Investigadora portuguesa venceu o BiotechnologyYES, um prestigiado concurso britânico destinado a estudantes de ciências que queiram aventurar-se no mundo empresarial

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Joana Branco dos Santos venceu o BiotechnologyYES, um prestigiado concurso britânico destinado a estudantes de ciências que queiram aventurar-se no mundo empresarial. Joana Branco dos Santos e a sua equipa venceram a edição de 2014 e agora partem para o Texas, nos Estados Unidos, onde representarão a Grã-Bretanha.

Biotechnology YES final 2014

Quem é a Joana Branco dos Santos?

Joana Branco dos Santos nasceu nas Caldas da Rainha, no dia 8 de Novembro de 1987. Frequentou sempre as escolas da região e em 2007 rumou a norte, mais especificamente Vila Real, onde ingressou no ensino superior para se formar em Genética e Biotecnologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Seguiu-se um curto estágio de verão no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, com o intuito de ficar a conhecer um pouco mais do dia-a-dia em laboratório.  Depois surge a convicção que queria  trabalhar em neurodegeneração e resolve candidatar-se ao mestrado de Neurociências da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Realizou o trabalho para a sua tese de mestrado no laboratório do Dr. Tiago Fleming Outeiro, no Institituto de Medicina Molecular, em Lisboa, e por lá resolveu continuar. Escreveram um projecto científico e concorram a uma bolsa individual de doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia.  Neste momento encontra-se a frequentar o Programa Doutoral do Centro Académico de Medicina de Lisboa, com especialização em Neurociências, e o seu trabalho é desenvolvido entre Portugal e Inglaterra (Leicester).

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- O gosto pela ciência já nasceu contigo?

O gosto pela ciência propriamente dita penso que não. Mas lembro-me que sempre fui muito curiosa, não em relação a tudo, mas em matéria de biologia e saúde. Queria sempre saber como tudo funcionava ao pormenor, perceber o porquê de o nosso corpo responder de uma determinada forma ao invés de outra perante um determinado estímulo externo, o que acontece no interior das nossas células quando damos essa reposta, o porquê de determinadas perturbações ou doenças poderem afectar de forma tão distinta diferentes populações e, portanto qual a implicação do nosso código genético perante essa perturbação ou doença, perceber de que forma podemos “mexer” na expressão do nosso código genético para atrasar, atenuar ou mesmo curar essas doenças. Já numa fase mais tardia, na recta final da minha licenciatura, comecei a desenvolver um enorme fascínio por aquele que considero o maior mistério que o Homem tem por desvendar, o seu próprio cérebro. E, daí ter percebido que o meu futuro académico passaria por estudar o cérebro humano e quais os mecanismos moleculares associados à morte de neurónios que acontece em doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.

- Achas que em Portugal terias condições para desenvolver o teu trabalho?  Como vês o sucesso de tantos portugueses que estão fora de portas?

Acredito que sim, aliás o meu trabalho de doutoramento passa também por Portugal. Comecei o meu doutoramento em Portugal e passado uns meses voei para Inglaterra e estabeleci-me na Universidade de Leicester, onde o nosso laboratório tinha já várias colaborações a decorrer. A minha vinda para Inglaterra já estava prevista à priori no meu projecto de doutoramento mas foi uma decisão totalmente minha, sabia que seria uma mais-valia a nível de crescimento pessoal e profissional. A ciência é universal, é importante  sair mesmo quando há condições para desenvolver o nosso projecto em “casa”, trabalhar em outros laboratórios, conhecer outras realidades e outras formas de fazer ciência, tudo isso é o que nos faz crescer não só como investigadores mas também como pessoas. Aliás se olharmos para o curriculum de todos os grandes cientistas e investigadores portugueses, hoje com os seus laboratórios sediados em Portugal, percebemos que a grande maioria fez parte da sua carreira lá fora e depois regressou. Faz-se muito boa ciência em Portugal e formamos excelentes investigadores, o problema passa pelo reduzido financiamento para manter essas pessoas em Portugal, as condições de trabalho são ainda muito precárias, pouco atractivas e com poucas perspectivas de crescimento. Portanto, quando não há dinheiro para continuar projectos, ou quando deixa de haver dinheiro para pagar salários, torna-se inevitável procurar oportunidades fora de portas, onde nos oferecem um maior reconhecimento monetário e mais garantias de crescimento e estabilização de carreira. Mas também há muitos que saem por opção, como no meu caso, porque procuram consolidação profissional ou apenas um novo desafio. Vejo com bastante naturalidade o sucesso dos jovens cientistas portugueses lá fora, porque vamos melhor preparados em comparação com outros estudantes de ciências de outros países e somos, regra geral, mais determinados e trabalhadores.

- Convives com outros investigadores portugueses no Reino Unido?

Temos uma grande comunidade científica portuguesa no Reino Unido. Estamos um pouco espalhados mas graças ao trabalho da Associação Portuguesa de Investigadores e Estudantes no Reino Unido (PARSUK), da qual sou membro, são organizados encontros anuais onde temos a oportunidade de conviver e discutir o estado da ciência portuguesa e outros temas da actualidade. Para além disso, há alguns estudantes de doutoramento e pós-doutorados na Universidade de Leicester com quem convivo diariamente. E curiosamente tenho também amigos e colegas na Universidade de Cambridge e em Londres.

