Portugueses de Excelência somos todos nós

Hoje escrevo sobre algo diferente do que é habitual no Excelência Portugal: não venho relatar sobre um caso de sucesso de uma alma lusa que se destacou neste ou naquele campo. Desta vez, a história que conto é sobre uma cara desconhecida, cujo legado é incorpóreo, contudo memorável.

Quero contar a história de uma portuguesa de excelência singular. Esta mulher não foi empreendedora, não lançou nenhum produto ou serviço, nem se destacou num mercado estrangeiro. Mas foi importante, muito importante. O nome dela é Cândida, e foi para mim uma segunda avó.

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“Cândida com a sua segunda família” (1973)

Úcilia Cândida Piedade da Silva era o seu nome. Cândida, como é conhecida, veio trabalhar para a família Perestrello a 20 de Abril de 1959 como ama e hoje é avó de muitos, sem nunca ter sido mãe de ninguém. Menina da aldeia, mal teve direito a ir para a escola – no breve período que teve acesso a uma sala de aula, a professora, essa malvada recém-mãe pô-la a lavar as fraldas no rio enquanto as outras crianças eram ensinadas. Ainda assim, Cândida conseguiu aprender a ler e a escrever sozinha (isso mesmo, sozinha. Se isto não é excelência não sei o que é). No 25 de Abril acompanhou a minha família para Inglaterra onde aprendeu o inglês. “Senhora no here. In school. Fetch meninos.” dizia ela aos telefonemas inquisitivos sobre o paradeiro da minha avó. Sempre se conseguira desenvencilhar fosse qual fosse a situação.

A família regressou para Portugal e Cândida continuou ama dos meninos, agora adultos e  a começar a ter bébes seus. Não haveria outro colo a confiar senão ao da doutorada em infantes, Candinha. Pelos seus braços passaram 12 crianças (fora primos e amigos  dos mesmos que também teve de aturar). Viu casamentos, divórcios, nascimentos, mortes, graduações e primeiras comunhões. Sempre na primeira fila.

Uma queda há uns três anos debilitou-lhe muito a saúde, mas foi a morte inesperada de um dos quase-filhos que lhe quebrou o espírito. Hoje, somos nós que estamos na primeira fila a despedirmo-nos dela.

Adeus Cândida. Leve muitos beijinhos ao tio Titão e aos bisavós.


Fotografia:
Carlota Perestrello