Madalena Seabra – “Percebi realmente que posso e consigo ajudar as pessoas”

nepal1aO meu nome é Madalena, tenho 23 anos e sou de Lisboa. Estudo Direito na Universidade de Lisboa mas sempre tive a ambição de fazer voluntariado fora de Portugal. O Nepal surgiu através de um primo que esteve aqui através da All Hands Nepal, logo a seguir aos terramotos.

Sinto que descobri a minha vocação aqui!
O meu primo explicou-me tudo sobre a organização e o quanto tinha gostado das pessoas que fazem parte desta, e senti que era aqui que devia ter a minha primeira experiência de voluntariado fora de Portugal.  Quando ele cá esteve, o projecto consistia basicamente em demolir casas e estruturas e fazer a limpeza de tudo o que tivesse sido destruído durante o terramoto.

Só quando cá cheguei é que percebi realmente o quanto esta comunidade precisa de ajuda, e vejo diariamente a gratidão que sentem por estarmos aqui com eles, não só a construir escolas para as suas crianças, mas também a conhecer e abraçar a sua cultura.

Nunca pensei que me fosse identificar tanto com o projecto e com as pessoas que aqui trabalham. Estamos todos aqui para que centenas de crianças possam ter um lugar seguro onde estudar, e ao vê-las todos os dias a ter aulas em contentores de metal temporários com 30 graus de temperatura conseguimos ganhar ainda mais forças para trabalhar para isso.
nepal2Acordamos todos os dias às 05h30 da manhã e é surpreendente como todos temos um sorriso na cara, mesmo que a maior parte de nós não sinta as pernas por causa do trabalho do dia anterior. Trabalhamos das 07h às 16h a fazer todo o tipo de coisas, desde tirar pregos de madeiras para as podermos reutilizar, a construir as estruturas (colunas, paredes) ou pôr cimento no que já estiver pronto para pavimentar.

O trabalho é bastante duro, alguns conseguem aguentar o dia todo, outros tiram algum tempo para descansar se sentirem que está a ser pesado demais. Todos trabalham a 110 por cento e nunca pensei que apenas duas mãos pudessem fazer uma diferença tão grande. Ajudamo-nos mutuamente, tanto fisicamente como psicologicamente, e o trabalho de equipa faz com que tudo se torne um bocadinho mais fácil.

O povo nepalês é dos povos mais acolhedores e fortes que já tive o prazer de conhecer, e há certos trabalhos em que cada voluntário trabalha com um “mason” nepalês durante o dia. Para mim foi dos melhores dias que tive aqui, porque aprendemos a comunicar com uma pessoa sem falar, só através de gestos e ganhamos outra perspectiva, sendo que todos eles e as respectivas famílias estiveram aqui durante os dois terramotos e, mesmo assim, querem ajudar a reconstruir tudo e a dar às suas crianças a educação que merecem.

Sinto que descobri a minha vocação aqui. Quero e sei que posso ajudar muitas pessoas só por oferecer um dia de trabalho, e ao estar aqui percebi que cada pessoa faz a diferença. São mais duas mãos a trabalhar, mais duas mãos a ir buscar água e a distribuir pelos voluntários, mais duas mãos a ajudar um “mason” a construir uma parede ou a aprender com ele como construir as formas de madeira para edificar a escola.
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Sinto que o trabalho que faço aqui é muito importante e útil, e quero continuar a fazê-lo para o resto da minha vida. Seja em Portugal ou fora de Portugal, percebi realmente que posso e consigo ajudar as pessoas, mesmo sem ter qualquer experiência em construção.

Os desastres naturais são uma realidade diária, e vai sempre haver algum sítio que precisa de mais mãos para trabalhar. Por isso quero oferecer as minhas, sempre que puder, onde precisarem de mim.
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Estou eternamente agradecida ao meu primo e a todos os que me receberam aqui no projecto, e sinto-me em casa na base, embora as condições não sejam as melhores.

Aprendemos a adorar banhos de água fria, a dar graças pelo prato de comida à nossa frente (que é basicamente arroz com batatas todos os dias) e a sentirmo-nos completos por ajudarmos todas estas pessoas que precisam tanto da nossa ajuda.

Os progressos são visíveis, em uma semana passámos de ter apenas as estruturas edificadas para ter todo o chão pavimentado e as paredes construídas com tijolos.

Aconselho vivamente a toda a gente a informar-se sobre a organização, que tem projectos em vários sítios por todo o mundo.
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Há sempre lugar para nós, e quanto a mim, não podia estar mais feliz por ter vindo para aqui.


Fotos: DR