Cientistas portuguesas descobrem forma de tornar o parasita da malária vulnerável

maria_manuel_motaUma equipa de investigadores do Instituto de Medicina Molecular (iMM) descobriu um mecanismo através do qual o parasita da malária fica vulnerável à toxicidade do ferro presente no corpo humano, impedindo-o de se multiplicar.

Apesar dos esforços redobrados por parte da comunidade internacional para a erradicação da malária, esta doença continua a ter um enorme impacto global, com cerca de metade da população mundial em risco de ser infetada. Durante a infeção do hospedeiro humano, os parasitas Plasmodium, agentes da doença, possuem duas fases distintas do seu ciclo, cada uma num ambiente celular muito diferente. Durante a fase hepática, um único esporozoíto do género Plasmodium invade um hepatócito (célula do fígado) e, enquanto aí se encontra, supostamente sem ser detetado pelo hospedeiro, dá origem a milhares de novos parasitas, os quais iniciarão a fase subsequente de infeção sanguínea. Apesar de apenas 10 a 20 novos parasitas serem gerados dentro de cada eritrócito infetado por cada ciclo de divisão, os ciclos consecutivos de lise e re-infeção causam uma resposta potente do hospedeiro, bem como os sintomas típicos da malária.

A equipa liderada pela investigadora Maria Manuel Mota, diretora executiva do iMM e vencedora de vários prémio sendo o mais recente o prémio pessoa em 2013, descobriu um novo transportador de ferro presente no parasita da malária. Uma vez bloqueado, o transportador faz com que o ferro em excesso se torne letal, abrindo portas para o desenvolvimento de novos fármacos.

O ferro é essencial à vida, mas também é extremamente tóxico. É o que acontece no nosso corpo, as células precisam de ferro e todos os organismos precisam de ferro, mas quando ele está em excesso causa danos muito muito graves, e o parasita da malária não é diferente disso: precisa de ferro mas se tiver em excesso morre“, explicou à Lusa a investigadora.

O que a investigação mostrou foi que este novo transportador é essencial ao parasita para que este consiga armazenar o ferro que está a mais e guardá-lo num sítio que não permite que se torne tóxico. Esta descoberta é “muito importante“, porque em determinadas circunstâncias o parasita da malária pode estar em locais que tenham ferro em excesso, o que pode fazer com que seja letal ou muito grave para o parasita.

O que nós mostramos é que se tivermos um parasita da malária que não tem este transportador – nós conseguimos fazer um parasita que não tem este transportador -, o que acontece é que este parasita não se consegue desenvolver bem“, disse Maria Mota.

Para desenvolver esta investigação, a equipa de investigadores usou uma estirpe mutante de levedura, na qual a sequência para uma determinada proteína transportadora de ferro foi removida do DNA. Devido à incapacidade de produzir esta proteína transportadora de ferro, a estirpe de levedura mutante não conseguiu crescer na presença deste micronutriente. Partindo desta experiência, os investigadores criaram parasitas de malária mutantes aos quais retiraram o gene da proteína em questão. Consequentemente, estes parasitas continham um teor de ferro elevado dentro dos glóbulos vermelhos, o que, devido à sua toxicidade, resultou num número reduzido de parasitas.

O impacto desta descoberta para o futuro é conseguir desenvolver fármacos que consigam inibir este transportador. “Se bloquearmos este transportador, o parasita vai começar a acumular ferro, o que o torna tóxico, e não se vai conseguir desenvolver bem“, acrescentou. Por outro lado já existem fármacos que estão dependentes dos níveis de ferro. Deste modo, um dos estudos a serem desenvolvidos a seguir “é ver como a presença ou não deste transportador afecta a função e a eficiência desses fármacos“.

 

Fonte: rr.sapo.pt
Foto: FLAD