- Pensas regressar?

Sim, quero regressar. A curto prazo tenho algumas experiências importantes para terminar em Lisboa, ainda no âmbito do meu doutoramento. Quando terminar o doutoramento gostaria de ficar em Portugal, mas claro que tudo dependerá das oportunidades profissionais que surgirem. Tenho consciência que o mercado de trabalho em Portugal é pouco competitivo nomeadamente na área de investigação e ciência e, nesse sentido o estrangeiro continua a ser uma opção bem real.

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- É no laboratório que passas grande parte do teu tempo. Em que consiste a tua investigação? 

O meu trabalho de doutoramento centra-se no estudo da doença de Huntington, uma doença neurodegenerativa hereditária, ou seja, com causa genética. É uma doença que se caracteriza por perda de coordenação motora, movimentos involuntários e, numa fase mais tardia, surgem complicações psíquicas e cognitivas que dão origem a alterações de personalidade, agressividade, depressão e demência. A nível histopatológico esta doença, tal como o Alzheimer e Parkinson, é caracterizada pela acumulação e agregação de proteínas “anormais” num grupo especifico de neurónios que acaba por levar à morte desses neurónios. O meu projecto de doutoramento consiste em estudar os mecanismos moleculares, nomeadamente modificações bioquímicas pós-traducionais que ocorrem após a formação das proteínas e, que levam à alteração e agregação dessas proteínas. Nesse sentido estamos a tentar identificar potenciais alvos terapêuticos que possam, numa fase posterior, ser utilizados pela industria farmacêutica para a produção de novos fármacos mais eficazes.

- Que aplicações práticas poderá ter o mesmo?

Tal como expliquei anteriormente o objectivo final do meu trabalho passa por abrir novas “linhas de investigação” através da identificação de potenciais alvos terapêuticos que deverão ser testados para o desenvolvimento de fármacos de última geração para o tratamento da doença de Huntington e outras doenças neurodegenerativas.

- Que significado tem para ti este prémio? 

Para além de todo o processo de aprendizagem, que apesar de bastante exigente se tornou extremamente compensador a todos os níveis, e das novas competências que adquiri numa área que não é de todo a “minha praia”, o prémio tem-nos proporcionado excelentes oportunidades para networking, tenho conhecido empreendedores com histórias de sucesso fantásticas, interagido com investidores reais e  pessoas ligadas às mais diversas áreas da indústria biotecnológica e do mundo empresarial. Mas mais importante que tudo isso, este concurso fez-me sair da minha zona de conforto e proporcionou-me o contacto com novas e diferentes realidades que me ajudaram a pensar um pouco “fora da caixa” e no que está para lá das portas de um laboratório.

- Defendes que a indústria portuguesa devia apostar mais nos jovens cientistas. Achas que a ligação meio académico/meio empresarial não funciona ?

Não de todo, nomeadamente em Portugal. Temos um número brutal de doutorados para as vagas disponíveis no sistema científico e académico nacional. E portanto, estamos a assistir a uma crescente necessidade de empregar e transferir investigadores do sistema científico, e em particular das universidades, para as empresas. No entanto, é necessária uma maior consciencialização para este problema e uma maior abertura das empresas portuguesas à inovação, mas também é necessário atrair mais jovens cientistas para a indústria e para o sector privado. Penso que uma das soluções passa precisamente pela criação, em Portugal, de concursos semelhantes ao “Biotechnology YES”. Este concurso é desenhado para investigadores em inicio de carreira e projectado para aumentar a consciencialização sobre a importância da comercialização de ideias biotecnológicas e biomédicas. A ideia é atrair mais jovens cientistas para a indústria de forma a aumentar a produtividade e a competitividade da economia. Além disso, neste género de competições é esperada uma interação pró-activa entre jovens investigadores e potenciais empregadores ou investidores o que permite também a consciencialização, por parte do empregador, do potencial e das vantagens que um jovem cientista pode trazer para a sua empresa. Por exemplo, no Reino Unido há cada vez mais empresas e instituições a financiarem e a tomarem parte destes concursos porque vão precisamente à procura de novos colaboradores com determinação e vontade de inovar.

- Como encaras o teu futuro?

Neste momento estou focada em terminar o meu doutoramento o melhor possível. Em relação ao futuro da minha carreira profissional tenho várias hipóteses em cima da mesa e alguns projectos que gostaria de ter a oportunidade de desenvolver ligados ao empreendedorismo científico.

- Para além da paixão pela investigação, quais são os seus outros interesses?

Sou uma apaixonada por naturopatia na cozinha e consequentemente tudo o que involva um estilo de vida saudável e equilibrado. Ir correr, fazer uma aula de body pump ou simplesmente dedicar algum tempo a planear e preparar as minhas refeições é das coisas que me dá mais prazer e me ajuda a aliviar os níveis de stress e ansiedade. Para além disso, e a um nível mais intelectual, interesso-me por política e gosto de escrever sobre diversos temas da actualidade. Estou aliás a ponderar criar um blog muito brevemente.

 

fotos: DR