O que é a Inventoo? Entrevista com Fernando Cortê-Real

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Fernando Cortê-Real, um inventor nato, percebeu um dia que a sua mulher tinha dificuldade em tirar a cadeirinha de bebé no carro. “Mas porque é que a cadeirinha não gira 90 graus?”. Depois de a ideia lhe ter surgido, partilhou-a com as grandes empresas do mercado e viu a sua invenção ser implementada uns anos depois. Coincidência ou não, esta experiência foi o primeiro passo para a criação de um novo conceito que permitiu a criação da Inventoo. Fomos descobrir mais sobre este recente projeto e sobre o seu fundador, que partilhou com a sua extrema simpatia e discurso motivador as ideias que pretendem revolucionar o mercado.

O que é a Inventoo?

A Inventoo é uma plataforma de inovação que tem com o objetivo juntar inventores e marcas. O pressuposto básico é que nem todos os inventores, só por serem inventores, têm de se assumir como empresários. Acho que é um conceito que está muito instalado e que na minha opinião é errado porque nem todos tem a vontade, a disponibilidade, os recursos, enfim… Muitas vezes nem o perfil para o ser.

No fundo, o inventor pode ser um bocado como um escritor. Escreve o seu livro mas depois não faz chegar o livro às bancas: não edita, não produz, não distribui.

O formato que quero trazer de novidade é este. O inventor pode inventar mas depois não tem de ser o empreendedor por natureza. Portanto, pode tentar vender a sua invenção a marcas que já existem. Por exemplo, alguém que tenha tirado o curso de química ou biologia e inventou um novo conceito de pasta de dentes e tenta vender à Colgate, Pepsodente, a qualquer outra marca.

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Ou seja, em vez de ir sozinho ter com as marcas, vai pelo intermédio da Inventoo.

Sim e porquê? Porque o tentar ir sozinho é muitas vezes aquela “Missão Impossível”. Quando se bate à porta das grandes empresas é sempre difícil de o fazer. A logística é complicada mas não só. Imagine uma empresa como a Coca-Cola. Seria impossível ver tudo aquilo que lhe bate à porta. Porque eles não fazem os castings como nos concursos de música e de dança!

Portanto o objetivo é tentar transformar isso numa relação “Business to Business” ou seja, o inventor vai à plataforma e promove a sua invenção. Ele não explica o que é, faz apenas uma pequena publicidade. Isto para depois as marcas que conhecem a plataforma irem pesquisar invenções que possam interessar a sua indústria e a sua empresa.

O Fernando conseguiu identificar um tipo de inventor que denominou de entreployeeneur. De onde vem este novo conceito?

O que eu identifiquei é que existia um novo agente. Não está agarrado exclusivamente ao conceito de entrepreneur que eu acho que é exagerado por generalizar a todos os inventores. Entreployeeneur vem da mistura das palavras entrepreneur e employee. Ou seja eu posso continuar com o meu trabalho, não desistir da minha carreira, não correr riscos e ao mesmo tempo tenho uma invenção e posso ter sucesso e conseguir vende-la a uma marca. Tentar ganhar com esta invenção, fazendo render um passatempo e transformá-lo em negócio não pondo em causa a vida do dia-a-dia.

E mantendo também a formação base de cada inventor

Um advogado pode inventar algo que possa ser a próxima Coca-Cola do deserto! E não teria de desistir da advocacia para ser empreendedor numa área de formação que não é a sua. Acho que é algo que está muito instalado e que deve realmente ser mudado.

Mas não será fácil mudar esta mentalidade

Vai ser difícil porque vai ser preciso que as pessoas percebem que é possível. Até porque hoje em dia, muito por causa da crise, o conceito de open innovation das empresas está muito recetivo. Não existe é muito neste conceito de push, da pessoa para o mercado.

O que acontece é um bocado ao contrário. As grandes empresas como Sony, Starbucks quando têm dificuldades de resolver problemas técnicos, põem em plataformas o desafio “Preciso de resolver esta situação”e as respostas surgem.

A Inventoo quer responder de maneira diferente à maneira como as empresas interagem com o mercado. Qual a alternativa?

Este conceito de pull é muito baseado em ter um problema e pedir ajuda ao Mundo para o resolver. É muito reativo. Aqui quero promover algo muito push, mais proactivo! Imaginemos que a Inês tem uma invenção, ainda está a acabar o curso e porquê desistir do seu percurso original? Pode ser inventora sem ser empreendedora.

Na Inventoo, qual o percurso de uma invenção? Desde uma ideia que nasce numa pessoa, que não tem de ter formação nem apetência natural para o mundo empresarial, até ser implementado por uma empresa.

A Inventoo quer criar a plataforma, gerar confiança às duas frentes que ali é o local certo tanto para os inventores e para as marcas. Vende o espaço para promoção da invenção e vende o contacto do inventor, que não está disponível para a marca. Depois tem alguns serviços add-on como disponibilizar layouts de contratos, dar algumas pistas, alguma prototipagem. Existem algumas guidelines dadas por pessoas experientes no mercado mas tudo muito básico.

