
Versatilidade é uma das palavras que melhor define Carmo Jardim. Directora de Relações Governamentais e Institucionais da Volskswagen Autoeuropa, divide o seu tempo entre o trabalho de todos os dias e um dos seus projetos de vida, a ONG SIM – Solidariedade Internacional a Moçambique. Sem filhos, é mãe de vários jovens moçambicanos por quem move mundos e fundos no sentido de lhes proporcionar melhores condições de vida e de educação. O projeto conta também com a colaboração de alguns padrinhos, que se juntam a Carmo Jardim nesta vontade de fazer a diferença na vida dos outros. ‘Mãe Carmo’, como é conhecida entre a comunidade que apoia, move-se por sorrisos e diz que criar a organização foi o concretizar de um sonho. Com orgulho no que já conquistou, mas consciente de que ainda há um longo caminho a percorrer, Carmo Jardim partilha histórias, sucessos e projectos para aquele que é um dos grandes projectos da sua vida, a ONG SIM – Solidariedade Internacional a Moçambique.

Quando e como surgiu esta paixão por Moçambique?
Moçambique está no meu coração desde que eu me conheço como gente. Não nasci lá, só por acaso… Mas foi lá que eu passei a minha infância e a minha adolescência, foi lá que cresci e me fiz mulher.
O que é que estas pessoas têm de especial?
Quando se cresce numa terra como Moçambique, ao lado daquele povo tão sacrificado e encantador, é impossível não ficar amarrado para sempre! São pessoas que atravessam os momentos mais dramáticos e as situações mais difíceis com uma enorme coragem e confiança num futuro melhor. Infelizmente parece que esses tempos melhores ainda tardam a chegar. E é por essa razão que tudo o que possamos fazer para as ajudar é sempre pouco.
Como é que surgiu a ideia de criar a ONG SIM?
Desde que regressei a Moçambique pela primeira vez depois da independência, em 1995, que pude observar as condições de extrema carência em que viviam muitas comunidades. Fui sobretudo muito sensibilizada pela marginalização chocante das comunidades de pescadores do arquipélago do Bazaruto, que eu visitara muitas vezes na minha juventude. Fui ajudando como pude, com os meus modestos recursos pessoais e o contributo de alguns amigos, e a um dado momento falando com amigos moçambicanos pensámos que uma ONG teria outras oportunidades de captação de apoios. Assim nasceu a ONG SIM, Solidariedade Internacional a Moçambique.
Que projecto é este?
É o projecto de uma vida, da minha vida. Venho de uma família de muitos irmãos, tenho muitos sobrinhos que amo como filhos e a um certo passo da minha vida decidi não ter filhos e dedicar as minhas energias a ajudar causas, ajudar aquelas pessoas, que eu mal conhecia, mas cujos sacrifícios me doíam tanto. Os recursos são escassos, mas tentamos com imaginação e perseverança ir superando os obstáculos.
Quais são as áreas/regiões de intervenção?
Por agora, e para optimizar os recursos disponíveis na solução de problemas imediatos, concentrámos o nosso trabalho na Zona Norte da Ilha do Bazaruto e no Inhassoro, província de Inhambane, nas areas da educação, da saúde e do ambiente.
De que forma apoia as crianças?
Desde o início que constatámos que o grande obstáculo à promoção social daquelas comunidades era a educação. Com condições muito precárias na escola local, Sitone, da zona norte da Ilha do Bazaruto e sem recursos financeiros para prosseguir estudos no continente, a esmagadora maioria das crianças ou não ia ás aulas ou ficava pelos primeiros anos de escolaridade. Decidimos portanto ajudar a criar condições para tornar a escola mais atractiva. Distribuímos material escolar, roupas, equipamentos desportivos e financiámos obras nas instalações. Argumento decisivo para levar as crianças a gostar da escola foi a distribuição de uma lanche diário, que temos conseguido manter de há alguns anos para cá.

Que histórias de sucesso nos pode contar?
Nesta matéria, o grande sucesso é fazer chegar jovens à universidade. E temos já dois casos que terminam a universidade este ano, no curso de Direito da Universidade Católica da Beira, o Pedro Maluane, na Universidade da Beira, termina o curso de gestão e finanças a Lucinda Cumbe e no 2º ano de Gestão Agrária na Universidade de Vilankulo o Arnaldo Chibale. Mas para nós, cada criança que avança um ano e dá mais um passo na sua promoção pessoal, é um caso de sucesso também!
De que forma podem outras pessoas apoiar as crianças da ONG SIM?
A forma mais directa, para quem pretenda fazer um contributo pontual, é fazer donativos numa das nossas contas em Portugal ou Moçambique. Também temos o programa de apadrinhamento das crianças, que basicamente consiste em bolsas para estudarem no ensino secundário no Inhassoro, e ainda para o programa do lanche escolar. Nestes dois casos os contributos são regulares e mensais.
Trabalha na Volkswagen Autoeuropa e tem vários compromissos profissionais. Como é que encaixa a ONG SIM no seu dia-a-dia?
Da forma mais natural do mundo: quando há um momento livre, dedico-o à SIM. Quando não há, e é mesmo preciso… invento-o!
O que é que a apaixona neste projecto?
Saber que há um número imenso de pessoas a precisar da nossa ajuda e que tudo o que eu possa fazer faz alguma diferença na vida de algumas dessas pessoas. Não podemos resolver todos os problemas e as desigualdades do mundo, mas podemos fazer a nossa parte. E se cada um fizer a sua parte, podem crer que o mundo vai melhorar e estas pessoas vão ter uma vida um pouco menos dura, pelo menos.
Numa frase, “A ONG SIM é…”
Um sonho feito realidade… E um caminho ainda longo para fazer…
Que planos tem para o futuro? Onde quer chegar com esta organização?
Neste tipo de actividade não há linha de chegada. Só há ponto de partida. No futuro é continuar o que estamos a fazer, tentar juntar mais apoios para poder contribuir para a promoção social de um maior número de crianças e adolescentes, não esquecendo o apoio que também queremos dar aos mais velhos. Há sempre mais e mais a fazer… Espero que a ONG SIM se consolide como um agente activo de cooperação para o desenvolvimento e que durante muitos e muitos anos possa continuar, com mais gente e mais recursos, a obra que vem sendo realizada.

Para mais informações sobre a ONG SIM – Solidariedade Internacional a Moçambique, pode consultar www.ongsim.org ou visitar a página de Facebook da organização.
Fotos: DR