
Investigadores aplaudem a inclusão da maior montanha submarina portuguesa na Rede Natura 2000. Mas este é só um primeiro passo.
Ainda estão por descobrir todas as espécies existentes no maior monte submarino português, quais as que estão em risco, que outros factos e descobertas estão por ser revelados. Ainda há muitas perguntas sobre o Banco de Gorringe, que se ergue entre a costa Sul de Portugal e a Madeira, a Sudoeste do cabo de São Vicente. O Governo português deu agora um passo que pode conduzir os cientistas às respostas.

O Gorringe foi descoberto, em 1875, por uma expedição americana (USS Gettysburg) comandada pelo capitão Henry Gorringe, de onde advém o nome deste monte submarino.
Os “valores naturais de elevada relevância protegidos pela Directiva Habitats da União Europeia” presentes nas montanhas submarinas que se elevam desde o leito marinho, a 5000 metros de profundidade, até 28 metros da superfície da água, levaram o Governo a incluí-las na Lista Nacional de Sítios, no final de Julho. O Gorringe torna-se assim a primeira área marinha protegida da Rede Natura 2000 inserida na zona económica exclusiva (ZEE) de Portugal continental.
“O Banco de Gorringe é um ecossistema muito especial”, resume Gonçalo Calado, biólogo e professor na Universidade Lusófona. Por ser o único monte submarino em águas portuguesas cujo cume está a menos de 30 metros da superfície e por se encontrar relativamente afastado da zona costeira, o Gorringe abriga uma comunidade biológica com características únicas.
A proposta de classificação como Sítio da Rede Natura 2000, elaborada pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), sistematiza as características que tornam este banco digno de protecção. Por um lado, a existência de dois tipos de locais: “recifes” e “bancos de areia permanentemente cobertos por água do mar pouco profunda”. Por outro lado, a presença, pelo menos ocasional, de espécies protegidas. O Banco Gorringe é um local com elevada produtividade primária para um contexto oceânico e com um ecossistema único e, até ao momento, foram identificadas 862 espécies, mas ainda há muitas por estudar.
A notícia da inclusão do Gorringe na Rede Natura 2000 foi recebida com aplausos: “Estas acções incentivam-nos a continuar a investigar os fundos marinhos de grande profundidade com o objectivo de identificar os locais que devem ser protegidos”, refere num comunicado o director-executivo da Oceana na Europa, Lasse Gustavsson.
A inclusão deste novo Sítio com cerca de 2288 mil hectares, em área exclusivamente marinha, vem, segundo o comunicado do Conselho de Ministros, «assegurar uma melhor representatividade dos valores naturais aos níveis nacional, europeu e biogeográfico, contribuindo para completar a Rede Natura 2000 em Portugal, e em particular no meio marinho».
Depois deste “primeiro passo”, falta saber que medidas ficarão definidas no plano de gestão e como serão aplicadas: A proposta do ICNF sugere medidas que minimizem a “perturbação, dano, destruição ou remoção de organismos marinhos e/ou partes do habitat”, impeçam o despejo de substâncias nocivas no local, regulamentem a pesca recreativa e comercial, garantindo o “bom estado ambiental do sítio”, condicionem a passagem de navios em trânsito e regulamentem o turismo subaquático. É também recomendada a adopção de medidas que permitam, incentivem e apoiem a investigação científica.
Gonçalo Calado defende a necessidade de realizar mais estudos e de aprofundar as pistas já recolhidas. “Num futuro ideal, em que tivéssemos estações de monitorização sistemáticas e permanentes ao longo da costa portuguesa, o Gorringe seria um óptimo candidato, caso existam meios para o fazer”, sugere.
E, partindo agora à descoberta, os investigadores vão poder mostrar a Portugal e ao mundo que há ainda muito por descobrir. Que temos muito por revelar e que não é só lá fora que podem existir mistérios e segredos não revelados. E com este reconhecimento há um maior estímulo à investigação, por algo ainda mais fundo, por algo imperceptível para aqueles que não se comprometem a descobrir e a mudar, para aqueles que não se dispõem a levar algo mais longe, para ir além dos limites que nos podem ser impostos.
Fontes: Público, Sul Informação e Histórias da Vida e da Terra
Fotos: Lirios no Gorringe (Foto: D Abecasis CFRG/UAlg) e Google