De que forma a Inventoo se afasta do conceito das empresas incubadoras já tão implementado?

O que a Inventoo pretende fazer é ter um negócio de volume onde entram propostas de inovação e aparecem do outro lado mercado as marcas que pretendem adquirir novas invenções. Não fazemos serviço de consultoria pelo meio do processo como as incubadoras, onde ajudam a desenvolver o negócio e onde se cria uma costumização. Não ficamos com % de capital, nem cobramos success fees. Não acreditamos que seja um modelo para a internet e mesmo no mundo real tem-se visto que nem sempre resulta.

O contacto entre o inventor e a marca é sempre online?

Exatamente. A partir daí é entre o inventor e a empresa, nós não queremos envolver-nos no negócio! O que podemos é ser facilitadores e arranjar contactos de parceiros das áreas, sejam cá ou internacionais, para a ajudar a estabelecer desenvolver a ligação.

Podemos então afirmar que o core business é divulgação e permitir o contacto primordial entre estes dois agentes. Como é que a Inventoo transforma isto num negócio em si?

Existe alguma proatividade do lado da Inventoo que torna isto possível. Quando um inventor quer colocar a sua invenção uma das coisas que disponibilizamos é a criação de um enquadramento para conseguir promovê-la sem expor a própria ideia. Muitas das pessoas tem as suas invenções guardadas na gaveta pelo risco de serem roubadas. As empresas podem ter acesso às informações que estão na plataforma mas depois tem de pagar para ter o contacto com o inventor.

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Quando a empresa entre em contacto com o inventor, já sabe qual é o modelo da invenção?

Apenas saberá aquilo que for colocado pelo inventor. À partida terá apenas uma catalogação da invenção. Mas recomendamos sempre que os inventores ponham as suas target companies, outro serviço que disponibilizamos na plataforma.

Esta identificação permite à Inventoo ir “picar” essas empresas e centros de investigação a partir de uma relação “B2B” que gera muito mais confiança e profissionalismo. Afirmamos que somos uma plataforma de inovação e que se a for consultar verá que para a sua indústria, e se calhar até para a sua empresa, existe alguém a fazer uma proposta. Isso faz com que as empresas se sintam atraídas em vez de pensarem “Pronto, mais um a bater à porta”.

 

A Inventoo está direcionada para um mercado low cost?

O low cost nunca será o possível valor para o inventor quando a marca decide comprar invenção, isso dependerá sempre do que ela valer e do que se chegar a acordo. Low cost surge por não se precisar de toda uma infraestrutura para a implementar e pelos valores que nós praticamos para a promover e para fornecer o contacto.

 

Muitas vezes as empresas target são empresas já muito enraizadas no próprio mercado e tem uma estrutura de I&D muito desenvolvida.

Como é que a Inventoo se posiciona?

Esta realidade tem começado a ser alterada nos últimos seis anos. Há grandes empresas como a Toshiba ou a Sony no mundo inteiro que estão a fechar os seus centros de desenvolvimento. Se antigamente o eram, agora já nem sempre sãonão é sustentávelsustentáveis.

O paradigma tem mudado. E quando nós inventamos alguma coisa, muitas vezes vem para dar resposta a alguma necessidade que sentimos. Pretendemos ser uma ponte entre o que o mercado sugere e as empresas, fazendo parte da mudança que se tem desenvolvido.

O projeto já tem quatro meses. Como tem sido a aceitação por parte tanto das empresas como dos inventores?

Da parte das empresas ainda não chegámos a essa componente. Eu tinha definido três meses para iniciar a divulgação e depois dois meses para começar a angariação direta. A divulgação tem corrido muito bem e fomos inclusive entrevistados pela Marketeer. Esta revista interessou-se pelo nosso conceito que achou bastante agressivo e disruptivo em termos de inovação. Tem corrido melhor do que estava à espera!

De seguida, vamos começar a ter mais inputs na base de dados para irmos ter com as empresas. É ainda um bebé de quatro meses, vai agora começar a comer quase não come a papinha, mas queremos para comecar a crescer!

Está ainda numa fase embrionária portanto?

Sim, numa fase muito inicial. E se me perguntar quanto estou à espera de faturar não faço mesmo ideia. Não será o meu principal desafio no primeiro ano. O primeiro ano servirá para ver se existe aceitação. Não uma aceitação de mercado porque esta acho que é relativamente óbvia, mas se está no formato certo para as pessoas criativas se sentirem confortáveis para irem lá apostar as suas invenções.

Porque depois de os inventores apostarem, a outra parte é muito mais fácil. Aquilo que as pessoas acham que é mais difícil que é ir ter com as empresas, é na verdade mais fácil depois de existir uma base de dados volumosa.

Imagine-se no lugar de um criativo. Está sempre a ser pressionado para trazer os novos iPhones do mercado e não surge, porque o mercado não consegue aceitar tudo. E vê que existe uma plataforma com invenções que as pessoas sentiram necessidade de criar. O sucesso pode estar ali e é muito apetecível. Até pode não dar! Mas o custo de ir conhecer a invenção e a pessoa é muito mais barato do que tentar criá-la num centro de desenvolvimento com centenas de engenheiros. É muito mais económico.

