toneladas (dados do INE), compreende-se facilmente a fragilidade do sector a nível regional e nacional. Ainda assim, as 450 toneladas produzidas na Região Autónoma da Madeira (RAM), representam no cômputo geral uma percentagem significativa da produção nacional de dourada em águas marinhas (895 toneladas) (dados do Plano Estratégico para Aquicultura 2014-2020).

À semelhança do cenário nacional, o principal destino da produção regional é o mercado nacional. A entrada nos mercados internacionais é de difícil acesso para as pequenas-médias empresas (caso das actuais empresas estabelecidas), sem apoios governamentais e sem uma estratégia de mercado concreta, que poderia passar pela diferenciação do produto final. Apesar de tudo, a RAM oferece condições de excelência para a produção aquícola, que resulta da combinação de factores ambientais, institucionais e económicos. Uma temperatura média elevada das águas do mar e a sua baixa amplitude anual, quando comparadas com as da Europa continental são os factores ambientais determinantes para o mais rápido crescimento dos peixes e consequentemente um menor ciclo de produção. Por outro lado, o regime de baixa ondulação e a rara ocorrência de tempestades permitem a utilização de jaulas de cultura estandardizadas para mar aberto (inshore e offshore), com acesso fácil e regular às mesmas para efectuar trabalhos de alimentação e manutenção. Assim sendo, entende-se facilmente o facto da Região poder vir a destacar-se no plano nacional, pelas condições que oferece para a produção em zonas costeiras ou de mar aberto, de espécies como a dourada (a única produzida actualmente), ou mais recentemente espécies como o pargo, sargo e charuteiro.

Que papel tem o Centro de Maricultura da Calheta nesta actividade e como se relaciona com as empresas?

O Centro de Maricultura da Calheta (CMC) surge como uma referência de apoio aos produtores. Na sua estratégia de funcionamento o CMC colabora com as diferentes entidades envolvidas na produção aquicola através da divulgação da actividade, realçando a sua importância económica, bem como a sua promoção e integração junto dos consumidores. As linhas orientativas do CMC têm por base o apoio aos produtores na procura de diversificação de espécies de cultura com prioridade para espécies de alto valor de mercado e com possibilidade de acrescentar valor através da transformação pela indústria regional. Os trabalhos realizados visam não só o desenvolvimento das espécies em questão em cativeiro, como procuram averiguar e divulgar a qualidade das mesmas do ponto vista nutricional.

Nesse sentido, o CMC está estabelecido como uma das únicas (senão a única) maternidades de alevins de dourada em Portugal. Apesar de insuficiente para abastecer as necessidades actuais de produção local, o CMC continua a investir em projectos de investigação para o desenvolvimento de novas espécies. Projecto como o PARGOGEN e o +PEIXE (com fundos comunitários) foram exemplo da participação e papel fundamentais do Centro para o aparecimento de novas espécies, como é o caso do pargo. Mais recentemente, foi estabelecido um acordo entre a ARDITI- Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação Tecnológica e Inovação, que tem como base a criação de um projecto para valorização do ouriço-do-mar, com o apoio do Observatório Oceânico da Madeira da Direcção Regional de Pescas e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto.

a escolha da(s) espécie(s) a produzir terá que seguir uma selecção criteriosa e, preferencialmente, baseada em conhecimentos científicos, bem como no potencial de utilização comercial da(s) mesma(s)

Quais os critérios para introdução de novas espécies?
Uma ressalva para o facto de o aparecimento de novas espécies no mercado não ser um processo rápido, se entendermos que para poder fechar um ciclo de produção integral, há primeiro que investigar: criação de ovos embrionados através de uma unidade de reprodução; engorda de alevins (peixe que sai do ovo e que se alimenta de zooplâncton); engorda de juvenis e finalmente dos reprodutores. Como cada espécie se desenvolve num meio com características específicas (de iluminação, quantidade e qualidade correcta de alimentos, temperatura, salubridade da água, quantidade de oxigénio dissolvido na água, etc.), a escolha da(s) espécie(s) a produzir terá que seguir uma selecção criteriosa e, preferencialmente, baseada em conhecimentos científicos, bem como no potencial de utilização comercial da(s) mesma(s). Contudo, a engorda de espécies como o charuteiro (divulgado recentemente por uma das empresas locais), é parte constituinte do processo de aquicultura que permite simultaneamente a colocação de uma nova espécie no mercado, de crescimento rápido e com elevado poder de transformação- ex. filetes.
Estamos no momento certo. A aquacultura inshore ou offshore é uma das grandes áreas de investimento previstas no novo pacote financeiro comunitário, que vigorará entre 2016 e 2020. A RAM tem a materia prima, o know how técnico, e o capital humano necessario para  contribuir significativamente para o aumento da expressão do sector na economia nacional.
Recentemente, o presidente do Governo Regional adiantou que no próximo ano serão apoiados novos projectos ao nível da aquacultura, estimando que a produção na Madeira poderá crescer até às 3.500 toneladas. Estamos perante um dos sectores económicos com maior potencial na ilha?

Para fazer frente as necessidades actuais do sector aquícola nacional, é necessário que localmente se adoptem soluções articuladas e integradas com o sector nacional e que vão de encontro ao Plano Estratégico para Aquicultura Portuguesa no horizonte temporal de 2014-2020: “Aumentar e diversificar a oferta de produtos da aquicultura nacional, tendo por base princípios de sustentabilidade, qualidade e segurança alimentar, para satisfazer as necessidades de consumo e contribuir para o desenvolvimento local e para o fomento de emprego”.

Uma vez mais, a colaboração entre insitituições como o CMC, o Observatorio Oceânico da Madeira, a Universidade da Madeira e os produtores locais assume maior relevancia. Só assim será possivel compreender rapidamente os requisitos nutricionais das espécies potenciais; desenvolver dietas especificas para reprodutores que permitam a sua domesticação; compreender as necessidades nutricionais das diferentes fases do ciclo de vida; melhorar estratégias de alimentação com base no uso de produtos agrícolas e sub-produtos pesqueiros e compreender as necessidades do mercado local e nacional de uma forma competitiva.

Estamos no momento certo. A aquacultura inshore ou offshore é uma das grandes áreas de investimento previstas no novo pacote financeiro comunitário, que vigorará entre 2016 e 2020. A RAM tem a materia prima, o know how técnico, e o capital humano necessario para  contribuir significativamente para o aumento da expressão do sector na economia nacional. Agora só faltam investidores….

 

Fontes: Cluster do Mar, Funchal Notícias, Dnoticias.pt e DN
Foto: DR/CUT