
A perda de um neurotransmissor num tipo específico de neurónios causa perturbações do desenvolvimento do sistema nervoso, levando ao aparecimento de defeitos comportamentais semelhantes aos registados na esquizofrenia e no autismo. Um dos autores da investigação, publicada na conceituada revista Molecular Psychiatry, foi o cientista português António Pinto-Duarte, investigador na Universidade da Califórnia, San Diego (UCSD).
O objectivo do estudo, realizado em ratinhos, era identificar o receptor que provoca um desenvolvimento anormal do sistema nervoso, por não estar presente numa determinada classe de neurónios. A investigação mostra como a perda de um dos receptores de glutamato, denominado “mGluR5” (metabotropic glutamate receptor 5), pode estar relacionado com alterações ao nível do desenvolvimento neuronal.
![AAEAAQAAAAAAAAJJAAAAJGJhNTE2ZTM0LWRhNWUtNDQ2NC04NjQ3LTM1OWQ5YTcwMWI3Ng[1]](http://excelenciapt.com/site/wp-content/uploads/2015/08/AAEAAQAAAAAAAAJJAAAAJGJhNTE2ZTM0LWRhNWUtNDQ2NC04NjQ3LTM1OWQ5YTcwMWI3Ng1-300x300.jpg)
Em comunicado à agência Lusa, António Pinto-Duarte afirmou: “ Verificamos que a perda do receptor mGluR5, especificamente nos neurónios parvalbuminérgicos de ratinho, durante o desenvolvimento pós-natal, alterava as funções normalmente desempenhadas por esses neurónios na rede neuronal”. A consequência é o aparecimento de “defeitos comportamentais semelhantes aos verificamos em doenças como a esquizofrenia e o autismo” e que incluem “comportamentos repetitivos e problemas de socialização”, explicou o cientista português.
Esta descoberta, permitiu, segundo os seus autores, “reforçar a ideia de que a configuração da rede neuronal pode ser afectada no período pós-natal, e não apenas durante a gravidez, confirmando a particular vulnerabilidade e susceptibilidade desse período a fenómenos patofisiológicos”. De acordo com António Pinto-Duarte, o resultado da investigação “é relevante, não apenas por identificar um novo alvo terapêutico, mas também por servir de motivação a estudos futuros, que possam conduzir a que esse défice possa ser, eventualmente, compensado através de estratégias farmacológicas ou por terapia genética”.
A importância do receptor mGluR5 já tinha sido demonstrada por outros trabalhos científicos, através das consequências relacionadas com a sua eliminação total no cérebro. No entanto, explicou o investigador, “até agora, ninguém tinha estudado a sua função específica numa classe de células nervosas inibitórias, denominadas neurónios parvalbuminérgicos, que se pensa serem cruciais para os mecanismos cognitivos”. Pinto-Duarte sublinha que serão necessários mais estudos para confirmar, de forma contundente, a ligação aos receptores, mas que “tal abriria portas a eliminar, ou pelo menos minimizar deficiências comportamentais que muitas vezes afectam de forma significativa a vida dos indivíduos e a sua normal integração na sociedade”.
O investigador português é o segundo autor do estudo, que foi coordenado pelos investigadores Terrence Sejnowski e Margarita Beherens do Instituto Salk, e Athina Markou, da Universidade da Califórnia de San Diego.
Fontes: Jornal Médico, Ciência Hoje e Lusa