Olhando para agora para os inventores quais as pessoas que têm aderido?

Eu inicialmente tinha feito um estudo de mercado muito baseado nos conhecimentos académicos, sem contratar ninguém profissional. Fiquei muito surpreendido com os dados que surgiram! Para já, 52% das pessoas dizem que já lhes surgiu uma invenção, acham que é propícia para lançar para o mercado mas nunca o fizeram. Por aquilo, por aqueloutro, porque surgiram imprevistos, porque ficou na gaveta. Há milhões de inovações que ficaram nas gavetas e não estão a ser aproveitadas. E isto é um desperdício, mas é a realidade.

Quando foi feito o inquérito, existia a evidência que os inventores contavam com mais homens do que mulheres. O que, quando foi feito, até podia fazer algum sentido. Curiosamente, se for ver agora o que está realmente a acontecer no momento, 55% dos utilizadores são mulheres. E eu acho isto muito interessante.

Porquê?

Para já começa a trazer uma realidade que já está escondida há muitos anos: as mulheres são muito mais criativas que os homens. E contra mim falo! Depois, são mais proactivas. Têm também um leque de situações de vida que passam que é muito maior e que é mais propício a invenções. Por exemplo, toda a indústria dos bebés e das crianças, as mulheres sentem mais isso e reparam mais nas necessidades. É uma realidade.

Eu tirei o curso à noite, em pós-laboral, e como tinha muito mais mulheres, fiquei com uma perspetiva muito diferente. Quando são boas, são muito melhores que os homens. Infelizmente são muito poucas que lá chegam pois dispersam-se principalmente com a família, embora tenham uma extraordinária capacidade de multitasking. Quando se dedicam completamente à carreira, aquilo é quase uma ultrapassagem pela direita! E foi muito bom ter este feedback feminino.

De que forma a Inventoo pode estar a combater o desemprego? Isto é, uma pessoa desempregada que tem uma invenção guardada na gaveta a vida inteira têm agora o tempo e a oportunidade de a por a render.

Muitas vezes, só têm o tempo. Muitas pessoas não têm capacidade de arranjar investimento, de ir ter com a empresa ou criar a sua. Está assim a perder um tempo exorbitante e não está a focar-se naquilo que criou.

Tem a capacidade de o executar? Terá a sorte de aquilo dar certo? Porque todos sabemos de casos excecionais de empreendedorismo mas são apenas um décimo. Os outros casos ninguém fala, os chamados casos falhados. Mas estes casos falhados podiam ter ido por outra via e alcançar o sucesso. Não quer dizer que a invenção ou o produto seja mau, só não tiveram a capacidade, sorte e timing certo para a concretizar.

Mas quem quiser ser empreendedor que o seja, a Inventoo não quer tirar oportunidade de o ser. O que queremos é dar a oportunidade aqueles que tem invenções mas não querem ser empreendedores para não correr risco, por não terem capacidade ou disponibilidade, querer manter a sua vida…

A Inventoo foi criada de raiz para ser internacional, para um mercado global, certo?

Certo. E com uma vantagem muito gira, nós portugueses somos idiotas por natureza, uns criativos de primeira! Não há sistema de multibanco como o português, que faz tudo. A Via Verde é raro existir noutros sítios do mundo e, quando existe, foi trazida de Portugal. Temos coisas fantásticas na área da inovação criada por portugueses. E por isso tem alguma piada ter sido criada aqui e tem um grande potencial só pelos próprios portugueses.

O site começou em inglês para podermos chegar desde o início ao mundo todo e estamos a começar a traduzir para mais três línguas. Vamos tentar divulgar a plataforma noutros países para que seja um negócio internacional.

A Inventoo, que acaba por ser um ninho de invenções, foi em si uma invenção do Fernando. Como é tudo nasceu?

Na faculdade ia tendo algumas invenções e pensava “Vou ser empreendedor de isto tudo!” Um problema das pessoas empreendedoras é que estão sempre a aparecer novas ideias e depois não sabemos em qual delas iremos investir. Vou fazer empresas para todas?

Vou é tentar vendê-las! E foi assim que começou a nascer o conceito. Depois da experiência de ter inventado uma nova cadeirinha de bebé sem nenhum retorno para mim, achei que isto se poderia passar com mais pessoas. Um bocadinho à semelhança da mão invisível do Adam Smith que afirma que nós criamos os negócios para responder às próprias necessidades. A Inventoo embora seja uma empresa positiva para os outros, é também boa para eu expor as minhas próprias invenções.

Para terminar, onde espera que a Inventoo esteja daqui a um ano?

No Parque das Nações, num espaço maior (risos)! Pelo menos ter dados para confirmar que existem registos de inventores que tenham sido vendidos a empresas. Muito mais do que isto depois não sei se consigo saber porque fica à vontade das duas partes. O meu grande objetivo agora é conseguir cativar os inventores e que existam empresas que vejam a Inventoo como uma fonte interessante para começarem a comprar. Porque depois quando as coisas funcionam, o sucesso vem associado.

 

fotos: DR