Marta Pereira da Costa é a única guitarrista profissional de fado em todo o mundo. Licenciou-se em engenheira civil, fez investigação no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, mas a paixão pela guitarra venceu.
Gosto imenso de desafios e não tenho medo do desconhecido ou do não haver mulheres a tocar – Marta Pereira da Costa (Revista Executiva)
Marta Pereira da Costa cresceu com a música. Aos 4 anos iniciou-se no piano, aos 8 na guitarra clássica e aos 18 na guitarra portuguesa. O pai incentivou a aposta na tradicional guitarra portuguesa, um “território” exclusivo dos homens, onde a filha teria oportunidade de se destacar.
O álbum de estreia da guitarrista Marta Pereira da Costa é um registo arriscado e fascinante na assunção da diferença. O álbum homónimo espelha a sua natureza e personalidade.
Marta propôs-se encontrar rumos por onde a Guitarra Portuguesa raramente tinha seguido, desde a sonoridade clássica ao Jazz e às várias abordagens da World Music, nunca descurando os ritmos e sons tradicionais portugueses e o próprio Fado – e até fundindo-se com estes – que estarão sempre subjacentes a todo o repertório, pois fazem parte do ADN do próprio instrumento.

A guitarra abre-se ao mundo, escancara portas que ninguém tinha ainda ousado experimentar. Por duas simples razões: discos tradicionais de guitarradas já existem em número suficiente para que o mundo não esteja desesperadamente à espera que chegue mais um; e porque a natureza de Marta está longe de poder ser confinada a esse respeitável mas limitado universo sonoro.
Assim, através da sua abordagem feminina e toque pessoal, recupera temas tradicionais e acrescenta temas novos não só de sua autoria, contando com a participação de intérpretes de nomeada no panorama musical nacional e internacional.
Além de Camané, Marta chamou para cantar a seu lado duas vozes fundamentais na sua vida: Rui Veloso e Dulce Pontes. Ambos contribuem com temas originais (no caso de Veloso, música para uma letra de Manuela de Freitas) que reforçam a profunda marca portuguesa presente na música da guitarrista. E essa marca não desaparece, curiosamente, nas suas colaborações de absoluta surpresa: com a cantora iraniana Tara Tiba, que o violista Diogo Clemente encontrou num festival da Austrália e gravou num quarto de hotel, intuindo uma ligação especial entre duas mulheres que rompem as tradições musicais dos seus países (no Irão as mulheres não podem cantar a solo); e com o lendário baixista de jazz camaronês Richard Bona, que Marta conheceu numa masterclass em Lisboa, em 2014.
A tudo isto junta-se ainda o belíssimo diálogo para duas guitarras, “Ícaro”, Marta na portuguesa, Pedro Joia na clássica com travo a flamenco, e “Folia”, uma encomenda da guitarrista ao músico de jazz Mário Laginha. Familiarizado com a escrita para guitarra que desenvolve para o reportório do seu Novo Trio, Laginha apresentou a Marta um tema “dificílimo de tocar” que representou maior desafio interpretativo de todo o disco. Foram muitas horas de estudo para domar a música e a primeira vez que, no domínio da guitarra, teve de aprender uma composição através de partitura.
O álbum tem produção e direcção musical suas e do pianista Filipe Raposo, numa edição da Warner Music Portugal.
Fotos: DR